Lívia.
Estou focada em realizar meu sonho, sempre falei aos meus pais o quanto queria ser médica. Infelizmente minha mãe não vai poder estar comigo, quando conseguir realizar minha meta, pois devido a um câncer, mamãe nos deixou tem três anos. Meu irmão foi o que mais sentiu a perca, pois sempre foi muito dependente dela, nossa diferença de idade é de quatro anos. Eu tenho 18 e estou correndo atrás de um cursinho, pois quero tentar vestibular para medicina, mais uma vez. Federal é muito concorrida e não consegui entrar na primeira tentativa. Meu pai tem um mercadinho na parte térrea da nossa casa. Ele e o seu irmão Waldir eram sócios, mas meu tio, também nós deixou há cinco anos e seu filho, único herdeiro ficou com sua parte. Quando meu tio faleceu, meu pai assumiu a criação do meu primo. Somos muito unidos. No andar de cima do mercadinho tem dois apartamentos, moramos num deles e o outro era ocupado por meu tio e filho, após seu falecimento, Antino veio morar com a gente. O dele continua mobiliado e a faxineira que limpa o nosso, também cuida do dele, porém dificilmente entramos lá. Daniel meu irmão e Antino tem a mesma idade. Minha tia morreu no parto, então somos tudo que ele tem em questão de família.
Finalmente consegui fazer a inscrição no melhor cursinho, onde as vagas são concorridas. Sigo para o escritório do meu pai para contar a novidade a ele. Seu Walter é meu maior incentivador.
Assim que entro no mercado dou de cara com Marcela. Nós estudamos a vida inteira juntas. Minha amiga está trabalhando de caixa no mercado na parte da tarde, ela assim como eu não conseguiu passar para a uma faculdade pública e como seus pais não tem condições de pagar uma particular, decidiu trabalhar, enquanto faz o cursinho pela manhã.
Eu sou a única que não trabalho na empresa da família. Eles sempre apoiaram meu sonho de ser pediatra.
― Amiga, que saudade de ti. ― nos abraçamos.
― Para de palhaçada sempre passo aqui no mercado pra te ver.
― Mesmo assim não é a mesma coisa. Sinto muito sua falta. Foi uma vida toda estudando na mesma sala e se vendo todos os dias. ― Marcela choraminga, é verdade está difícil não tê-la todas as manhãs animando a sala de aula.
―Também sinto sua falta. Agora me fala, onde está meu pai? Preciso contar que consegui a vaga no cursinho.
― Está no escritório. ― Beijo o rosto da minha amiga e saio em direção ao escritório.
Entro gritando para compartilhar a boa notícia é sou pega de surpresa. Tem um rapaz moreno, muito bonito que meu pai me apresenta como Tiago, amigo de Antino e novo funcionário do mercadinho. Seu aperto de mão é quente, áspero e seu olha másculo e penetrante. Nunca achei que apenas com um olhar, alguém fosse capaz em despertar algo dentro de mim. A sensação de coração disparando com a frequência cardíaca sendo elevada, é algo novo. Adoro descrever os sintomas da anatomia humana, principalmente as do coração. Meu simpático e o pára simpático, mostrando como essas funções são extremas.
Na tentativa de não querer atrapalhar a conversa do meu pai e do tal Tiago, me despeço deles, mesmo querendo ficar ali e conhecer mais e apreciar sua beleza. Procuro a Marcela, dentro do mercadinho.
― Por que não me disse que meu pai estava ocupado? Paguei maior mico.
― Ué! Mico por quê?
― Entrei gritando, achando que meu pai estivesse sozinho.
― Hum! Já tô até vendo! Gostou do Novinho?
― Novinho? Ele deve ter a nossa idade. Meu pai não contrata menores de idade, sabe disso.
― Novinho modo de falar. Funcionário novo e gatinho. E pelo visto a senhorita gostou do que viu né? – Ela me conhece bem.
Quem não apreciaria um homem como aquele? O rosto sério, mas com olhar cheio de mistério. Sorrio disfarçado, porém visível a quem se deixa encara-lo por alguns segundos. Encarei e estou aqui sendo observada, pela minha amiga maluca.
― Para com isso! Tô focada em estudar, vou deixá-lo pra você. ― O desconforto com minhas palavras, trazem a tona o que não estou querendo para minha vida no momento. Gostar de alguém, me apaixonar e tudo o que envolve ter a sua vida dedicada a outra pessoa. Vi amigas se perderem ao iniciarem namoros e relacionamentos mais sérios. O meu foco é o cursinho e a faculdade, o resto, são detalhes dos quais não cabem na rotina a qual estou tentando trilhar.
― Até parece que consigo ter olhos para alguém que não seja seu irmão. ― Minha amiga bufa, mudando seu semblante de bisbilhoteira para triste.
Marcela é apaixonada pelo meu irmão há muito tempo, mas Daniel não dá a mínima para ela, gosta de meninas fúteis, patricinhas e com corpos esculturais, totalmente opostos da minha amiga, que é gordinha, estudiosa e esforçada. Ele é muito burro e ainda não percebeu a mulher maravilhosa que tem por perto.
― Com esses olhos azuis que a senhorita tem… deveria procurar novos horizontes. ― Espero que um dia perceba o quanto meu primo, ao contrario do meu irmão a faria muito amada.
― Fala isso para meu coração.
― Qual é Marcela? Quanto tempo mais vai ficar arrastando corrente para quem não merece. Enquanto Dani pega geral, você perde não dando uma oportunidade para o Antino.
― Tá maluca! Antino é meu amigo.
― Meu irmão também é e isso não fez diferença. Antino pode ser tímido, caladão, super na dele, mas tenho certeza que arrasta um caminhão por você.
― Para de falar merda e me deixa trabalhar, porque a senhorita está com a vida ganha. ― Marcela começa a mudar de assunto. Sempre faz isso, quando não quer mais conversar sobre seus sentimentos. Conheço aquele i****a a quem chamo de irmão, nunca vai reparar nela.
****
Alguns dias depois.
As aulas do cursinho começaram. O horário é integral, pego 8h da manhã e só largo às 17h da tarde. Hoje é aniversário de Daniel. Saio e sigo direto procurar meu irmão dentro do mercado.
― Marcela!
― Oi gata!
― Cadê o aniversariante?
― Acho que está no escritório com seu pai. ― caminhamos juntas entrando pelo estoque. ― Você vai com a gente para Êxtase hoje?
― Não sei preciso estudar, esse ano pretendo me dedicar apenas para os estudos.
―Vamos amiga, você precisa sair um pouco de casa e se divertir. Vive para os estudos. Um dia só não vai fazer diferença. ― Marcela fala segurando minhas mãos quase implorando, sei muito bem o motivo de tanta empolgação, mas aí que vejo o belo moreno, agora de pé. Mais alto e musculoso do que eu pensava.
― Oi Tiago! Como vai? ― o Comprimento.
― Bem e você? – Só agora percebo que ainda não tinha escutado a sua voz, pois a primeira vez que o vi no escritório, apenas sorriu e se manteve calado. Seu tom é grosso e causa arrepios na minha pele.
―Bem também. ― Respondo um pouco insegura, ele mexe com minha libido.
― Tú também vai Tiago, na Êxtase?― Marcela não perde tempo em persuadir o rapaz.
― Não sei moro longe e até voltar vai ser complicado.
― Isso é o de menos, pode pegar uma roupa do Daniel ou do Antino. Vocês têm praticamente a mesma altura. Só seus braços que são… ― meu Deus! O que estou falando. No entanto, Marcela piora o que já estava péssimo.
― Mais Forte! Você malha, Tiago? ― pergunta dando dois soquinhos no braço dele.
― Malho e luto. ― Acho que acabei de molhar a calcinha. Fico imaginando como seu corpo deve ser definido por debaixo do uniforme do mercado. E as imagens de uma luta corpo a corpo me faz querer correr.
― Vou falar com o Antino. ― Ela sai nos deixando a sós. Trocamos mais algumas palavras, meu primo chega e acaba o convencendo a nos acompanhar. Minutos depois eu e meu primo entramos no escritório.
― Pelo visto não vou encontrar o aniversariante aqui.
― Sinceramente eu não sei o que eu faço para colocar juízo naquele desmiolado. ― Meu pai reclama sem tirar os olhos do computador. ― Se não fosse o Antino me ajudar cadastrando produto, emitindo nota, fazendo pedido, atendendo telefone... ― a lista dele não termina ― ,e resolvendo os pepinos que surgem não sei o que seria de mim. Por que contar com seu irmão é difícil.
― Fica calmo, tio. Foi só hoje. Ele tá empolgado com a festa na boate nova. ― Meu primo tenta apaziguar limpando a barra do folgado.
Telefone toca e meu pai atende. Troco um olhar cumplice com Antino em agradecimento, por tentar aliviar as insatisfações do meu pai. Nós temos uma relação maravilhosa, somos muito amigos e confidentes. Tenho mais afinidade com ele do que com Daniel. Compartilhamos os mesmos objetivos, focar em estudar, trabalhar e meu irmão gosta é de farra. Estuda em uma faculdade caríssima particular. Cursa direito, mas nunca vimos pegar em um livro, acho que nunca vi Daniel comprar um livro desde que começou a faculdade. Meu pai se levanta e avisa.
― Preciso descer e resolver uma coisa.
― Nossa! O que deu nele? ― Pergunto ao vê-lo sair bufando e nos deixando sozinho na sala.
― Ele tá uma pilha de nervos. Daniel fez um pedido errado e tivemos que pagar as notas com valores altíssimos totalmente desnecessários. Porque errou na quantidade do produto.
― Meu Deus! Tino e não tem como devolver, parcelar as notas? ― Tento criar uma solução.
― O Tiago deu duas ideias e pelo visto está dando certo. Ele colocou o produto próximo ao caixa e na compra de dois leva o terceiro grátis, então estamos conseguindo desafogar o estoque, sem muito prejuízo. O garoto é bom! Calculou a margem de lucro com a saída dos 3 produtos juntos, sem o mercado ter prejuízo.
― Ele é da sua sala na faculdade? ― Puxo uma cadeira gicando a sua frente e me sento. Interessada no assunto. O escritório tem 3 mesas. Uma do meu pai, outra para o Antino e a do Daniel.
― Não! Ele faz contabilidade e está no primeiro período. Tem 18 anos.
― Nossa! Minha idade.
― Como se conheceram?
― Já te contei. Lembra o garoto que viu minha carteira cair do bolso na faculdade. Acabamos amigos e ele compartilhou suas aflições sobre a faculdade por ser calouro. E lembrei que também passei por isso quando entrei, sem conhecer ninguém. Descobri conversando que estava precisando de emprego e ofereci uma entrevista com o tio. ― gostei de saber que Tiago tem caráter, pois devolveu a carteira.
― Fico feliz por ele ter conseguido o emprego e acabou ganhando um amigo maravilhoso como você. Sabe que às vezes sou obrigada a concordar com a Marcela. ― Tino levanta as sobrancelhas por cima do charmoso óculos de grau na expectativa das minhas próximas palavras. ― Nós dois pensamos demais em estudar e esquecemos que precisamos de diversão de vez em quando.
― Espero que consigamos fazer isso hoje. ― Ele passa as mãos na testa. Tenho certeza de seu empenho para agradar a Marcela, porque para meu irmão nossa presença não vai fazer diferença. A Galera dele é totalmente diferente da gente. Todavia quem manda nas coisas do coração?