Bailey
Talvez o dia de ontem tenha sido um dos mais inúteis que já vivi nos últimos tempos. Depois do meu corte de cabelo, nem eu ou qualquer pessoa fizemos nada o dia inteiro. Meus pais buscaram alguma série para assistirmos depois do almoço e com a indicação de Joalin por La Casa de Papel, acabamos por ficar presos em frente a tv durante todo o resto do dia e noite.
Como a finlandesa já tinha visto, ela dividia sua concentração com a tela do notebook onde editava seus vídeos, era nítido que estava quieta e pensativa o que um pouco me preocupava, depois da história que fiquei sabendo naquela manhã. Ela e Maya acabaram pegando no sono no sofá, só me restou levar as duas no colo até as respectivas camas e dormir logo em seguida, o que não foi muito difícil.
-m***a- ouvi Joalin reclamando baixo e se mexendo do meu lado
-O que foi?- perguntei, mantendo o tom de voz baixo e sem abrir os olhos.
-Nada- ouvi-a levantar e o barulho da porta do banheiro fechando logo em seguida. Estranho, abri os olhos com um pouco de dificuldade e encarei a sacada fechada, o dia ainda começava a clarear.
Fechei os olhos novamente, tentando dormir. Ouvi seus passos e esperei que deitasse ao meu lado, pelo contrário, dessa vez ficou claro que ela tinha saído do quarto. Ainda assim tentei me forçar a dormir por pelo menos mais meia hora, parecia impossível, a cama estava vazia demais e parece que Joalin levou junto com ela o conforto do cômodo.
É, o sono tinha ido completamente embora. Fui até o banheiro escovar os dentes e vesti um moletom, antes de ir atrás da Loukamaa saber se realmente estava tudo bem, desci as escadas devagar e para minha surpresa, encontrei Maya junto a finlandesa.
As duas estavam deitadas no tapete, ambas com almofadas abaixo da cabeça e a mão sobre a barriga, como se sentissem dor. Deus, eu era tão lerdo as vezes que demorei para perceber o que estava acontecendo.
Ok, as luzes estavam desligadas e a única coisa que eu conseguia ouvir era a respiração pesada da minha irmã, d***a, a vida era tão injusta. Tentei caminhar em silêncio até a cozinha e pensar em uma forma de ajudá-las de maneira eficiente.
Leite no fogo para fazer chocolate quente, remédio para cólica, bolsa para compressa quente. Se meu palpite estivesse errado, elas com certeza iriam gargalhar da minha cara por um ano inteiro, mas tudo bem, eu poderia lidar com isso.
Coloquei tudo em uma bandeja, para não me atrapalhar e acabar derrubando as coisas e voltei para a sala, assustando as duas.
-Você não estava dormindo?- Maya perguntou tentando espiar o que eu carregava, ainda com a mão na barriga.
-Sim, mas parece que vocês duas estão morrendo de cólica.
-Exatamente isso- Joalin confirmou, eu estava certo.
-Aqui- entreguei as bolsas- Compressa quente, remédio para cólica- entreguei uma pílula para cada uma- E chocolate quente- uma caneca para cada e uma para mim, eram cinco e meia da manhã, eu merecia.
-Você é um anjo- a loira engoliu o comprimido e peguei uma almofada, me deitando entre as duas e apoiando minha caneca com cuidado.
-Obrigada- a caçula também agradeceu e eu apenas confirmei com a cabeça.
-As duas no mesmo dia? Isso é conexão ou algo do tipo?- encarei minha irmã que revirou os olhos e deu um t**a na minha cabeça.
-Isso é normal, quer dizer, algumas pesquisas dizem que existe uma troca hormonal e os ciclos se alinham com a convivência, outros acham que é apenas uma coincidência- Joalin disse óbvia, mas com paciência, diferente de Maya.
-Eu acho que acredito nessa teoria dos hormônios- minha irmã deu de ombros- Seria coincidência demais.
-É- encarei a loira dessa vez- Todas as meninas do grupo tem seus ciclos aliados.
-O que?- levantei um pouco, me assustando com sua afirmação- As 10?
-Quando estamos convivendo por muito tempo sim.
-Eu nunca, nunca ia imaginar.
-Se elas souberem que conversamos sobre isso, provavelmente vão me bater- respirou fundo reclamando de dor logo em seguida.
-Vocês ficam todas com dor ao mesmo tempo e mesmo assim não demonstram isso e seguem a vida normal?- perguntei realmente interessado no rumo da conversa, volto a dizer que o mundo era injusto.
-Sim, não tem como deixar de ensaiar, performar, usar aquelas terríveis calças brancas.A Indústria já é extremamente machista e enxerga constantemente a mulher como o s**o frágil, não existe espaço para ter cólica ou qualquer outro sintoma.
-s**o frágil- revirei os olhos- Isso porque vocês precisam fingir que estão sem dor. Se isso é ser frágil, não sei o significado de força.
-Nem eu- Maya concordou.
-A maioria de nós não tem dores fortes e, se tiver, se entope de remédio para conseguir cumprior os compromissos, existem mulheres que não sentem nada, mas falando de nós 10, em escalas diferentes, todas sentimos alguma coisa- ela bebeu o chocolate quente e apertou a bolsa em seu colo- Não sei o que está acontecendo esse mês, realmente está doendo mais que o normal- disse fechando os olhos.
-Pode ser o frio, ainda não está acostumada com essa temperatura- Maya disse e ela concordou com a cabeça- Acho que vou tentar dormir mais um pouco- ela levantou com sua caneca na mão.
-Qualquer coisa me chama- avisei antes de vê-la subindo as escadas- Quer assistir algum filme?- perguntei para a loira.
-Pode ser, escolhe algum
-Diário de uma Paixão, um dos meus preferidos- sorri animado e busquei o controle da TV, antes de ouvi-la reclamando de dor mais uma vez.- Estou ficando preocupado, não quer ir no médico?
-No meio do corona? Não, está tudo bem, mais forte do que o normal mas vai passar.
-Qualquer coisa arrumamos umas roupas de astronautas e vamos até o hospital- disse sério mas ela gargalhou.
-Está tudo bem Bay, eu juro- disse enquanto eu rondava o catálogo, buscando o filme.
-Tudo bem- me ajeitei ao seu lado- Quer deitar aqui?- bati no meu peito com um sorriso no rosto e ela confirmou, arrastando seu corpo pelo tapete e apoiando a cabeça em mim. Ela se mexeu mais uma vez, levando a mão até um de seus s***s, como se tivesse dolorido e respirando fundo mais uma vez, até parecer confortável.
A encarei preocupado, mais uma vez, e ela apenas sorriu de lado, relaxando o peso de sua cabeça sobre meu corpo. Dei play no vídeo e passei meu braço entre seus ombros, enroscando uma mecha de seu cabelo nos meus dedos e brincando com o mesmo.