Bailey
-PAI, MÃE?- chamei voltando para dentro da casa depois que o estrondo aconteceu.
-É impressão minha ou está mais frio do que deveria, aqui dentro?- Minha irmã perguntou, logo atrás de mim.
-É, parece que o aquecedor foi desligado- Joalin confirmou, ainda enrolada na manta que tinha levado para o telhado.
-O que aconteceu?- perguntei saindo da casa através da porta da cozinha e avistando meus pais, ele mexia na caixa de máquinas que ficava no quintal, enquanto minha mãe segurava uma lanterna.
-O aquecedor- ela respondeu.
-Esse barulho foi do aquecedor?- Joalin perguntou assustada.
-Sim, acho que desarmou. Deve ter sido um curto circuito- meu pai pareceu incerto.
-A luz piscou junto com o barulho e logo depois parou de aquecer.
-Não é melhor chamar um técnico? Claramente não está funcionando e a temperatura está abaixo de 0°C- Maya mexeu no celular, se encolhendo com o frio.
-Eu vou chamar, estou tentando desligar porque não sei se tem alguma chance de incêndio, se ficar ligado- ele respondeu.
-De qualquer forma, a manutenção só deve vir amanhã então acho que iremos precisar encarar o frio essa noite- minha mãe falou receosa.
-Vamos entrar, já desliguei- meu pai informou e todos voltamos a caminhar para dentro da casa.
-Posso dormir com vocês?- Maya sorriu para minha mãe, com sua maior cara de criança querendo doce- Por causa da lareira.
-Eu estava mesmo pensando nisso. Acho melhor você dormir com a gente e Bailey e Joalin aqui na sala, ligamos as lareiras e vai ajudar a aquecer.
-É, se a gente dormir no meu quarto vamos congelar- falei para a loira. A casa tinha lareira apenas nesses dois cômodos e seria bem difícil dormir tranquilamente longe do fogo.
-Por mim tudo bem- ela deu de ombros.
-Vou pegar as coisas para acender no porão- meu pai informou.
-Acho que dormir no sofá vai ser desconfortável- dona Vanessa disse preocupada.
-Descer com meu colchão vai dar muito trabalho- constatei com preguiça
-Uhm- ela parou para pensar- Então vou pegar aqueles colchões finos de acampamento. Maya, ajude seu irmão e Joalin a pegar cobertores, está fazendo muito frio e é melhor prevenir para ninguém ficar doente.
-Ela vai criar um ninho- disse baixo para a finlandesa que riu.
-Minha mãe faria o mesmo
Procuramos por cobertores no quarto da minha irmã enquanto ela digitava animadamente no celular, deveria estar falando com o tal garoto. Ela ainda pediu para que eu e Joalin ficassemos abraçados com uma das mantas e tirou uma foto nossa, prometendo postar e fazer nossos fãs surtarem.
Descemos com os travesseiros e algumas almofadas, minha mãe já tinha forrado os dois colchões de solteiro um ao lado do outro e em seguida os forrou com o lençol e dois edredons de espuma bem fofos. Cercamos o espaço com almofadas, exceto a parte mais próxima a lareira, colocamos os travesseiros e teríamos um cobertor grosso daquele que imita pele animal, uma manta de linho e o edredom que já estávamos dormindo normalmente.
Meu pai acendeu a lareira enquanto subimos para escovar os dentes e colocar uma roupa para dormir. Coloquei uma calça e casaco de moletom e Joalin fez o mesmo, deixando para trás as muitas camadas de roupa que eram sufocantes para dormir.
-Se sentirem muito frio tomem alguma coisa bem quente, ok?- minha mãe disse da ponta da escada.
-Tudo bem mãe, vamos sobreviver- meu pai e Maya riram
-Obrigada Vanessa, estamos confortáveis- Joalin disse calma e todos deram boa noite, subindo as escadas em seguida.
A loira sentou ao meu lado e eu tratei de nos cobrir com as três camadas, observei o fogo enquanto ela olhava para a tela do celular. Claramente, ainda estava bem frio, era tão estranho que a temperatura estivesse baixa ao ponto de fogo e tantas cobertas não funcionarem, quer dizer, pelo menos nessa época do ano.
-Ela postou mesmo- Joalin mostrou a foto no IG da minha irmã.
-Maya vai acabar com nossa vida- ri- Ela com certeza conseguiu fazer os fãs surtarem
-Os comentários estão hilários, a maioria está pedindo para ela expor mais fotos nossas
-Deus- rimos e eu levantei para desligar a luz.
-Não queria falar nada mas continuo morrendo de frio- ela se encolheu e tapou o corpo até a cabeça.
-Eu também, o pior é que não tem muito o que fazer- suspirei- Por que esse aquecedor decidiu quebrar logo hoje que está fazendo um frio congelante?
-Ele não gosta da gente- disse rindo e se aproximou de mim
-Vem cá- passei meu braço por seus ombros e a puxei para perto quando percebi que ela estava tremendo.
-Obrigada- disse deitando a cabeça no meu peito e arrumando as cobertas por cima de nós. Acompanhei o barulho do fogo da lareira, no silêncio que pairou pela sala.
-Tem algumas coisas que às vezes acontecem que parecem tão surreais- disse baixo e ela levantou um pouco a cabeça, me encarando antes de voltar para a mesma posição de antes. Apoiei minha mão em sua cintura, descoberta pelo tecido do moletom, que provavelmente tinha subido.
-Por que isso de repente?- estranhou e eu dei de ombros encarando o teto.
-Não sei, eu só me imagino contando essas histórias para meus netos, daqui a uns 50 anos. Sobre as viagens que fazemos, sobre como ganhamos o mundo, mas não só sobre isso, consigo me enxergar contando sobre momentos simples e pequenos, mas especiais, como essa noite.
-Devo me sentir honrada?- ri baixo de sua pergunta- Seus netos provavelmente vão gargalhar com a história, já que vão ter aquecedores super potentes e tecnológicos. Aí você vai falar para eles como as coisas eram difíceis no seu tempo e como você sofreu na mão dos aquecedores- não segurei uma risada alta.
-Exatamente, mesmo que nossos aquecedores de 2020 não sejam tão ruins assim- ela me conhecia bem o suficiente para entender os planos de conversas que eu teria daqui a meio século, o que de certa forma era estranho.
Comparando com Sabina, por exemplo, ela teria revirado os olhos e dito que até lá eu esqueceria boa parte das histórias. E então eu me via no mesmo velho dilema, porque a amizade delas duas eram interpretadas de forma tão diferente por mim?
-O que foi?- a Loukamaa perguntou quando viu que fiquei quieto.
-Nada, só estava pensando na reação que Sabina teria se eu tivesse tendo essa conversa com ela.
-Ela com certeza reviraria os olhos- ela confirmou minha expectativa- Estou com tanta saudade da Sabi
-Eu também Jojo, só não conta isso para ela- tentei soar divertido e parece que funcionou.
-Nunca vou entender essa relação de amor e ódio de vocês, parecem irmãos- ri baixo, ela estava me deixando ainda mais confuso. Sua voz era baixa e sonolenta, mostrando que em pouco tempo estaria dormindo.
Sabina era minha irmã, Joalin não. Os mesmos pensamentos rondavam minha mente pela milésima vez.
-Está ansiosa para conhecer Savannah?- mudei de assunto e ela se mexeu, abraçando minha cintura.
-m*l posso esperar, ela parece ser tão doce- sorri, a escolha de Sav tinha me deixado bem feliz e satisfeito. A convivência superou minhas expectativas, foi fácil, leve e divertido.
-Ela é- constatei- Estávamos todos tão inseguros quando fomos conhecê-la
-Eu também estava, mesmo de longe- ela bocejou- Tinham muitas chances de dar errado
-Realmente, acho que tiveram muito cuidado para escolher ela até pela convivência, nem todo mundo ia se adaptar e se encaixar bem com o grupo- disse mas minha resposta foi um suspiro baixo, mostrando que ela tinha pego no sono.