Joalin
-Quer sair para correr?- Bailey perguntou se levantando e fechando a porta da sacada
-Podemos?- perguntei ainda sem conhecer muito bem a situação do país durante a pandemia
-Sim, as estradas aqui em volta estão vazias, além de que podemos sair para se exercitar se ficarmos longe de quem não mora com a gente- ele deu de ombros
-Tudo bem, vamos- me levantei também
-Temos que sair antes que comece a esfriar- avisou trazendo um par de tênis de corrida do closet. Peguei uma roupa e me tranquei no banheiro para me trocar, legging, top, tênis, r**o de cavalo e hidratante labial, estava pronta.
-Toma- Bailey me entregou um de seus fones e colocou o outro, dando play em uma música desconhecida por mim e guardando o celular no bolso da bermuda preta que ele agora vestia.
Durante os milésimos de segundos necessários para passar a camisa pela sua cabeça e tirá-la, perdi meus olhos em seu abdômen marcado, me punindo por tal atitude antes mesmo que ele jogasse o tecido na cama e saísse do quarto, seu corpo era inegavelmente atraente, o que não me dava o direito de olhá-lo.
O segui em silêncio até a cozinha e bebemos um pouco de água, antes dele avisar para seus pais que estávamos saindo, ainda quietos, fizemos um pequeno silêncio e começamos uma caminhada, aumentando o ritmo aos poucos.
Eu estava acostumada a me exercitar com as músicas que Bailey escolhia, sempre iamos para a academia juntos e o deixava na função de escolher as músicas, que com o tempo e costume começaram a me causar efeito motivacional, exatamente igual acontecia com ele.
Encarei a tela do meu celular que apontava termos concluído 5 km, apoiei minhas mãos nos joelhos e respirei fundo, tentando me recompor enquanto Bailey gravava a paisagem em sua volta. Ele apontou o celular na minha direção e dei sorte por ser favorecida pelo sol bem atrás de mim.
Sinto que eu e Bailey nos sentíamos conectados com o exercício da mesma forma, talvez por isso sempre estávamos juntos em tais momentos. Gostavamos do silêncio, de apreciar a música e junto a isso, a força que era necessária de nossos corpos, colocar para fora mágoas, frustrações, estresse, preocupação e tudo que poderia estar pesando e nos machucando internamente.
Alguns minutos depois de voltarmos para o ritmo intenso, corríamos lado a lado até sentir sua mão quente e levemente suada na minha cintura nua, me puxando para sua frente, me assustei com seu toque bruto e principalmente com o carro que passou em alta velocidade ao nosso lado assim que meu corpo foi puxado para o canto.
Respirei fundo com o susto, de todo o tempo em que estávamos correndo, tínhamos passado por pouco mais de 5 veículos.
-Quase foi atropelada- ele me manteve no canto e voltou a correr ao meu lado, dessa vez colocando seu próprio corpo no meio da pista de areia.
-Acho que estava em outra dimensão- dei de ombros voltando a aumentar um pouco mais a velocidade. Foi o primeiro passo para um início de conversa, mesmo estando tão perto de sua casa novamente.
-Quando chegar em casa, vamos tomar banho e comer. Meus pais estão com essa mania de jantar cedo, antes de escurecer, acho que estão ficando velhos- rimos juntos
-Por mim não tem problema, já estou mesmo começando a ficar com fome- dei de ombros, me sentia a vontade com a família May.
-Eu também- admitiu- Meu estômago está se acostumando com essa rotina.
Tudo entre eu e Bailey era muito natural e eu gostava de como as coisas funcionavam. Gostava de estar com ele e Sabina praticamente o tempo todo, confesso que as vezes não entendia como eles dois agiam como irmãos e eu não participava disso, éramos um trio, não entendia porque nos tratávamos diferente da forma como ele e ela se tratavam. De certa forma gostava disso.
-Por que me trata diferente da forma que trata Sabina?- as palavras praticamente saíram sozinhas da minha boca, me arrependi em seguida. Não era do tipo de amiga que precisava expor meus questionamentos e fazer das coisas padronizadas.
-Eu não sei- me encarou um pouco confuso
-Foi uma pergunta i****a- dei de ombros desconfortável com minha fala desnecessária.
-Não, não foi- respirou fundo por causa da atividade física- Acho que nunca me perguntei o porque disso, só é uma coisa natural. Sabina é como uma irmã e vivemos nos implicando, muitas vezes sem motivo- engoli em seco, ele não me considerava uma irmã? Tudo bem, eu não me sentiria confortável se ele me considerasse dessa forma.
-Sabina é doida- ri, tinha saudades dela.
-Acho que vocês duas têm jeitos diferentes, tenho relações diferentes com vocês e amo as duas de modos diferentes, não sei se por suas personalidades ou se tem algum motivo especifíco- pareceu pensar e eu continuei quieta- O que não significa que eu considere mais uma que outra, são apenas maneiras diferentes.
-Quantas entrevistas você deu e falou que nós duas éramos as pessoas mais próximas que você tinha no NU?- perguntei tentando quebrar o clima que eu mesma tinha causado, ele riu em seguida.
-Algumas, eu não menti em nenhuma delas.
-Eu sei que não- ri- acho que sempre esperam que você corte ou acrescente alguém na lista, por isso continuam perguntando.
-Por mim- deu de ombros- Nunca vai mudar
Durante as próximas duas horas, não tivemos muito tempo para conversar. Chegamos e enquanto eu usava o banheiro do seu quarto, ele tomou banho em outro lugar, como no dia anterior.
Quando o jantar ficou pronto e nós descemos, me dediquei a conversar com Maya e Vanessa. Na maior parte do tempo o assunto foi sobre meus irmãos, elas não o conheciam pessoalmente e prometi marcar um encontro assim que a quarentena acabasse, com nossa mudança para a Europa, ficaria mais fácil.
Depois de algum bom tempo de conversa, os três foram assistir um filme qualquer na TV e eu disse que iria subir para editar meu vlog da viagem, precisava postar logo e já começar a trabalhar no vídeo de maquiagem que tinha gravado com Bailey.
Ele passou um bom tempo no andar de baixo e quando voltou para seu quarto, estava terminando os detalhes finais do vídeo e subindo para a plataforma do youtube. Já era bem tarde e eu m*l tinha visto as horas passarem, era sempre assim quando eu estava editando.
A expressão do filipino era engraçada, sobrancelhas levantadas, a boca formando um pequeno bico e olhos constantemente se revirando, os mesmos não desgrudavam da tela do celular, nem mesmo quando ele se jogou na cama ao meu lado, soltando uma risadinha irônica logo depois.
-Você não vai acreditar- ele desviou do aparelho pela primeira vez, me encarando- Gio está com ciúmes porque passei o dia sem falar com ela e perguntando quem é a loira que está na minha casa e porque todos os fãs estão surtando.
-Não quero atrapalhar o relacionamento de vocês- levantei as mãos em sinal de rendição, sem saber se ele estava chateado com isso.
-Nós não temos nada, nunca conversei com ela sobre isso e preciso o fazer, sei que tenho culpa. Está com ciúmes desnecessário e isso me incomoda, não tenho obrigação e quero aproveitar o dia com você, não ficar no celular o tempo todo. De qualquer forma gosto muito da amizade dela e vamos acertar as coisas, quem sabe vocês duas não possam até conversar e virar amigas.
-Então diz isso para ela- dei de ombros fechando o notebook
-Quer saber? Você tem razão.- assenti e virei para o outro lado da cama
-Amanhã você me conta dessa conversa que vão ter- ri e fechei os olhos- Boa noite Bay.
-Boa noite Jojo.