Capítulo 3

834 Words
O ar frio da noite parecia ter congelado nos meus pulmões conforme eu encurtava a distância. Cada passo era uma batida surda no meu peito. Eu conhecia aquela inclinação de ombros. Eu conhecia aquela forma de se apoiar contra o mundo, como se estivesse sempre esperando o próximo golpe. — Ei... A voz dele saiu arrastada, densa. — Tá a fim de se divertir, bonitão? Ele estava alterado. O corpo balançava levemente, as mãos inquietas se perdendo nos bolsos do moletom desgastado. Parecia que ele estava lutando contra a própria pele, um sinal nítido de abstinência ou de quem precisava de uma dose para aguentar o próximo minuto. Quando ele levou as mãos ao capuz e o puxou para trás, o mundo ao meu redor simplesmente parou de girar. Cabelos pretos e lisos, agora meio desgrenhados, emoldurando um rosto que, apesar da palidez doentia, ainda carregava as linhas que me assombraram por treze anos. E os olhos... aqueles olhos verdes. Eram eles. Mas não brilhavam mais como antes, eram poços profundos de cansaço e corrupção. Era o Kyle. Eu fiquei estático, sentindo o sangue fugir do meu rosto. Minha mente gritava que era impossível, que o destino não seria tão c***l ou tão preciso. Kyle soltou um sorriso forçado, uma máscara comercial que ele devia usar para sobreviver naquela calçada. — Esse é seu carro? Ele apontou com o queixo para a Mercedes n***a brilhando sob o poste. — Bonito. Podemos fazer aqui mesmo, se você estiver com pressa. Eu tentei falar, mas minha garganta estava fechada. Eu me engasguei com o próprio ar, as palavras "Kyle" e "desculpe" presas em um nó impossível de desatar. Ele não parecia me reconhecer. Para ele, eu era apenas mais um terno caro com dinheiro no bolso e um fetiche a ser satisfeito. Kyle insistiu, dando um passo à frente, o cheiro de suor frio e desespero chegando até mim. — Você vai gostar, eu prometo. Sou bom no que faço. Meu coração martelava tão forte que eu achei que ia desmaiar. Em um transe, movido por um choque que me deixou sem defesas, eu destravei o carro. Minha mente estava turva, uma névoa densa cobrindo qualquer raciocínio lógico. Kyle não esperou. Ele abriu a porta do passageiro e deslizou para dentro do couro caro como se aquele fosse o seu lugar. Eu entrei no banco do motorista, as mãos tremendo tanto que m*l consegui fechar a porta. O silêncio do interior do carro era sufocante. Eu queria falar. Queria segurar os ombros dele e implorar por perdão, perguntar o que aconteceu com ele depois daquela tarde, mas o nó na minha garganta só aumentava. — Relaxa. Ele murmurou, a voz baixa, quase mecânica. Antes que eu pudesse formular uma frase, Kyle se inclinou em minha direção. Eu ia pedir para ele parar, ia dizer que precisávamos conversar, mas a paralisia do choque foi mais forte. Com uma agilidade assustadora de quem já fez aquilo mil vezes, ele abriu o botão da minha calça e baixou o zíper. Senti o toque das mãos dele, frias e ásperas, contra a minha pele. E então, ele começou. O contato da sua boca, o calor súbito e a pressão familiar me atingiram como um raio. Treze anos de vazio, treze anos de fingimento e encenações baratas com mulheres perfeitas desmoronaram em um segundo. Pela primeira vez em mais de uma década, meu corpo não precisou fingir. Eu não precisei atuar. A dor da culpa se misturou a um prazer violento e avassalador, algo que me atingiu com a força de um soco no estômago. Eu não precisei de esforço, não precisei de fantasias mentais ou de fechar os olhos para fingir que estava em outro lugar. Era ele. Era a boca dele, o ritmo dele, a mesma sensação técnica e bruta que, de alguma forma, ficou gravada no meu DNA desde os meus quinze anos. O prazer subiu pela minha espinha como uma descarga elétrica de alta voltagem. Minha visão ficou turva, as luzes da cidade do lado de fora do carro se transformando em borrões coloridos. Eu segurei seu cabelo com força, sentindo cada músculo do meu corpo travar em um reconhecimento imediato. A sensação era absurdamente superior a qualquer coisa que eu já tinha tentado em camas de hotéis cinco estrelas ou em lençóis de seda. Era o melhor sexo oral da minha vida, e a ironia era tão cortante quanto uma lâmina: o garoto que eu destruí era o único que detinha o mapa do meu prazer. E então, aconteceu. Sem aviso, sem controle e sem a necessidade de nenhuma performance teatral, eu cheguei ao limite. Foi um orgasmo explosivo, visceral, daqueles que fazem o mundo desaparecer por alguns segundos. Um prazer que eu nunca, em treze anos, consegui atingir com nenhuma mulher ou qualquer outra pessoa. A última vez que eu tinha sentido essa perda total de controle, essa entrega absoluta dos sentidos, tinha sido naquela mesma tarde fatídica, naquele prédio abandonado, com esse mesmo Kyle.
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