O silêncio do outro lado da porta me sufocava mais do que os gritos. Eu estava sentada na beira da cama, as unhas cravadas nos lençóis, quando ouvi o som que esperei a manhã inteira: o metal da chave girando.
Me levantei num salto. A porta se abriu devagar, mas não era a figura imponente e furiosa de Ethan que surgiu primeiro. Era uma senhora. Seus olhos eram pequenos e brilhantes, emanando uma paz que parecia não pertencer àquela casa carregada de eletricidade.
— Luna? — ela chamou, com uma voz de mel. — Sou a Nana. Venha, querida. O café está posto.
Saí do quarto com as pernas trêmulas. Ethan estava parado no corredor, a poucos metros. Ele não me olhou. Tinha as mãos nos bolsos e a mandíbula tão rígida que parecia prestes a quebrar. O contraste entre a doçura daquela mulher e a aura sombria dele era aterrorizante.
— Eu não quero café — minha voz saiu rouca, mas firme. — Eu quero minhas chaves. Eu quero ir embora.
— Você não vai a lugar nenhum — a voz de Ethan cortou o ar, gélida.
— Ethan! — Nana o repreendeu, tocando o braço dele. — Deixe-nos a sós um momento. Vá esfriar essa cabeça que ainda cheira a briga.
Para minha surpresa, ele obedeceu. Mas, antes de sair, ele deu um passo em minha direção. O cheiro do perfume dele, misturado com algo estranho — sangue? — me fez recuar.
— O Enzo mandou lembranças — ele sussurrou.
Aquelas palavras me fez congelar.
— Ele foi bem específico sobre o quão calorosa foi a madrugada de vocês.
Meu coração errou uma batida. O que o Enzo tinha dito?
Ethan saiu pisando fundo, e Nana me conduziu até a mesa da varanda. Ela serviu o chá em silêncio, me observando .
— Ele é um homem difícil, Luna. O medo de perder o que ama o transforma em um monstro. Mas já deu pra perceber que ele te ama.
— Isso não é amor, Nana. É uma prisão — respondi, as lágrimas finalmente caindo. — Ele me trancou. Ele duvida de mim. E o relógio... o relógio não era sobre traição, era sobre encerrar um ciclo. Eu fui devolver ele para o Enzo para poder viver o presente com o Ethan. Mas ele não me deu tempo de explicar.
Nana suspirou, balançando a cabeça.
— Homens e seus orgulhos feridos... Então esse Enzo deve ter mentido para ele, querida. Melhor tentar uma nova conversa, essa é sempre a solução.
Fiquei pensando no que a Nana me disse. O dia foi mais tranquilo naquele dia, conversar com a Nana preencheu um certo vazio que eu tinha da minha mãe. Mas ela não podia ficar. Ela teve de voltar mais cedo. E eu fiquei com o Ethan.
As minhas chaves estavam ali, sobre a mesa de mogno. Ethan não me encarava, estava mais distraído do que o normal, e por um segundo, eu pensei em fugir de novo, não pra longe. Só precisava respirar um pouco.
Apanhei as chaves com os dedos trêmulos e caminhei em direção à porta principal. Meu coração estava aos pulos. Eu precisava de ar, precisava processar esse sentimento entre o Enzo e o Ethan ao mesmo tempo. O que poderia ter acontecido com eles dois pro Ethan voltar tão furioso?. Pensei.
Eu estava a dois passos da entrada quando senti um ar pelo pescoço.
Antes que minha mão tocasse a maçaneta, um braço forte bloqueou meu caminho, batendo contra a madeira com um estrondo. O corpo de Ethan se colou às minhas costas, o calor dele emanando através da minha roupa.
— Onde pensa que vai, Luna? — a voz dele era um sussurro rouco, perto do meu ouvido, muito mais assustador.
— Você me deu as chaves, Ethan! O contrato não diz nada sobre cárcere privado! — tentei me virar, mas ele me prendeu entre seus braços e a porta.
— O contrato diz que você é minha esposa. E minha esposa não sai por aí de madrugada para se encontrar com ex-noivos e receber beijos — ele sentiu minha respiração falhar. — Você acha que eu sou burro? Se tentares fugir…e voltar pra ele, as coisas vão ficar feias.
— Eu não estou fugindo! — respondi, sentindo meu rosto queimar. — Eu só não aguento mais esse jogo!
Ele segurou meu queixo, forçando-me a olhar para ele. A fúria ainda estava lá, mas havia algo novo: uma vulnerabilidade faminta.
— Pois o jogo mudou. A Nana vai voltar aqui e ela espera ver um casal feliz. E eu? Eu cansei de te vigiar por câmeras e seguranças.
Ele pegou as chaves da minha mão com uma facilidade humilhante e as guardou no bolso da calça.
— Hoje, você não vai a lugar nenhum. E eu não vou te deixar sozinha para arquitetar outra fuga ou chorar por um passado que eu vou fazer questão de apagar da sua mente.
— O que você quer dizer com isso? — perguntei, a voz falhando.
— Quero dizer que, a partir de hoje, as regras do contrato são secundárias. — Ele me puxou pelo braço, não para o porão ou para um escritório, mas subindo as escadas em direção ao quarto principal. — Você disse que o dono daquele relógio era o homem da sua vida? Pois eu vou te lembrar de quem é o nome que está no seu registro de casamento.
Chegamos ao quarto. Ele me empurrou para dentro com cuidado, mas com firmeza, entrou comigo e trancou a porta por dentro.
— O que estás a fazer? — perguntei, recuando até bater na cama.
— Eu não vou a lugar nenhum, Luna. — Ele se aproximou, a intensidade do olhar me fazendo perder o fôlego. — Hoje, eu durmo aqui. Com você. E é bom você se acostumar, porque apartir de hoje nós vamos dormir no mesmo quarto.
O estranho de tudo isso, é que eu não discordei, apenas o encarei sem dizer nada. Eu que sempre tinha o que responder…fiquei tetraplégica.
Depois de algumas horas o silêncio do quarto era pesado, interrompido apenas pelo som da respiração dele, que ainda tentava se acalmar. Eu o observava de lentamente enquanto ele jogava o paletó sobre a poltrona.
Por que ele reagiu daquela forma?, pensei, sentindo um nó na garganta. A fúria dele não era normal. Parecia... ciúme. Um ciúme corrosivo, daqueles que a gente só sente quando teme perder algo que, lá no fundo, acredita que nos pertence por inteiro.
Tomei coragem e caminhei até ele. Eu estava hesitante, uma parte de mim queria deixar pra lá e a outra queria apenas entender o que ele tinha.
— Ethan... — chamei, a voz falhando um pouco. — Eu vim conversar porque não quero que você pense que eu sou uma mulher fácil. O Enzo mentiu. Não aconteceu nada além daquele beijo. E foi um erro, eu sei, mas...
Ele se virou bruscamente, encurtando a distância entre nós em dois passos largos. O calor que emanava dele me fez dar um passo atrás, mas ele segurou meu braço, me impedindo de fugir.
— "Apenas" um beijo, Luna? — a voz dele vibrou baixo, carregada de uma possessividade que me arrepiou. — Nem esse beijo deveria ter acontecido. Você é minha esposa. No papel, perante a sociedade e dentro desta casa.
Ele se aproximou tanto que consegui ver o reflexo do meu rosto na raiva dos seus olhos.
— Se você não consegue se controlar sozinha, eu farei isso por você. De agora em diante, você está sob vigia 24 horas por dia. Onde você for, meus homens estarão. Onde você dormir... — ele fez uma pausa proposital, seus olhos descendo para os meus lábios antes de voltarem para os meus olhos — ... eu estarei.