Eu mau havia dormido corretamente, quando a porta do meu quarto se abriu com um estrondo seco.
Virei de súbito, assustada — e lá estava ele. Ethan. De pé, com a mesma arrogância fria de sempre, vestindo um terno escuro impecável e aquele olhar de quem acha que o mundo gira ao seu redor.
— “Levanta.” — disse, sem rodeios. — “Temos uma empresa pra cuidar.”
— “Você entrou aqui sem bater?” — perguntei, entre surpresa e indignada.
— “Sou seu marido. E você tem compromissos. Agora levanta.”
A ousadia dele me fez rir sem humor. Cruzei os braços.
— “E desde quando você manda em mim?”
Ele deu um meio sorriso, inclinando-se um pouco:
— “Desde que você assinou aquele contrato.”
Virei de lado e puxei o cobertor, mas ele foi até a janela, abriu as cortinas bruscamente, deixando o sol invadir o quarto.
— “Cinco minutos,” murmurei, derrotada.
— “Tem três.”
Uma hora depois, desci as escadas já vestida, os saltos ecoando no chão de mármore. Ethan já estava sentado à mesa, tomando café como se nada tivesse acontecido.
Me sentei sem dizer palavra. O clima era frio, mas funcional.
— “Você vai direto pra filial do centro?” — perguntei.
— “Sim. E você cuida da reunião com os acionistas.”
— “Já estava no plano.”
Ele me lançou um olhar firme, e por um momento, nossos olhos se prenderam. A tensão sempre estava ali, mesmo no silêncio.
Tomamos o café em silêncio. Logo depois, saímos juntos… mas cada um foi para seu próprio carro.
Cada um com seu destino. E com a própria guerra a travar.
Já era fim da tarde, havia terminado to do serviço. Saí do prédio exausta, o salto já machucando os pés, o dia inteiro resumido em reuniões, relatórios e a constante tensão de estar presa a um casamento que nunca pedi.
Mas nada me preparou para o que vi ao chegar no estacionamento.
Enzo.
Parado ali, encostado no mesmo carro preto que ele costumava dirigir, com aquele olhar que eu conhecia bem — o olhar de quem carrega arrependimento misturado com saudade.
Meu coração disparou.
Por um segundo, minhas pernas hesitaram. Mas a lembrança do contrato veio como um choque: “Nenhum contato com ex-relacionamentos durante a vigência do acordo.”
A cláusula era clara. E Ethan deixaria aquilo virar um escândalo.
Respirei fundo, firmei o olhar, e sem dizer uma palavra, dei-lhe as costas e entrei no carro.
Minhas mãos tremiam no volante. Eu podia sentir o olhar dele me queimando pelas costas.
Ele correu até minha janela, bateu com a palma da mão, insistindo:
— “Por favor, só me escuta!”
Mas eu não podia. E talvez… nem devesse.
Arranquei com o carro, sem olhar pra trás. E ele ficou parado apenas olhando.
Cheguei na mansão do Ethan com os ombros pesados e a cabeça cheia. O portão se abriu devagar, e lá dentro, a imensidão fria daquela casa me recebeu como sempre: linda por fora, vazia por dentro.
O único rosto familiar era o do mordomo, Sr. Álvaro. Sempre gentil, sempre acolhedor.
— “Boa noite, senhorita” — disse ele com um sorriso discreto. — “Seja bem-vinda.”
— “Obrigada, Álvaro…” — respondi com um suspiro, tentando parecer menos cansada do que estava.
Meus olhos vasculharam a casa, como se, por instinto, buscassem por ele. Ethan.
Mas ele não estava ali. E Álvaro, atencioso como sempre, percebeu.
— “O senhor Ethan não está, e talvez nem volte esta noite.”
Assenti, sem demonstrar muita reação. Mas, por dentro, algo relaxou.
— “Melhor pra mim,” murmurei, tirando
os sapatos no meio da sala.
A paz momentânea de não precisar encarar aquele olhar dele , era um alívio que eu nem sabia que precisava.
Talvez, naquela noite, eu finalmente dormisse em paz.
A noite parecia tranquila… até que o som estridente de pneus arrastando no asfalto cortou o silêncio. Me levantei num pulo da cama, largando os papéis que revisava, e corri até a janela.
E logo vi ele… fiquei assustada ao ver Ethan saindo do carro cambaleando, ferido com o rosto contraído de dor.
Desci as escadas às pressas.
Corri até ele e o segurei antes que caísse. Havia sangue em sua camisa, e ele m*l conseguia se manter de pé. Levei-o para o escritório, com dificuldade, sentindo o peso da urgência apertar meu peito.
— “Ethan! Fala comigo, o que aconteceu?” — perguntei, desesperada.
Ele tentava falar, mas não saía nada além de respirações pesadas e um olhar de dor. Ao erguer a camisa, percebi: uma bala havia roçado perto da coluna. O ferimento não era profundo, mas perigoso. Ele estava em choque.
Respirei fundo, tentando manter a calma. Improvisei os primeiros socorros com o que encontrei por perto, estancando o sangramento, limpando o ferimento o melhor que pude.
— “Aguenta firme, eu vou chamar ajuda!”
Corri até os corredores da casa e gritei:
— “Álvaro! Preciso de você! Agora!”
Álvaro apareceu correndo, assustado com meus gritos.
— “O que aconteceu, senhora?” — ele perguntou ofegante, ao me ver ajoelhada ao lado de Ethan.
— “Ele foi baleado. Não é profundo, mas está fraco. Temos que levá-lo ao médico… ou chamar um de confiança.”
Álvaro se aproximou e analisou rapidamente a situação. Sua expressão endureceu.
— “Vamos levá-lo para o quarto de hóspedes, é mais reservado. Eu vou ligar para o doutor Cardoso, ele é discreto.”
Assenti, e juntos o carregamos com cuidado. Ethan gemia baixo, mas não dizia nada. Seus olhos, ainda que fracos, estavam fixos em mim. Como se minha presença o acalmasse… ou o mantivesse acordado.
Enquanto Álvaro fazia a ligação, eu sentei ao lado da cama, segurando a mão dele.
— “Fica comigo, Ethan.”
Por alguns segundos, ele apertou meus dedos com leveza, como resposta.
Pouco tempo depois, o médico chegou. Examinou Ethan com atenção, elogiou meus cuidados iniciais e reforçou os curativos. Disse que ele teria que ficar em repouso total por alguns dias.
Quando o médico foi embora, fiquei no quarto, ainda ao lado dele. Já passava da meia-noite.
— “Você quer saber o que aconteceu, né?” — murmurou Ethan, com dificuldade.
— “Não agora. Você precisa descansar.”
— “Mesmo assim… obrigado por não ter me deixado lá fora.” — ele disse, antes de fechar os olhos de novo.
Naquele instante, percebi que talvez... por trás da arrogância dele, existia um homem quebrado e de coração mole.
Mas por algum motivo… eu não conseguia simplesmente me afastar.
“Pela primeira vez.. fiquei com medo”
…