Capítulo 5- “pela primeira vez… fiquei com medo “

1132 Words
Eu mau havia dormido corretamente, quando a porta do meu quarto se abriu com um estrondo seco. Virei de súbito, assustada — e lá estava ele. Ethan. De pé, com a mesma arrogância fria de sempre, vestindo um terno escuro impecável e aquele olhar de quem acha que o mundo gira ao seu redor. — “Levanta.” — disse, sem rodeios. — “Temos uma empresa pra cuidar.” — “Você entrou aqui sem bater?” — perguntei, entre surpresa e indignada. — “Sou seu marido. E você tem compromissos. Agora levanta.” A ousadia dele me fez rir sem humor. Cruzei os braços. — “E desde quando você manda em mim?” Ele deu um meio sorriso, inclinando-se um pouco: — “Desde que você assinou aquele contrato.” Virei de lado e puxei o cobertor, mas ele foi até a janela, abriu as cortinas bruscamente, deixando o sol invadir o quarto. — “Cinco minutos,” murmurei, derrotada. — “Tem três.” Uma hora depois, desci as escadas já vestida, os saltos ecoando no chão de mármore. Ethan já estava sentado à mesa, tomando café como se nada tivesse acontecido. Me sentei sem dizer palavra. O clima era frio, mas funcional. — “Você vai direto pra filial do centro?” — perguntei. — “Sim. E você cuida da reunião com os acionistas.” — “Já estava no plano.” Ele me lançou um olhar firme, e por um momento, nossos olhos se prenderam. A tensão sempre estava ali, mesmo no silêncio. Tomamos o café em silêncio. Logo depois, saímos juntos… mas cada um foi para seu próprio carro. Cada um com seu destino. E com a própria guerra a travar. Já era fim da tarde, havia terminado to do serviço. Saí do prédio exausta, o salto já machucando os pés, o dia inteiro resumido em reuniões, relatórios e a constante tensão de estar presa a um casamento que nunca pedi. Mas nada me preparou para o que vi ao chegar no estacionamento. Enzo. Parado ali, encostado no mesmo carro preto que ele costumava dirigir, com aquele olhar que eu conhecia bem — o olhar de quem carrega arrependimento misturado com saudade. Meu coração disparou. Por um segundo, minhas pernas hesitaram. Mas a lembrança do contrato veio como um choque: “Nenhum contato com ex-relacionamentos durante a vigência do acordo.” A cláusula era clara. E Ethan deixaria aquilo virar um escândalo. Respirei fundo, firmei o olhar, e sem dizer uma palavra, dei-lhe as costas e entrei no carro. Minhas mãos tremiam no volante. Eu podia sentir o olhar dele me queimando pelas costas. Ele correu até minha janela, bateu com a palma da mão, insistindo: — “Por favor, só me escuta!” Mas eu não podia. E talvez… nem devesse. Arranquei com o carro, sem olhar pra trás. E ele ficou parado apenas olhando. Cheguei na mansão do Ethan com os ombros pesados e a cabeça cheia. O portão se abriu devagar, e lá dentro, a imensidão fria daquela casa me recebeu como sempre: linda por fora, vazia por dentro. O único rosto familiar era o do mordomo, Sr. Álvaro. Sempre gentil, sempre acolhedor. — “Boa noite, senhorita” — disse ele com um sorriso discreto. — “Seja bem-vinda.” — “Obrigada, Álvaro…” — respondi com um suspiro, tentando parecer menos cansada do que estava. Meus olhos vasculharam a casa, como se, por instinto, buscassem por ele. Ethan. Mas ele não estava ali. E Álvaro, atencioso como sempre, percebeu. — “O senhor Ethan não está, e talvez nem volte esta noite.” Assenti, sem demonstrar muita reação. Mas, por dentro, algo relaxou. — “Melhor pra mim,” murmurei, tirando os sapatos no meio da sala. A paz momentânea de não precisar encarar aquele olhar dele , era um alívio que eu nem sabia que precisava. Talvez, naquela noite, eu finalmente dormisse em paz. A noite parecia tranquila… até que o som estridente de pneus arrastando no asfalto cortou o silêncio. Me levantei num pulo da cama, largando os papéis que revisava, e corri até a janela. E logo vi ele… fiquei assustada ao ver Ethan saindo do carro cambaleando, ferido com o rosto contraído de dor. Desci as escadas às pressas. Corri até ele e o segurei antes que caísse. Havia sangue em sua camisa, e ele m*l conseguia se manter de pé. Levei-o para o escritório, com dificuldade, sentindo o peso da urgência apertar meu peito. — “Ethan! Fala comigo, o que aconteceu?” — perguntei, desesperada. Ele tentava falar, mas não saía nada além de respirações pesadas e um olhar de dor. Ao erguer a camisa, percebi: uma bala havia roçado perto da coluna. O ferimento não era profundo, mas perigoso. Ele estava em choque. Respirei fundo, tentando manter a calma. Improvisei os primeiros socorros com o que encontrei por perto, estancando o sangramento, limpando o ferimento o melhor que pude. — “Aguenta firme, eu vou chamar ajuda!” Corri até os corredores da casa e gritei: — “Álvaro! Preciso de você! Agora!” Álvaro apareceu correndo, assustado com meus gritos. — “O que aconteceu, senhora?” — ele perguntou ofegante, ao me ver ajoelhada ao lado de Ethan. — “Ele foi baleado. Não é profundo, mas está fraco. Temos que levá-lo ao médico… ou chamar um de confiança.” Álvaro se aproximou e analisou rapidamente a situação. Sua expressão endureceu. — “Vamos levá-lo para o quarto de hóspedes, é mais reservado. Eu vou ligar para o doutor Cardoso, ele é discreto.” Assenti, e juntos o carregamos com cuidado. Ethan gemia baixo, mas não dizia nada. Seus olhos, ainda que fracos, estavam fixos em mim. Como se minha presença o acalmasse… ou o mantivesse acordado. Enquanto Álvaro fazia a ligação, eu sentei ao lado da cama, segurando a mão dele. — “Fica comigo, Ethan.” Por alguns segundos, ele apertou meus dedos com leveza, como resposta. Pouco tempo depois, o médico chegou. Examinou Ethan com atenção, elogiou meus cuidados iniciais e reforçou os curativos. Disse que ele teria que ficar em repouso total por alguns dias. Quando o médico foi embora, fiquei no quarto, ainda ao lado dele. Já passava da meia-noite. — “Você quer saber o que aconteceu, né?” — murmurou Ethan, com dificuldade. — “Não agora. Você precisa descansar.” — “Mesmo assim… obrigado por não ter me deixado lá fora.” — ele disse, antes de fechar os olhos de novo. Naquele instante, percebi que talvez... por trás da arrogância dele, existia um homem quebrado e de coração mole. Mas por algum motivo… eu não conseguia simplesmente me afastar. “Pela primeira vez.. fiquei com medo” …
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