O Perfume Dele

1145 Words
Beatriz Eu nem sei quanto tempo fiquei chorando, mano. Só sei que em algum momento as lágrimas secaram sozinhas, como se o corpo tivesse cansado de sofrer. Ficou só aquele vazio do c*****o, um buraco no peito que pesa mais que qualquer coisa. Eu tava sentada no chão frio, encostada na porta que ele trancou, ouvindo o frigobar ronronando baixinho, zoando na minha cara. Bater, gritar, implorar… nada adiantou p***a nenhuma. Ele deixou bem claro: eu tô presa aqui. E ponto final. Ninguém vai aparecer pra me salvar, ninguém vai bater nessa porta, ninguém vai me tirar desse pesadelo. Limpei a cara com a mão, os olhos ardendo, a cabeça latejando. Se eu ficasse ali parada feito estátua, ia pirar de vez. Levantei devagar, as pernas moles, e comecei a andar pelo quarto. Cada passo ecoava no porcelanato gelado. Tudo ali era bonito demais, moderno demais, frio demais. As luzes coloridas dançando devagar no globo do teto, parecia casa de rico que aparece na novela, só que sem alma, sem gente, sem vida. Uma jaula dourada da p***a. Abri o frigobar, a luz branca quase me cegou. Refrigerante, chocolate importado, água mineral… tudo arrumadinho. Ele tinha falado que eu não ia passar fome. Como se isso fosse um favorzinho, como se isso compensasse o fato de eu estar trancada que nem bicho. Peguei uma garrafa d’água e virei tudo de uma vez, a garganta queimando de tanta sede. Depois abri o armário de baixo: prato, copo, talher, tudo brilhando. Alguém preparou esse quarto pra mim. Essa ideia me deu um enjoo do c*****o. Virei pro guarda-roupa, deslizei a porta. Roupa de homem dobrada direitinho, cheiroso, organizado demais pra um cara que parece matador. Camiseta preta, jaqueta de couro, calça jeans cara… tudo no lugar. Peguei uma camiseta sem nem pensar e levei pro rosto. O cheiro me acertou que nem tapa. Forte, amadeirado, caro pra c*****o, misturado com um negócio cru, de homem mesmo. Era ele. O perfume do Shark. Meu estômago revirou, mas eu não consegui largar logo. Fiquei ali, respirando aquele cheiro, sentindo ele me invadir, me lembrar que ele tá em todo canto mesmo quando não tá. Larguei a camiseta que nem se tivesse queimado a mão. Mas o cheiro já tinha grudado na minha pele. Fui pro banheiro, peguei uma toalha, liguei o chuveiro no quente. Deixei a água cair antes de entrar, o vapor subindo rápido, me abraçando. Fechei os olhos e deixei a água escorrer pelo corpo inteiro. Pela primeira vez desde que essa merda toda começou, eu respirei fundo. Era a única coisa que ainda era minha: minha respiração. Lavei o cabelo devagar, esfregando que nem louca, tentando tirar o cheiro dele, o toque dele, a voz dele que não saía da minha cabeça. Mas era inútil, irmão. Quanto mais eu esfregava, mais eu lembrava. Quando saí, sequei o corpo e vesti aquela mesma camiseta preta sem nem perceber. Ficou gigante em mim, quase um vestido, o tecido pesado, o perfume dele de novo me envolvendo. Olhei pro espelho: olho vermelho, cara de quem chorou o dia inteiro, camiseta de homem. Parecia palhaçada. Parecia tragédia. Voltei pro quarto, me joguei na cama. O colchão afundou gostoso demais, debochando da minha situação. Monstro com bom gosto do c*****o. Liguei a TV só pra ter algum barulho que não fosse a minha cabeça gritando. As imagens passavam, novela, comercial, notícia, eu nem via. Meu pensamento rodava igual aquele globo no teto. Em algum momento o cansaço bateu mais forte que tudo e eu apaguei. Não sei quanto tempo dormi. A TV ainda tava ligada, luz azul piscando no quarto. Mas o que me acordou foi outra coisa. Um calor. Um peso. Um cheiro que eu conhecia demais. Meu corpo congelou antes da minha cabeça entender p***a nenhuma. Tinha alguém atrás de mim. Abri os olhos devagar. O coração já querendo sair pela boca. Respirei fundo e o ar veio pesado, carregado daquele perfume amadeirado, forte, sufocante. O braço dele tava na minha cintura. Shark. O mundo sumiu. Só ficou o calor dele nas minhas costas, a pele quente encostada na minha, o peso daquele braço me prendendo. Meu corpo reagiu antes de mim: medo, raiva, confusão, tudo misturado virando um nó na garganta. — Não… — sussurrei, a voz quase não saiu. Tentei me mexer, mas o braço dele apertou de leve, tipo falando sem falar: fica quieta aí. Senti os dedos dele na minha barriga, a respiração dele no meu pescoço. O quarto inteiro pareceu encolher até sobrar só nós dois. — Não precisa ficar com medo — ele murmurou na minha nuca, voz rouca de sono, arranhando o silêncio. Ele tava acordado. Meu coração disparou mais ainda. — Me solta… — minha voz saiu tremendo. Ele não respondeu na hora. — Tá tudo bem — falou, como se fosse fácil acreditar nessa p***a. — Não tá nada bem! — quase gritei baixinho, segurando o choro — Me solta agora! Ele abriu os olhos. Me encarou de lado. Aquele olhar preto, fundo, intenso demais. Por um segundo ele não parecia o monstro que me arrastou da minha casa. Parecia… humano. Cansado. Perdido. Mas só um segundo. — Tu se mexe demais — resmungou, voz grossa de quem acabou de acordar. Eu fiquei olhando pra ele, sem acreditar no que tava ouvindo. — Eu não sou brinquedo teu, p***a! Ele deu um suspiro longo, tirou o braço devagar e virou pro outro lado da cama. — Que drama… — murmurou, como se o errado fosse eu. Fiquei sentada ali, coração batendo que nem bumbo de escola de samba, tentando entender o que tinha acabado de rolar. Ele simplesmente deitou de novo, fechou os olhos e… dormiu. Como se nada tivesse acontecido. Como se não tivesse invadido meu espaço, meu sono, minha paz que já não existia mais. Puxei o cobertor pra mim, tentando fazer uma muralha entre nós. Fiquei olhando ele respirar calmo, tranquilo, dono do mundo. E eu? Eu era o quê ali? Só o pagamento de uma dívida que nem era minha. Encostei a cabeça no travesseiro, o corpo ainda tenso pra c*****o, o perfume dele grudado na minha pele, na camiseta, no ar. — Monstro… — sussurrei quase sem voz. Mas lá no fundo, no fundo mesmo, uma coisa que eu odiava admitir tava me corroendo: aquele cheiro… aquele calor… aquele braço em volta de mim… por um segundo minúsculo, tinha parecido segurança. E isso me apavorava mais que tudo. Porque eu tava começando a ter medo de mim mesma. Medo de gostar do cheiro do meu sequestrador. Medo de achar paz no braço do meu inimigo. Fechei os olhos tentando expulsar ele da minha cabeça. Mas quanto mais eu tentava esquecer, mais o perfume dele ficava. E eu sabia que essa merda toda tava só começando. ADICIONE NA BIBLIOTECA COMENTE VOTE NO BILHETE LUNAR INSTA: @crisfer_autora
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