RAFAELA NARRANDO
As pessoas julgam…, mas nunca perguntam se queríamos estar vivendo isso.
A dor domina todo o meu corpo enquanto a mente grita um único porquê. Por que eu sobrevivi mais uma vez?
Por que, dessa vez, eu não morri e acabei com tudo isso? Irônico, né…
Eu faço tantas coisas para me manter viva. Nunca tentei contra a minha própria vida.
Mas, no fundo… tudo o que eu queria era morrer e colocar um fim em tudo.
Retomo a consciência aos poucos e sinto o frio no braço. O soro.
Sei que estou no hospital. Não preciso abrir os olhos para confirmar.
Quando Jéssica disse que Tigre mandou eu ir embora… eu já sabia o que me esperava.
Quando cheguei em casa, m*l passei pela porta e a garrafa veio na minha direção.
Não era qualquer garrafa. Era uma daquelas grossas, pesadas, de whisky.
Por reflexo, levantei a mão. O vidro bateu na parede ao meu lado e se despedaçou.
Em dois segundos, Tigre já estava com a mão no meu cabelo, me arrastando pela sala.
LEMBRANÇAS ON
TIGRE—Filha da p*ta desgraçada… tá achando que é quem nessa p*rra pra me peitar daquele jeito? _ Ele me jogou no sofá. Vieram dois socos em seguida: um no rosto, outro no peito.
O ar sumiu por segundos.
RAFAELA—Você ia matar uma pessoa inocente…_ O tapa veio rápido.
Ele me puxou pelo cabelo e me arremessou contra a mesa da sala. Tentei apoiar a mão para diminuir o impacto, mas ele pisou na mesa, quebrando o vidro.
RAFAELA—Ah…_ O grito escapou quando senti um caco cortar meu braço.
As lágrimas desceram sem que eu conseguisse impedir.
TIGRE—Eu te avisei, Rafaela. Nunca bate de frente comigo. Nunca vai contra minhas ordens. _ O chute veio logo depois.
Acertou minha boca. Senti o gosto do sangue na mesma hora.
RAFAELA—Vai me matar…_ Não foi pergunta. Foi afirmação.
TIGRE—Nunca vou te matar. _ a voz saiu fria. —Posso te arrebentar a noite toda, te lembrar quem eu sou… e ainda assim te manter viva. _ Depois disso, as lembranças ficam fragmentadas.
Lembro da sensação do meu braço quase se deslocando enquanto ele me puxava pelos cabelos escada acima.
Lembro da dor na costela quando recebi outro chute já no andar de cima.
Lembro de ser jogada na cama. Da roupa sendo rasgada. E então… apaguei.
Porque aquela sempre foi a pior das dores.
LEMBRANÇAS OFF
Agora estou aqui.
Com dor. Com vergonha de abrir os olhos e encarar Jéssica… de saber que ela me vê assim. Que ela sabe exatamente o que acontece comigo.
Nunca precisei vir para o hospital por causa dele.
Mas, dessa vez, sei que passou do limite. As pancadas foram mais fortes. Mais brutais.
Uma última lembrança atravessa a minha mente.
Ele me colocou de joelhos no chão. Quando se aproximou com seu pênis, senti o nojo subir pela garganta. Reagi. Mordi. A resposta veio imediata.
Ele lançou minha cabeça contra a mesa do quarto. Foi ali que tudo apagou. E eu não sei mais o que aconteceu depois.
Aqui eu sou sozinha. Sozinha de um jeito que nem o silêncio faz companhia. Tento me manter viva. Ainda não sei por qual propósito…, mas tento. Talvez por teimosia. Talvez por não saber fazer outra coisa além de respirar e acordar todos os dias, mesmo quando não há motivo.
Meus pais saíram do morro em menos de um mês depois que Tigre tomou posse de mim, como se eu tivesse deixado de ser filha e me tornado um erro que precisava ser apagado. Nunca. Nunca tentaram chegar perto. Nunca tentaram se aproximar… nem para perguntar se eu estava viva.
A última coisa que ouvi da minha mãe foi fria, seca, sem nenhum tremor de dor:
“Quem escolheu viver com bandido foi você.”
Meu pai? Ele nem tentou falar baixo. Me deu um tapa na cara, daqueles que queimam mais por dentro do que por fora, e cuspiu as palavras:
“Você é uma vergonha. Uma v***a como todas aqui desse morro.”
Depois disso, não vi mais nenhum dos dois. Não houve despedida. Não houve volta.
Nunca me deixaram falar. Nunca me deixaram pedir ajuda. Nunca me deixaram tentar explicar que, às vezes, a gente não escolhe… a gente é empurrada.
Nunca me deixaram tentar viver em vez de apenas sobreviver.
Tenho uma irmã de vinte anos. Nunca fomos próximas de verdade. Vivíamos em implicância, em silêncios atravessados e portas batidas. Mesmo assim… sinto falta dela. Falta das conversas sem importância, de perguntar como foi o dia dela, de ouvir reclamações bobas que hoje parecem tão preciosas.
Sinto falta até das respostas atravessadas, ditas sem vontade, como se sempre tivéssemos tempo de sobra. E não tivemos.
Sinto falta de tantas coisas que nem sei por onde começar. Do cheiro de café cedo.
Do barulho de televisão na sala. De me sentir parte de algum lugar.
Mesmo vivendo sempre aqui no morro… antes eu vivia. Havia risos, havia planos pequenos, havia um amanhã que parecia possível.
Agora eu só sobrevivo. Respiro por obrigação. Ando por instinto. Durmo quando o cansaço vence o medo.
E cada dia tem sido mais difícil que o outro, como se o peso no peito aumentasse um pouco toda vez que o dia começa.
JESSICA— já está acordada? _ escuto a voz de quem, no meio de tudo isso, acabou se tornando uma amiga. Mesmo sem muitas conversas. Mesmo sem promessas.
RAFAELA— queria não estar. _ respondo baixo, e sinto os olhos se encherem de lágrimas antes mesmo de conseguir respirar direito.
JESSICA— comigo não precisa disfarçar. _ ela fala com calma, como se tivesse todo o tempo do mundo. E então eu deixo. Deixo as lágrimas descerem sem abrir os olhos, sem segurar, sem fingir força. Apenas deixo. — Eu sinto muito. _ ela murmura.
Eu sorrio de leve… e isso só faz as lágrimas virem mais fortes, silenciosas, quentes escorrendo até o travesseiro.
RAFAELA— não foi escolha minha. _ as palavras saem pela primeira vez, como um desabafo preso há tempo demais. A voz falha. — Nunca foi. _ repito, mais fraco, mais quebrado.
Sinto os dedos dela segurarem minha mão com firmeza. Um toque humano. Um toque que não machuca.
JESSICA— eu sei…_ ela responde sem hesitar. A voz firme, como quem tem certeza do que diz. — Mesmo de longe, eu via que você nunca foi mulher que escolheria viver isso. _ Vou abrindo os olhos devagar, como se até as pálpebras pesassem. A luz incomoda, mas a presença dela não. — Você está bem… perto de como chegou. _ ela continua, me observando com atenção profissional e carinho escondido. — Imaginei que estaria mais machucada por dentro. _ Sorrio sem ânimo algum. Um sorriso que não chega a existir de verdade.
RAFAELA— eu queria estar. _ murmuro. Ela n**a imediatamente com a cabeça.
JESSICA— não fala assim._ As lágrimas voltam a descer sem controle. Não há mais força para segurar.
RAFAELA— estou cansada. _ confesso, finalmente. Cansada de tudo. De lutar. De respirar. De existir.
Ela me olha por alguns segundos em silêncio, como se medisse minhas palavras e a dor por trás delas.
JESSICA— dorme…_ diz com suavidade. — Aqui ele não vai te fazer m*l. Descansa… e vamos tentar fazer isso acabar. _ Olho para ela enquanto se aproxima do soro. Vejo quando injeta o medicamento devagar, com cuidado. Sei o que vem depois.
O peso no corpo. O silêncio na mente. O apagamento. E, pela primeira vez em muito tempo, não sinto medo de dormir.
Só penso que queria que fosse para sempre. Mas… por algumas horas já vai ser muito bom.
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