11 Ruby

2148 Words
Pela primeira vez eu olho para mim mesma e sinto que não sei o que fazer, que estou perdida. Nada mais tem jeito. Eu também estou com medo, porque agora são duas pessoas que já sabem, e não demoraria muito para que aquele colégio inteirou soubesse. E quando souberem, também não ia demorar muito para que se tornasse aquele mesmo inferno que foi na última escola. Eu faria qualquer coisa para conseguir o que eu quero, mas não sei mais se vale a pena fazer qualquer coisa pelo que eu quero. De um tempo para cá, parece que tudo o que eu faço só me condena mais e mais, e que tudo o que eu faço não é mais tão importante. Tenho medo, sei que preciso lutar mas é tão difícil. Estou tão exausta. Queria voltar para casa no final do dia, tirar a camisa e a jogar em um canto qualquer e dormir de pernas abertas no sofá. Sem ninguém. Apenas eu. Mas quando penso nessa sensação, apenas consigo lembrar de que não tenho uma casa, ou um sofá, não posso tirar a camisa e a jogar em um canto qualquer porque outras mulheres que queriam fazer o mesmo que eu, vão reclamar da bagunça. Também não posso dormir de pernas abertas no sofá porque sempre haverá uma senhora gritando “vá se arrumar! Preciso que esteja impecável em minutos”. Se eu pudesse expressar em palavras o que eu queria agora, diria somente uma palavra. Paz. Somente isso. — Ei, garota! — O motorista daquele táxi balança meu joelho até finalmente me acordar. — Chegamos. — Ah… — Levanto a cabeça tentando despertar, olho para o lado vendo Dean ainda dormindo no meu ombro e procuro o dinheiro que havia escondido na manga da camisa. — Toma, obrigada. Abro a porta, chacoalho Dean que resmunga para não acordar mas acaba cedendo. Seguro firmemente seu braço o impulsando a sair do carro. — Ei. — O motorista me chamou me fazendo encará-lo assustada. — Boa sorte. Uma boa noite para você. — Obrigada. — Sorri fraco voltando a puxar Dean para fora do carro. Dean quase cai de joelhos no chão, mas envolve seus braços em mim e se segura. Coloco seu braço em torno do meu pescoço e caminho com ele até à porta. Olho para trás vendo o taxista nos olhar por uns segundos e finalmente ir embora. A luz do poste era fraca, mas a luz da frente da casa de Dean estava acesa me ajudando a enxergar. — Você dá trabalho, Dean. — Resmunguei exausta tentando subir os batentes da calçada com ele. Caímos os dois sentados na calçada, e cansada me entreguei deitando o tronco também. Dean deitou ao meu lado e começou a cochilar. Ouço a porta ao nosso lado abrir, quando desvio meu olhar para ela vejo Raquel sair de dentro de casa. Ela corre até Dean, se abaixa ao lado dele e examina o seu rosto. Eu fico igual uma criança ao lado dos dois, apenas observando. Dean é rico de algo que nem todas as pessoas tem a oportunidade de ter. Raquel me olha de soslaio e a sua expressão muda totalmente, ela pula em cima de mim e segura meu rosto em suas mãos olhando cada centímetro do meu rosto enquanto eu a olho assustada. — Você está bem? — Questionou encostando dois dedos na curva do meu pescoço para o queixo. Assenti balançando a cabeça, e ela levantou estendendo a mão para mim. — Vamos, você precisa descansar. — Raquel ficou lá com a mão estendida para mim e eu só sabia olhar para o Dean cochilando. Ela olhou para ele também notando que eu estava preocupada com ele. — Eu já venho buscar ele, está drogado, não está nem sentindo nada. Segurei a sua mão e levantei do chão com a sua ajuda. — Vamos colocá-lo para dentro logo, eu vou ficar bem. — Comuniquei enquanto abaixava ao seu lado e enroscava o seu braço em volta do meu pescoço, Raquel deu a volta indo até o outro lado fazendo o mesmo. — Vamos, no três. — Raquel combinou. — Um… dois… três! O levantamos do chão e saímos caminhando com ele para dentro de casa, passamos de lado na porta porque não passava, óbvio. Andamos com ele até o quarto. — Me ajude a colocar ele dentro do banheiro, ele precisa de um banho. — Minha voz saiu arrastada pelo cansaço. — Ele está fedendo a suor e álcool. — Tudo bem. — Raquel concordou caminhando até o banheiro. Caminhamos devagar tipo tartaruga, e caímos os três depois de escorregar no tapete. — Mas que p***a… — Dean resmungou acordando enquanto levantou seu tronco do chão, se apoiou em um cotovelo e esfregou o rosto com a mão. Raquel e eu nos entreolhamos e começamos a rir. — A gente ri mas dá vontade de chorar. — Murmurou. — Está com fome, Ruby? — Só tomei café e almocei hoje. — Comprimi os lábios. — Tudo bem, vou preparar alguma coisa para comer. Ele acordou, você consegue ajudar ele a ir até o box? — Perguntou enquanto ela própria m*l conseguia levantar. — Calma, é só a idade. — Me fez rir fraco. — Eu não sou nenhum alejado, consigo ir sozinho. — Dean resmunga fazendo uma careta provavelmente sentindo alguma dor, o efeito de tudo estava passando. Tentou levantar do chão mas falhou miseravelmente. — É, estou vendo. — Raquel ironizou depois de ficar em pé vendo ele tentar levantar e não aguentei, comecei a gargalhar do deboche dela e então ela saiu. Me ajoelhei no chão tirando os sapatos dele, depois tiro os meus. Levantei do chão com as pernas bambas depois da queda, mas firmei os pés no chão, segurei na pia e estendi a mão para Dean que ficou me olhando e desviou o olhar cheio de birra. — Segura a minha mão, seu i****a. — Ordenei elevando o meu tom de voz. — Não, eu prefiro que a Raquel me ajude. — Girou o tronco em direção à porta. — Mãe! — Você quer que a sua mãe te ajude a tomar banho como se fosse uma criança? Onde está aquele Dean cheio de si? — Ironizei. Ele travou o maxilar me olhando cheio de raiva. — Anda, deixa eu te ajudar. — Estendi a mão novamente ainda com paciência. Dean ainda estava olhando para o lado com o maxilar travado ainda com aquele olhar de cachorro zangado. Segurei a ducha e espirrei um pouco de água nele que tomou um susto e cobriu o rosto com as mãos. — Mas que inferno! — Gritou irritado, eu quis rir mas me segurei e só devolvi o olhar zangado para ele que me olhava com as sobrancelhas franzidas. — Qual a merda do teu problema? — Vamos, ou eu vou banhar você com a água fria da ducha. — Ergui as sobrancelhas em um aviso e ele murmurou alguns xingamentos antes de estender a mão para mim. Junto o restante da minha força e puxo Dean para cima enquanto seguro a pia atrás de mim para não cairmos novamente. Dean cambaleia para frente com as pernas fracas e segura na pia atrás de mim me fazendo ficar entre seus braços sem querer. Abraço seu corpo tentando o ajudar a ficar em pé e ele comprime os lábios claramente incomodado com a minha ajuda. — Vem, pode se apoiar em mim se precisar. — O ajudo a andar até o box do banheiro enquanto ele tenta ao máximo não se encostar em mim mas não consegue evitar. O encosto na parede e fecho o box, estendo as mãos segurando a barra de sua camisa e a puxando para cima deslizando por seus braços. Quando toco a barra da sua calça ele retira a minha mão e faz aquela cara de birra novamente por querer tirar sozinho. Seguro a barra da minha própria camisa e a puxo para cima a tirando do meu corpo. Quando olho novamente para Dean ele encara meu tronco com aquele olhar neutro, eu o encaro de volta curiosa e ele vira o rosto para o lado. Deslizo minha saia por minhas pernas e a jogo no chão fora do box. Ligo o chuveiro ao lado de Dean e a água gelada cai sobre nós dois, ele estremece encolhendo os próprios braços com frio. — Achei que fosse ligar a água quente, teria dado na mesma ter deixado você me dar banho com a água da ducha. — Resmungou. — Precisa ser água gelada para curar essa sua bebedeira. — Jogo um pouco da água que cai do chuveiro em seu cabelo. Dean ainda estava um pouco chapado, tremia de frio e fechava os olhos com força igual uma criança. Mexo em seu cabelo terminando de molhá-lo, pego o frasco de shampoo na prateleira e despejo um pouco na minha mão e esfrego em seus cabelos fazendo uma espuma de perfume. Massageio seu cabelo ouvindo seu ofego de alivio e franzo o cenho curiosa. — Está com dor de cabeça? — Questiono com a voz calma quase em um sussurro. — Humhum. — Ele murmura. Eu já conseguia sentir um pouco de esperança em relação a ele, talvez as coisas pudessem se resolver. Mas então lembro que agora minha dívida aumentou por causa dele, que outra vez eu ia me atrasar ou faltar no “trabalho” por causa dele, e de repente tudo parecia ser culpa dele, mas então lembro que foi eu quem escolhi isso e não tenho o direito de reclamar. Mas eu ainda tinha o Dean, ou pelo menos a esperança de ainda tê-lo. Mas alguma coisa eu ainda tinha. Despejo um pouco de sabonete na bucha fazendo bastante espuma e deslizo pelos braços de Dean. Parece que o mundo a nossa volta some, me sinto tão mais tranquila vendo ele em minha frente e sentir que ele não me afasta por mais que seja apenas efeito do ecstasy. Mas posso sentir seu olhar sobre mim enquanto esfrego seu corpo, sinto o soprar gelado da sua respiração contra o meu rosto molhado e até mesmo a sua presença é mais forte do que eu posso perceber. Sinto as mãos de Dean tocarem hesitantes a minha cintura, mas logo ele se aproxima e toca a testa no topo da minha cabeça, ele suspira alto e beija a minha bochecha. Abraço o seu tronco enquanto a água cai sobre nós, sentindo ele esconder o rosto em meu pescoço e soprar ar quente ali. Beijo sua clavícula aproveitando cada segundo, aproveitando o seu cheiro, o seu corpo colado no meu e aquela sensação que já havia sentido antes de conforto. Eu precisava estar ciente de que quando ele acordasse depois não seria mais como é agora, apesar de que o que ele está fazendo agora seja o que ele queria fazer quando está sóbrio. Quando o efeito passar, o Dean de ontem irá voltar. Terei que estar preparada para as coisas que ele irá dizer, para todas as ações que ele tiver e talvez até me botar para fora daqui. — Me perdoa? — Peço mesmo sabendo que ele não irá lembrar disso depois, e se lembrar, irá se arrepender. — Só se você for embora daquele lugar. — Resmunga sonolento com a voz abafada. — Dean… — Eu queria chorar, porque eu não podia dar a ele o que ele queria, e isso sequer estava nas minhas escolhas. — Depois conversamos, quando você estiver sóbrio. Dean aceita e depois fica em silêncio. Depois de uns segundos seu corpo fica pesado e ele começa a roncar. — Ei, ei! Não dorme. — Empurro seu peito de volta para a parede e ele me encara com aqueles olhos sonolentos. — Não estou dormindo. Termino de tomar banho com ele, depois deixo ele na pia escovando os dentes enquanto procuro uma roupa para ele vestir. Vesti uma camisa dele, peguei a maior que encontrei e que ficou um vestido em mim. Depois o ajudei a andar até a cama, ajudei ele a se vestir e praticamente joguei ele em cima da cama. Ele não quis nem sequer comer, só dormiu. Vesti ele com uma roupa de frio e até coloquei meias nos pés dele, realmente parecia uma criança. Um bebê gigante. Cobri ele com o cobertor enquanto ele estava roncando, sorri comigo mesma vendo ele não bonitinho dormindo, dei um beijo no topo da cabeça dele sentindo o cabelo dele molhado mas cheiroso agora e desliguei o abajur indo para a cozinha comer alguma coisa com a Raquel. Naquele momento eu não estava mais me importando com nada, quando eu voltasse para a boate a Ruth acabaria comigo novamente, ela me castigou há um dia e eu já estou fazendo burrada, faltando ao trabalho novamente no dia seguinte.
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