SAMUEL'S POV
Eu estava sufocando dentro daquela casa. Cada canto parecia carregar um peso que eu não conseguia mais suportar. As palavras de Lily ainda ecoavam na minha cabeça a respeito de Aidan, provocando uma raiva e uma frustração que eu não conseguia afastar. Revirei os olhos, sentindo um nó se apertar no meu peito.
Peguei minha guitarra no quarto, o único refúgio que me restava. O metal frio das cordas sob os meus dedos era um alívio, uma lembrança de que havia algo que ainda fazia sentido no meio de todo esse caos. Eu precisava sair dali, precisava me afastar de tudo por um tempo.
Decidi ir para a casa de John. A banda sempre foi o lugar onde eu podia desabafar sem ser julgado, onde eu me sentia útil, importante. Sabia que John, Peter e Mike estariam lá, ensaiando ou jogando conversa fora. E agora, com Emily, a ex-amiga de Lily, ficando com John, eu esperava que a presença dela não estragasse a vibe. Mas, por mais que aquela situação me incomodasse um pouco, estar longe de Lily e de Samuel era a prioridade. Peguei as chaves do carro e saí sem dizer uma palavra a ninguém.
A estrada até a casa de John parecia longa, embora fosse uma viagem curta. A tensão em mim era tanta que m*l percebi o tempo passar. Quando cheguei, a garagem já estava aberta, como sempre, e o som abafado da música me deu uma breve sensação de conforto.
Entrei sem bater, como de costume. A guitarra pendurada nas minhas costas, pesada, como se carregasse mais que apenas notas musicais.
“Olha quem chegou,” John disse, com um sorriso, largando sua guitarra para vir me cumprimentar. Ele estava relaxado, como sempre, o que fazia contraste com o turbilhão dentro de mim. Emily estava sentada ao lado dele no sofá, mexendo no celular, fingindo que não me via. A presença dela ali me incomodava mais do que eu queria admitir. Ela e Lily costumavam ser inseparáveis, e agora... Bom, agora ela estava aqui, ao lado do meu melhor amigo, e eu não sabia se isso fazia dela uma aliada ou uma lembrança de tudo o que estava desmoronando.
Peter estava afinando sua bateria ao fundo, com aquela concentração habitual, enquanto Mike ajustava o teclado, os dois completamente alheios à minha entrada.
“E aí, Samuel? Novidades?” Mike perguntou, levantando os olhos apenas por um segundo, antes de voltar a mexer nos cabos do teclado.
Eu respirei fundo, sentindo um pouco da tensão aliviada. Era exatamente por isso que eu estava ali: falar sobre música, planos, e tudo que não envolvia Lily.
“Boas notícias, na verdade,” comecei, tentando manter a voz leve. “Conversei com a minha mãe sobre os produtores. Ela topou.”
O silêncio que seguiu minhas palavras foi quebrado pelo som de Peter batucando de leve nas baquetas, como se estivesse marcando o ritmo da conversa.
“Cara, isso é demais!” John disse, se levantando e vindo em minha direção com uma expressão animada. “É o que precisávamos ouvir.”
Assenti, sentindo a animação dele contagiar um pouco.
“Ela vai ajudar fazendo o agendamento pra gente se apresentar pra eles. Se eles gostarem, a gente pode finalmente começar a pensar em gravar de verdade.”
Mike deu um sorriso satisfeito. “Isso é exatamente o que precisávamos ouvir, mano. Com os contatos certos, estamos no caminho certo.”
John voltou para o sofá, puxando Emily pela cintura para mais perto dele. Ela sorriu, mas continuou fingindo que não estava me encarando. Eu me perguntei se Lily sabia sobre os dois. Não que fosse da minha conta, mas as amizades de Lily eram complicadas. E saber que Emily estava aqui, com John, me fazia sentir como se estivesse entrando em um terreno minado.
“E agora, qual música a gente vai escolher para apresentar pra eles?” Peter perguntou, finalmente parando de ajustar a bateria e me olhando com interesse. “Você tem alguma em mente?”
Eu me sentei em uma cadeira perto deles e tirei a guitarra das costas, posicionando-a no colo. Passei os dedos pelas cordas, tocando algumas notas sem pensar, apenas para relaxar. Todos os olhos estavam em mim, esperando, e por um momento, eu quase hesitei. Mas a verdade é que a música sempre foi a minha maneira de processar tudo o que eu estava sentindo, então era hora de compartilhar.
“Eu estive pensando sobre isso,” comecei, tocando uma melodia suave que vinha se formando na minha cabeça há dias. “Quero algo que seja pessoal, algo que realmente mostre quem a gente é como banda.”
John assentiu, encorajando.
“Faz sentido. O que você tem?”
A melodia que tocava nos meus dedos era simples, mas havia algo cru nela, algo que eu sabia que poderia ser moldado em algo grande. Continuei tocando, deixando a música fluir. As notas se transformavam conforme eu ia me abrindo mais para o momento.
“Quero que a letra fale sobre escolhas,” eu disse, enquanto tocava. “Sobre como a gente lida com as decisões que nos são impostas, sobre o que a gente perde e ganha ao longo do caminho.”
Peter e Mike estavam atentos, absorvendo o que eu estava dizendo. Emily, pela primeira vez, pareceu realmente prestar atenção. Talvez ela tivesse percebido que a música era a única coisa que me fazia esquecer de Lily e de tudo o que havia entre nós.
“Eu escrevi algumas linhas,” continuei, parando de tocar e pegando meu celular do bolso para mostrar as letras que vinha trabalhando. Li alguns versos, sentindo a energia da sala mudar enquanto eles absorviam o significado por trás das palavras.
Comecei a cantar, minha voz hesitante no início, mas logo sendo tomada por uma onda de emoções que eu m*l conseguia controlar:
“Eu a vejo caminhar, tão cheia de luz
Mas ela não percebe o que há entre nós
Enquanto ela se perde nos braços dele
Eu fico aqui, sozinho com a minha voz...”
Enquanto eu cantava, pude sentir o olhar de todos em mim, especialmente o de Emily, que me observava de uma maneira que parecia ler meus pensamentos.
“ Eu sei que ele não é o que parece ser
Mas quem sou eu pra dizer?
Eu só quero que ela veja o que eu vejo
Antes que seja tarde demais pra entender...”
O som da guitarra ecoava no pequeno espaço, misturando-se ao pulsar lento do meu coração. Quando cheguei ao refrão, já não havia mais dúvidas no ar.
“ Ela não vê o que ele esconde por trás do sorriso
Ela não sabe que seu coração corre perigo
Eu queria ser o herói que a salva desse mar
Mas eu só posso cantar, cantar...
Ela não vê... Não, ela não vê...”
John acenou com a cabeça, um sorriso de aprovação crescendo em seu rosto.
“Isso é profundo, cara. Acho que temos algo aqui.”
John pegou seu baixo, e em poucos segundos, Peter e Mike já estavam acompanhando a melodia.
“Sim, cara, eu consigo imaginar uma batida de bateria pra isso,” Peter acrescentou, já tamborilando no ar, como se estivesse tentando encaixar uma batida para acompanhar a melodia que eu havia tocado.
Mike também parecia empolgado.
“E eu posso criar algumas harmonias no teclado que se encaixem bem com esse tom.”
Eu podia sentir a excitação crescendo entre nós. Esse era o tipo de momento que fazia tudo valer a pena — o momento em que a banda se unia em torno de uma ideia e começava a criar algo do zero. Esquecer tudo o que estava acontecendo fora daquele espaço, deixar de lado as complicações com Lily, e apenas focar no que realmente importava: a música.
“ Toda vez que ela me conta sobre o amor
Eu finjo que estou bem, mas que grande ator
E ela brilha tão forte, mas ele não vê
O que daria pra ela, ele nunca vai ser...”
O olhar de Emily queimava em mim, como se ela soubesse exatamente quem estava no centro da letra. Ela não precisava de explicações. Ninguém ali precisava. E enquanto o refrão voltava, todos os sentimentos não ditos entre Lily e eu ecoavam por entre as notas.
“E quando ela cair, quem vai segurá-la?
Eu estarei aqui, como sempre estive
Mas eu temo que meu silêncio possa machucá-la
E ela nunca saiba que eu a amei de verdade...”
O som se intensificou, preenchendo o estúdio com a batida profunda do pop rock que era nossa assinatura. Eu continuei, a cada verso, cada acorde, me entregando mais e mais à música.
“Ela não vê...
Não, ela não vê...
Mas eu vejo...
Eu sempre vou ver...”
No momento em que terminei a música, houve um silêncio profundo no estúdio. Todos estavam absorvendo as palavras, o significado. Até Peter, que sempre tentava mascarar qualquer emoção com piadas, ficou sério por um instante.
"Isso foi incrível, cara," ele disse, finalmente rompendo o silêncio. "Essa música vai destruir corações. Vai ser um hit."
“Acho que estamos no caminho certo,” John disse, finalmente se recostando no sofá com um sorriso satisfeito. “Quando a gente apresentar isso pros produtores, eles não vão resistir.”
Eu sorri de volta, sentindo o peso do dia começar a se dissipar.
“É o que eu espero.”
Emily deu um leve sorriso, e, pela primeira vez desde que eu havia chegado, ela falou diretamente comigo.
“Isso foi incrível, Samuel. Acho que vocês realmente têm algo especial aqui.”
Eu apenas assenti, evitando olhar diretamente para ela. Parte de mim ainda estava tentando entender como ela e John haviam se aproximado tanto, mas naquele momento, isso não importava.
Importava que, pela primeira vez em dias, eu me sentia mais leve, mais em paz.
Mike sorriu, já tocando pequenos trechos da música, empolgado para começar a criar os arranjos. A energia no estúdio estava fervendo, e logo começamos a trabalhar nos detalhes. O som tomou forma rapidamente, com o ritmo sincopado da bateria de Peter, as notas melancólicas do teclado de Mike, e o baixo de John pulsando forte. Era exatamente o que eu imaginava, um pop rock sincero, profundo, carregado de emoção.
Emily, que observava em silêncio enquanto a banda construía a música, finalmente se aproximou de mim quando paramos para uma pausa.
"Essa música... é sobre Lily, não é?" Ela perguntou, sem rodeios.
Eu hesitei, mas não havia sentido em mentir.
"Sim," admiti, encarando o chão. "É sobre ela."
"Como ela está?" A voz de Emily soava mais suave agora, quase preocupada. "Sabe, ela não tem respondido minhas mensagens."
" Você verá segunda-feira," respondi. "Mas basicamente... Ela conheceu os pais do Aidan hoje."
Emily franziu o cenho, e sua expressão ficou séria.
"Você precisa contar a verdade para ela sobre o Aidan, Samuel. Se ela está tão envolvida com ele... Ela tem o direito de saber quem ele realmente é."
Eu balancei a cabeça, frustrado.
"Eu sei. Mas não é tão simples assim. Ela parece estar feliz com ele."
Emily me lançou um olhar firme.
"Samuel, às vezes o que parece ser felicidade é só uma fachada. E você sabe que Aidan não é quem ele finge ser."
Eu sabia que ela tinha razão, mas a ideia de me colocar contra Aidan, de expor Lily dessa maneira, me deixava inseguro. Antes que eu pudesse responder, John apareceu, abraçando Emily e interrompendo a conversa. Ele disse algo baixinho para ela que eu não consegui ouvir, e então eles se afastaram, indo para o sofá onde começaram a trocar carícias.
Eu observei os dois, minha mente vagando. O jeito como eles riam juntos, se beijavam sem reservas, como se o mundo lá fora não existisse... Não pude evitar pensar se algum dia eu teria algo assim com Lily, abraçado a Lily, sem mais esconder meus sentimentos, sem mais músicas que dissessem o que eu nunca conseguia falar.