SAMUEL’S POV
Sentei-me na beira da cama, soltando um suspiro carregado de raiva e cansaço. Peguei minha guitarra e comecei a dedilhar suavemente, deixando que as notas fluíssem como uma distração necessária. Eu não queria pensar. Não queria sentir. Só queria ignorar tudo — e todos.
O som da porta se fechando atrás de mim indicou que minha mãe, Samantha, ainda estava ali. Eu sabia que ela esperava algo, mas fingi que não percebia.
— O que você está fazendo? — ela perguntou, a voz cortando o silêncio como uma faca.
Sem levantar os olhos, continuei tocando.
— Tocando.
Samantha deu um passo à frente, cruzando os braços, e falou, agora irritada:
— Você não pode fazer isso comigo.
— Não estou fazendo nada com você — respondi, ainda sem parar de dedilhar.
— Está, sim — ela rebateu, o tom ficando mais firme. — Você está me punindo.
Finalmente, ergui os olhos para ela, desafiador.
— Punindo como?
— Maltratando Doug. Descontando na Lily.
A risada escapou de mim antes que eu pudesse conter. O som era amargo, sem humor.
— Descontando na Lily? A garota mentiu e ainda disse que eu era o mentiroso. E eu sou o problema? Perfeito.
— Sim, você é. — Samantha não vacilou, cruzando os braços com força. — Você está se aproveitando de uma pequena falha dela para se prevalecer, para causar o caos nesta família.
Minha expressão endureceu. A guitarra descansou no meu colo enquanto eu a encarei.
— Que família? Lily e Doug não são da minha família.
O silêncio após minha declaração foi pesado, mas Samantha não recuou.
— Doug é meu marido. Lily é sua irmã.
As palavras dela foram como um fósforo riscado perto de um barril de pólvora. Levantei-me de repente, a raiva fervendo em cada palavra que saiu da minha boca.
— Lily não é minha irmã. Doug nunca foi meu pai e nunca será. Ele é, e sempre será, o seu amante.
— Samuel! — Samantha ofegou, surpresa com minha explosão.
— Por que você decidiu se casar com ele? — continuei, sem freios agora. — Não era melhor ficar só fodendo com ele escondido, como sempre fez?
A mão dela veio rápido, o estalo do t**a ecoando pelo quarto. Minha cabeça virou com o impacto, e por um momento, fiquei paralisado. Não era a dor física que me atingiu, mas o simbolismo.
Samantha parecia tão chocada quanto eu.
— Samuel... Eu... desculpa.
Afastei-me dela antes que ela pudesse me tocar, o rosto queimando com a mistura de raiva e humilhação.
— Saia do meu quarto.
— Não podemos deixar as coisas assim entre nós. — A voz dela era um misto de arrependimento e desespero.
Eu ri, um som seco e c***l.
— As coisas sempre foram assim, mãe. E isso é culpa sua.
— Eu sinto muito — ela murmurou, a voz quase um sussurro.
Olhei para ela, meu peito subindo e descendo rapidamente, o ar parecendo pesado demais para respirar.
— Eu não quero suas desculpas. — Minha voz era baixa, mas carregada de veneno. — Mas já que você quer tanto brincar de família feliz, saiba que isso tem um preço.
Samantha estreitou os olhos, confusa.
— O que você quer dizer?
Minha raiva se transformou em algo mais calculado. A guitarra ainda pendia em minhas mãos enquanto a encarei diretamente.
— Quero que você cumpra a promessa que me fez sobre os produtores. Quero que eles vejam a minha banda, e quero isso até sexta-feira.
Ela piscou, atordoada.
— Samuel, isso não é algo que se resolve assim...
— Não me interessa como você vai fazer. — Minha voz ficou mais fria. — Você tem até sexta-feira. Ou eu conto seu segredinho com Doug para Lily.
Ela deu um passo para trás, a expressão dela misturando surpresa e dor.
— Você não faria isso.
— Teste minha paciência.
Houve um silêncio pesado entre nós. Samantha abriu a boca como se fosse argumentar, mas a fechou logo em seguida. Eu já sabia que tinha vencido.
Sem esperar por uma resposta, peguei minha guitarra e passei por ela.
— Samuel, onde você vai? — ela perguntou, a voz cheia de preocupação.
— Para bem longe desta casa.
Não esperei pela resposta dela. Saí do quarto e desci as escadas, cada passo ecoando como uma declaração de guerra. Deixei para trás não apenas Samantha, mas tudo o que aquela casa representava. Se ela queria manter sua fachada de perfeição, que lidasse com as consequências. Eu estava cansado de ser a peça descartável no jogo dela. E, desta vez, eu ditaria as regras.
***
O sol da manhã estava forte quando cheguei à casa de John, a guitarra pendurada nas costas e a mente fervendo com tudo o que havia acontecido. O calor parecia apertar o ar ao meu redor, mas, ao invés de me incomodar, só reforçava minha necessidade de colocar as ideias no lugar — e ensaiar era a única coisa que fazia sentido agora.
Toquei a campainha e esperei, ouvindo o som abafado de passos do outro lado da porta. Quando ela se abriu, John me encarou com as sobrancelhas erguidas, a expressão dividida entre surpresa e curiosidade.
— Samuel? O que você está fazendo aqui? — ele perguntou, apoiando-se no batente da porta.
— Precisamos ensaiar — respondi, direto.
John arqueou uma sobrancelha, cruzando os braços.
— Você brigou com a sua mãe, não é?
Revirei os olhos e passei por ele sem pedir permissão.
— Não importa. Só precisamos ensaiar. Temos uma apresentação para produtores até sexta-feira.
Ele me seguiu para dentro, confuso.
— Uou, espera aí. Como assim “produtores”?
— Só chama os outros. — Minha voz estava firme, um pouco mais dura do que eu pretendia.
John soltou um suspiro, claramente não satisfeito com a falta de explicações, mas acenou.
— Ok, eu vou ligar pra eles.
Enquanto ele desaparecia pelo corredor, ouvi passos vindos da cozinha. Olhei para cima e, para minha surpresa, vi Emily, a ex-melhor amiga de Lily. Ela estava encostada na moldura da porta, com um sorriso que parecia conter mais curiosidade do que gentileza.
— Olha só quem apareceu. — Ela disse, cruzando os braços. — Como você está, Samuel? E... como está Lily?
O nome dela saiu de sua boca como um soco no estômago. Endureci imediatamente, evitando os olhos de Emily enquanto passava por ela.
— Não pergunte sobre Lily para mim.
Emily piscou, surpresa com a resposta curta e afiada, mas não disse nada enquanto eu continuava meu caminho para a garagem.
A garagem de John era nosso estúdio improvisado. O cheiro de madeira velha e poeira misturava-se ao da cola dos cartazes de shows antigos que cobriam as paredes. Meu lugar preferido sempre foi o canto perto da janela, onde eu podia ver o céu enquanto tocava. Larguei minha mochila no chão, tirei a guitarra e me sentei no banco.
Fechei os olhos por um momento, deixando que as emoções me consumissem. Então comecei a tocar, ajustando as cordas enquanto buscava um som que traduzisse tudo o que estava dentro de mim. As palavras vieram lentamente, primeiro como sussurros na minha mente e depois como versos que fluíam com a melodia.
Verso 1
Eu a vejo caminhar, tão cheia de luz
Mas ela não percebe o que há entre nós
Enquanto ela se perde nos braços dele
Eu fico aqui, sozinho com a minha voz
As notas pareciam se alinhar com o peso do que eu sentia. Cada acorde ressoava com a verdade que eu não podia dizer em palavras normais.
Pré-Refrão
Eu sei que ele não é o que parece ser
Mas quem sou eu pra dizer?
Eu só quero que ela veja o que eu vejo
Antes que seja tarde demais pra entender
Minha voz, embora rouca pelo cansaço, crescia com a intensidade do refrão.
Refrão
Ela não vê o que ele esconde por trás do sorriso
Ela não sabe que seu coração corre perigo
Eu queria ser o herói que a salva desse mar
Mas eu só posso cantar, cantar...
Ela não vê... Não, ela não vê
A música parecia ganhar vida própria. Cada verso era um pedaço do que eu nunca poderia dizer diretamente. Eu a via tão claramente, mas ela estava tão longe, presa em algo que eu sabia que iria feri-la.
Verso 2
Toda vez que ela me conta sobre o amor
Eu finjo que estou bem, mas que grande ator
E ela brilha tão forte, mas ele não vê
O que daria pra ela, ele nunca vai ser
Minhas mãos dedilhavam as cordas quase automaticamente agora. A música fluía como se estivesse guardada em algum lugar profundo, esperando o momento certo para sair.
Ponte
E quando ela cair, quem vai segurá-la?
Eu estarei aqui, como sempre estive
Mas eu temo que meu silêncio possa machucá-la
E ela nunca saiba que eu a amei de verdade
O último verso saiu quase como um sussurro, minha voz carregando a dor de cada palavra.
Enquanto as últimas notas ecoavam pela garagem, ouvi um barulho na porta. John estava lá, encostado no batente, com uma expressão que eu não conseguia decifrar.
— Isso foi... intenso. — Ele finalmente disse, entrando.
Não respondi, apenas coloquei a guitarra de lado e passei a mão pelo rosto.
— Os caras estão vindo — ele continuou. — Vamos ensaiar, ok?
Assenti, mas minha mente ainda estava na música. Aquela canção não era para os produtores, não era para o público. Era para ela. Para Lily.
Mesmo que ela nunca a ouvisse.