SAMANTHA'S POV
A sala de gravação estava cheia de energia contida, uma mistura de nervosismo e excitação que eu podia quase tocar. Samuel e os meninos da banda estavam ajustando os instrumentos, cada um concentrado em sua tarefa. Ele tinha a guitarra em mãos, ajustando as cordas e afinando com precisão. John, sempre calmo, mexia no baixo, enquanto Peter batia levemente nas baquetas, aquecendo para a bateria. Mike estava no teclado, testando acordes rápidos enquanto se acomodava em seu banco.
Do outro lado do vidro, na sala de controle, Jazz, Elliot, Damian e eu nos acomodamos em cadeiras giratórias em frente ao painel de controle. As luzes piscavam no grande console, e o engenheiro de som ajustava os níveis e equalizações com a experiência de quem fazia isso todos os dias. Os produtores, no entanto, não pareciam distraídos; cada um tinha os olhos fixos na banda, observando cada detalhe.
Elliot, com seus óculos redondos brilhando sob a luz, apertou um botão no console, abrindo o canal de comunicação entre as salas.
— Estão todos prontos? — ele perguntou, sua voz soando clara na sala de gravação.
Samuel olhou para os outros, que assentiram, e respondeu:
— Sim.
Jazz, sempre animado, deu uma risada curta e disse:
— Então mandem ver.
Samuel ajeitou a guitarra, mas antes de começar, ergueu a cabeça e perguntou:
— Vocês têm alguma preferência? Querem algo já conhecido ou podemos tocar uma autoral?
Damian inclinou-se para frente, apoiando os braços na mesa de controle.
— Vamos fazer o seguinte. Serão três músicas. Eu escolho a primeira: quero algo estilo punk rock ou grunge, algo conhecido.
Jazz balançou a cabeça, aprovando o plano.
— Ótimo. Para a segunda música, quero algo com vibe Soul.
Elliot, com um sorriso enigmático, completou:
— E a última será autoral. Mostrem-nos quem vocês realmente são.
Na sala de gravação, Samuel se virou para os meninos, que imediatamente começaram a murmurar entre si. Era visível o dilema em seus rostos. Eles eram uma banda de indie folk; seu som era melódico, com letras introspectivas e arranjos sutis. Punk rock? Soul? Isso os tirava completamente da zona de conforto.
Do meu lugar na sala de controle, eu observava Samuel gesticular enquanto discutia com John, Peter e Mike. Apesar das diferenças de opinião que surgiam, era claro que eles confiavam no julgamento de Samuel. Ele tinha uma presença natural que os unia, mesmo em momentos de tensão.
— O que vamos tocar para o Damian? — perguntou John, preocupado.
— Alguma coisa que possamos adaptar. — Samuel tamborilou os dedos na guitarra, pensando. — Algo clássico. Smells Like Teen Spirit, talvez?
— E para o Jazz? — Peter questionou.
Mike deu um leve sorriso.
— Podemos fazer A Change is Gonna Come. Eu sei os acordes.
Samuel assentiu.
— Boa. E a autoral?
John olhou para ele, confiante.
— Ela não vê. É uma das melhores que você já compôs, Samuel. Eles merecem escutar
Samuel concordou, ajustando a guitarra.
— Fechado. Vamos com isso.
Ele voltou-se para o microfone e falou diretamente para a sala de controle:
— Certo. Vamos começar.
Damian sorriu, inclinando-se para o console.
— Excelente. Estamos prontos quando vocês estiverem.
Jazz girou a cadeira em direção a mim, o sorriso dele cheio de expectativa.
— Eles parecem confiantes. Isso é bom.
— Samuel sempre foi assim — respondi, tentando parecer mais calma do que estava. Meu coração batia acelerado, mas eu sabia que ele tinha isso dentro de si.
Na sala de gravação, Samuel deu o sinal, e os meninos começaram. O primeiro som a sair foi de John, o baixo marcando um ritmo forte, seguido pelo baterista Peter, que atacou com energia crua. Samuel entrou logo depois, a guitarra ressoando com um riff que ecoava o espírito do grunge. Sua voz rouca se misturou ao instrumental, trazendo autenticidade à performance.
Damian deu um leve aceno com a cabeça, como se aprovasse, enquanto Jazz fechava os olhos, batendo o pé ao ritmo da música. Elliot, por sua vez, inclinou-se para frente, ouvindo atentamente cada nota, como se estivesse analisando a essência de cada som.
Quando terminaram, houve um breve silêncio. Então Damian apertou o botão de comunicação.
— Muito bom. Conseguiram capturar a energia certa.
— Próxima música? — Jazz perguntou, já se remexendo na cadeira, animado.
Samuel acenou e olhou para os meninos. Eles ajustaram rapidamente os instrumentos, e a vibe mudou completamente. Mike liderou no teclado, tocando um acorde suave e sensual que imediatamente trouxe uma atmosfera diferente. O ritmo era mais lento, mas não menos envolvente. A voz de Samuel mostrou outro lado, mais suave e emotivo, capturando perfeitamente o que Jazz havia pedido.
— Isso é Soul. — Jazz sussurrou, claramente impressionado.
Eu me permiti respirar um pouco mais aliviada, mas sabia que o momento crucial ainda estava por vir: a autoral.
Quando terminaram, Elliot tomou a palavra.
— Agora, quero ouvir o que vocês têm de mais original. Mostrem-nos algo que seja completamente The Wild Ones.
Samuel trocou um olhar com os outros, e eles assentiram. Ele se aproximou do microfone e disse:
— Essa música se chama Ela Não Vê.
Os primeiros acordes eram suaves, quase tímidos, mas logo ganharam força. A melodia era profundamente introspectiva, com toques de melancolia. A letra, cantada por Samuel com uma sinceridade crua, parecia vir de algum lugar muito pessoal. Eu vi os produtores trocando olhares, claramente impressionados.
No final da performance, o silêncio que se seguiu foi carregado. Era o tipo de silêncio que precede algo grande. Olhei para Samuel e os meninos, que esperavam ansiosamente por uma reação.
Finalmente, Damian sorriu e apertou o botão.
— Bem, senhores... temos muito o que conversar.
A sessão ainda não estava concluída, mas naquele momento, eu sabia que algo havia mudado. E era só o começo.
***
O corredor do Music Building Chicago estava quase vazio, exceto pelo som abafado de passos e vozes vindos do estúdio. Encostei-me na parede, com os braços cruzados, tentando controlar a ansiedade que tomava conta de mim. Sabia que os meninos sairiam a qualquer momento, e o impacto da decisão dos produtores era uma incógnita que me deixava inquieta.
Logo, ouvi o som da porta se abrindo. Samuel foi o primeiro a sair, com os ombros tensos e a expressão fechada. Peter veio logo atrás, cabisbaixo, seguido por John e Mike, que também não pareciam melhores.
— E então? — perguntei, endireitando-me e tentando parecer calma.