LILY’S POV
Acordei com uma sensação de torpor, como se estivesse presa em algum lugar entre um sonho e a realidade. A luz forte do quarto de hospital era ofuscante, e minhas pálpebras pesavam como chumbo. Pisquei algumas vezes, tentando clarear a visão turva. Tudo ao meu redor parecia desfocado, figuras sem forma caminhando pelo quarto, vozes abafadas. Meu corpo parecia distante, como se eu estivesse observando a mim mesma de longe.
Com esforço, comecei a identificar as pessoas ao meu redor. Samantha, a mãe de Samuel, estava de pé ao lado do meu pai, Doug. Eles conversavam com uma mulher de jaleco branco, que eu logo reconheci como médica. Meu coração disparou ao perceber onde eu estava, e uma onda de pânico ameaçou me tomar. O que tinha acontecido? Por que eu estava aqui?
Eu tentei me mexer, mas meu corpo parecia ainda pesado, letárgico. Mesmo assim, o movimento chamou a atenção de Samantha, que se virou na minha direção com uma expressão séria, mas preocupada.
"Lily acordou," ela disse, sua voz firme, mas com um tom de alívio.
A médica, uma mulher de cabelo preso em um coque apertado, se aproximou rapidamente da cama. Ela olhou para mim com profissionalismo e uma pitada de empatia.
"Oi, Lily. Sou a Dra. Susan Pearson, e sou responsável pelo seu caso." Sua voz era suave, mas havia uma urgência na maneira como falava, como se precisasse de respostas rápidas. "Como você está se sentindo?"
Minha garganta estava seca e áspera. Eu tentei falar, mas minha voz saiu como um sussurro rouco.
"O que... o que aconteceu?"
A Dra. Pearson olhou para mim por um momento, avaliando minha expressão, antes de responder.
"Ainda estamos investigando exatamente o que aconteceu, mas pelos sintomas que você apresentou, acreditamos que você fez uso de algum tipo de alucinógeno." Ela fez uma pausa, esperando minha reação. "Por isso, precisamos que você nos diga o que ingeriu ou o que tomou."
Eu senti meu estômago afundar. As lembranças da tarde no parque vieram como flashes, fragmentos desconexos: Aidan rindo, Ashley me observando com um olhar divertido, e depois... o cigarro. Aidan me beijando e passando a fumaça para a minha boca. O pânico que se seguiu, o mundo girando ao meu redor. Tudo se misturava em uma espiral de confusão, e eu m*l conseguia distinguir o que era real.
"Você comeu ou tomou alguma coisa?" Samantha, perguntou diretamente, o tom exigente. "Diga a verdade, Lily."
Eu podia sentir o olhar fixo do meu pai, Doug, queimando sobre mim.
"Você usou drogas?" Ele perguntou, sua voz baixa, mas carregada de decepção.
Minha respiração acelerou. A vergonha e o medo de decepcionar ambos me consumiam. Meus pensamentos estavam em caos, e por um momento, não consegui dizer nada. As memórias de Aidan se intrometendo no meu espaço, forçando-me a inalar aquilo... mas eu sabia que, se contasse a verdade, isso só pioraria as coisas. Eu não podia deixar Aidan e Ashley sofrerem as consequências do que havia acontecido. Eu também não queria lidar com a reação do meu pai.
"Não," murmurei, balançando a cabeça. "Eu não usei drogas."
A Dra. Pearson me olhou, cética, mas esperou por mais explicações.
"Lily," ela disse calmamente, "precisamos saber o que aconteceu para ajudá-la. Tem certeza de que não houve nada que você ingeriu, comeu, ou inalou?"
Minha mente se agarrou a uma mentira, algo que pudesse soar plausível.
"Eu estava na casa da Ashley," disse, minha voz vacilante. "Nós estávamos estudando... e comi alguns bolinhos. Depois disso, comecei a me sentir mal."
Houve um silêncio tenso na sala enquanto todos processavam minhas palavras. Doug me encarava com um olhar severo.
"Você tem certeza disso, Lily?" Ele perguntou, quase desafiando minha história.
"Sim," insisti, evitando seu olhar. "Tenho certeza."
Eu podia sentir o ar se tornando mais pesado. Samantha não parecia convencida.
"Samuel nos contou que você estava com Ashley e Aidan," ela disse, sua voz afiada. "Ele disse que vocês estavam fumando alguma coisa. Por que ele diria isso se não fosse verdade?"
Senti uma punhalada de traição atravessar meu peito. Samuel... ele havia contado para eles? Como ele pôde? Eu sabia que ele estava preocupado, mas ele não deveria ter dito nada. Agora eu estava presa, sendo pressionada pelo meu pai, minha madrasta, pela médica... e tudo por causa de Samuel.
"Isso é mentira!" Eu disse, a raiva crescendo dentro de mim. "Eu nem estive com Aidan. Samuel está inventando coisas!"
"Por que ele faria isso?" Meu pai perguntou, sua voz ficando mais intensa. "Por que Samuel mentiria?"
Eu fechei os olhos por um momento, tentando pensar em algo que fizesse sentido.
"Eu não sei," murmurei. "Talvez... talvez ele só queira me prejudicar. Não sei o que ele quer, mas ele está errado."
Houve outro momento de silêncio desconfortável antes de ouvirmos o som da porta se abrindo. Meus olhos se abriram e, ali, parado na entrada, estava Samuel, segurando dois copos de café nas mãos. Ele parecia exausto, com os ombros caídos, como se carregasse o peso do mundo nas costas.
Samantha se virou para ele, cruzando os braços.
"Samuel," ela disse, o tom acusador evidente, "você está mentindo?"
Ele piscou, confuso.
"Sobre o quê?"
"Lily disse que estava na casa de Ashley, estudando, e que comeu algo que a deixou m*l," Samantha continuou. "Por que você disse que ela estava com Aidan e que fumaram alguma coisa?"
Samuel olhou para mim, seus olhos cheios de incredulidade. Ele parecia estar esperando que eu dissesse algo, qualquer coisa para desfazer a tensão no ar. Mas eu não consegui encará-lo por muito tempo. Eu sabia que ele estava decepcionado, mas eu não podia mudar de ideia agora. Eu estava presa nessa mentira.
"Lily," ele disse calmamente, mas com seriedade, "por que você está dizendo isso?"
Eu continuei a olhar para o chão, sentindo a pressão esmagadora de todos os olhares sobre mim.
"Por que você fez isso?" Perguntei, tentando jogar a culpa nele.
Samuel ficou em silêncio por um momento, olhando para mim com algo que parecia ser uma mistura de tristeza e raiva. Então, com um suspiro profundo, ele falou, sua voz tingida de ironia amarga.
"Talvez porque eu seja um cara b****a que só pensa em mim. Talvez eu quisesse atenção de todo mundo."
Eu levantei o olhar para ele, surpresa com suas palavras. Ele estava... mentindo? Ele estava assumindo a culpa, sabendo que eu estava mentindo?
"Mas, seja lá qual for o motivo," ele continuou, olhando para mim uma última vez, "me desculpem. Isso não vai acontecer de novo."
Com isso, ele se virou e saiu do quarto, deixando-me sozinha com o peso da minha mentira.
A Dra. Susan Pearson olhou para mim com atenção e, após um momento de consideração, disse com calma:
"Lily, acho melhor que você passe a noite em observação. Só para garantir que tudo está bem."
Eu sabia que estava ali por causa das mentiras que havia contado, o que só aumentava meu desconforto. A ideia de passar mais uma noite naquele hospital me fazia querer gritar, mas não tinha forças para protestar. Antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, Samantha se adiantou.
"Eu fico com ela," disse Samantha, a madrasta que eu nunca imaginei pedir para me ajudar em uma situação como essa. Seus olhos estavam determinados, mas havia algo de suave em seu tom.
Meu pai, Doug, que observava a troca de palavras entre nós, franziu a testa. Ele deu um passo em direção a Samantha, o olhar cheio de preocupação.
"Você tem certeza?" Ele perguntou, hesitante. "Você não tem obrigação nenhuma de ficar, Samantha."
Samantha olhou para ele com um pequeno sorriso, mas sua expressão era séria.
"Agora somos uma família, Doug. Não é questão de obrigação."
Doug ainda parecia incerto, mas após um breve silêncio, ele assentiu lentamente.
"Tudo bem, então." Ele se aproximou de Samantha e lhe deu um beijo suave nos lábios antes de se virar para mim.
Ele se inclinou sobre minha cama, sua expressão se suavizando com preocupação paternal.
"Fica bem, tá?" Ele disse, sua voz cheia de carinho. Com um toque gentil, ele beijou minha testa, o gesto caloroso e reconfortante.
Eu observei enquanto ele saía do quarto, deixando-me sozinha com Samantha e o peso do silêncio que pairava entre nós. Tudo aquilo ainda parecia irreal. A ideia de ficar ali, sob os olhares preocupados de Samantha, me deixava desconfortável.
"Samantha," eu disse, minha voz baixa e hesitante. "Você não precisa fazer isso. Eu vou ficar bem."
Ela respirou fundo, claramente tentando manter a calma diante da situação.
"Eu preciso sim, Lily," respondeu ela, com firmeza. "E você deveria ver isso como uma noite das garotas."
Eu não pude deixar de soltar um riso nervoso. Noite das garotas? A ironia daquela frase não escapava a mim, considerando o contexto.
Samantha se ajeitou na cadeira ao lado da minha cama, se acomodando como se já estivesse se preparando para uma longa noite. Apesar de todo o desconforto e tensão entre nós, eu sabia que ela estava ali de coração aberto, tentando fazer o que achava certo.
O quarto de hospital ficou em um silêncio estranho, cortado apenas pelo som baixo dos monitores e do leve zumbido do ar-condicionado. Samantha se ajeitou na cadeira mais uma vez, como se tentasse encontrar a posição certa para passar a noite, enquanto eu olhava para o teto, tentando organizar meus pensamentos.
Ela estava aqui por mim. E, embora eu não quisesse admitir, aquilo me tocou de um jeito que eu não esperava.
“Samantha,” eu disse suavemente, quebrando o silêncio.
“Sim, querida?”
“Obrigada,” eu murmurei, sentindo uma onda de emoção que eu não conseguia controlar. “Por estar aqui.”
Ela sorriu, e seus olhos brilharam com um afeto genuíno.
“Sempre, Lily. Sempre.”
Fechei os olhos, tentando encontrar algum descanso. Enquanto a noite passava, com Samantha ao meu lado, comecei a sentir que talvez, apenas talvez, as coisas ficariam bem.