SAMUEL’S POV
Caminhando apressadamente em direção ao meu carro no estacionamento do hospital, eu m*l podia acreditar no que tinha acabado de acontecer. Lily, a pessoa que eu mais confiava, tinha preferido mentir para todos. Por quê? Para proteger Aidan. Meu peito estava pesado com uma mistura de frustração e decepção, e minha mente não parava de girar em círculos.
O que Aidan tem que eu não tenho? Essa pergunta ecoava insistentemente na minha cabeça. O que o fez ser tão especial a ponto de Lily mentir para protegê-lo, enquanto me deixava exposto, como se minha lealdade e preocupação não significassem nada? Cada vez que eu tentava encontrar uma resposta, só encontrava mais perguntas, todas pontuadas pela amargura que crescia dentro de mim.
Estava tão imerso nesses pensamentos que quase não percebi a voz atrás de mim.
"Samuel, espere!"
Eu parei bruscamente e me virei, sentindo uma onda de irritação percorrer meu corpo. Era Doug Thompson, o pai de Lily e, agora, marido da minha mãe. Claro, como se as coisas já não fossem suficientemente complicadas.
"O que você quer?" perguntei, tentando manter a calma, mas o tom ríspido na minha voz era inconfundível.
Doug caminhou em minha direção com aquele jeito calmo que sempre me irritava. "Eu... estava pensando se poderia me dar uma carona. Samantha vai ficar com Lily esta noite, então..."
Eu o encarei, minha raiva crescendo. Dar uma carona? Para o cara que foi amante da minha mãe durante anos? O mesmo homem que destruiu a nossa família, e agora dormia na casa onde meu pai, antes, dividia o mesmo teto com ela? O mesmo homem que era responsável por boa parte do caos em que minha vida se transformou?
"Você pensou que eu daria carona para o cara que foi amante da minha mãe por anos? Você tem coragem de me pedir isso?" Minha voz saiu com uma força que surpreendeu até a mim.
Doug parou e respirou fundo, parecendo querer absorver o impacto das minhas palavras antes de responder.
"Eu entendo sua raiva, Samuel, e você tem todo o direito de se sentir assim, mas... as coisas não são tão simples quanto parecem. Nem sempre foram."
Minhas mãos se fecharam em punhos, e eu senti o sangue subir à cabeça. "Você acha que eu não entendo? Eu vi vocês dois! Eu era uma criança, mas eu vi com os meus próprios olhos vocês juntos. Na cama que minha mãe compartilhava com meu pai." Eu cuspi as palavras, sentindo a velha dor daquela lembrança borbulhar à superfície. "Como você tem a coragem de aparecer aqui e falar como se fosse normal?"
Doug não desviou o olhar, e, por um momento, algo em sua expressão mudou. Talvez fosse arrependimento, ou até um pouco de vergonha, mas, para mim, aquilo não importava.
"Você tem razão," ele disse, a voz mais baixa. "Eu mereço isso. Mas eu gostaria que você me desse uma chance de explicar. Não para justificar o que fiz, mas para que entenda o que realmente aconteceu."
Aqueles olhos de "homem de bem", de quem quer explicar o inexplicável, só aumentavam minha frustração. A traição não precisava de mais explicações. O que ele queria que eu entendesse? Que ele era um homem bom preso em circunstâncias complicadas? Eu não tinha interesse em ouvir qualquer história que mudasse o fato de que ele destruiu a vida que eu conhecia.
"Não há nada que você possa dizer que vá mudar o que aconteceu," eu disse friamente, me virando novamente em direção ao carro.
"Samuel, espere!"
De costas, balancei a cabeça e continuei caminhando. "Não, Doug. Pega um táxi ou um aplicativo. Eu não vou pra casa essa noite, e, definitivamente, não vou te dar carona." Entrei no carro e bati a porta com força, ligando o motor com um movimento brusco. Não tinha como isso acontecer.
O ronco do motor cortou o silêncio do estacionamento, e eu saí cantando pneus, deixando Doug para trás. Eu precisava sair dali. Eu precisava fugir dessa confusão.
Enquanto dirigia pela estrada, o cenário ao redor passava em borrões, mas a minha cabeça estava tão cheia de pensamentos que eu m*l conseguia me concentrar na direção. Minha mente vagava entre o que acabara de acontecer no hospital e todas as emoções reprimidas que explodiam como um vulcão adormecido.
Como foi que tudo chegou a esse ponto? Minha mãe traindo meu pai com Doug, Lily me traindo para proteger Aidan... Eu tinha me tornado uma espécie de espectador da minha própria vida, observando as pessoas em quem eu confiava quebrando todas as promessas e expectativas.
Lily. Mesmo agora, mesmo depois de tudo, ainda me importava tanto com ela. Talvez fosse isso que me machucava mais do que qualquer coisa. Por que ela mentiu por ele? O que Aidan tinha que eu não tinha? O que o fazia digno da lealdade dela, enquanto eu era descartado?
Parei o carro no acostamento, desliguei o motor e afundei no banco, sentindo a frustração me consumir. Eu estava cansado. Cansado de ser traído, cansado de tentar ser a pessoa que conserta tudo quando, no fundo, eu sabia que não conseguia mais consertar nada.
O silêncio ao redor era pesado. O tipo de silêncio que não traz conforto, mas que te envolve, fazendo você se perder nos próprios pensamentos. Eu queria gritar, bater em algo, fazer qualquer coisa que tirasse essa dor e esse peso do meu peito. Mas, em vez disso, só fiquei ali, respirando fundo, tentando fazer com que aquele aperto dentro de mim se dissipasse.
Era isso que minha vida tinha se tornado?
Olhei para o volante à minha frente, minhas mãos ainda tremendo levemente com a adrenalina da discussão com Doug. A última coisa que eu queria era dar a ele uma chance de falar, de explicar. Ele já tinha causado danos demais, não só a mim, mas à nossa família.
Eu não sabia quanto tempo fiquei ali parado, perdido em meus pensamentos. O fato era que, por mais que eu quisesse respostas, parecia que todas as pessoas ao meu redor só me davam mais perguntas. E agora, mesmo que eu quisesse sair daquele labirinto de mentiras e traições, não havia caminho fácil.
No fundo, eu sabia que teria que enfrentar Doug de novo, e Lily também. Mas, naquele momento, eu só queria distância de tudo.