SAMANTHA’S POV
Paz. Era a palavra que pairava em minha mente, enquanto eu me sentava à mesa, a palavra que definiu os últimos três dias. Tudo parecia finalmente se alinhar.
Com minha xícara de café nas mãos, apreciei o silêncio suave da casa. Era um raro momento de harmonia. Doug entrou na cozinha, sorrindo para mim com aquele olhar tranquilo que sempre me fazia sentir segura. Ele sentou-se à minha frente, e o sorriso dele era a confirmação de que, ao menos entre nós, as coisas estavam perfeitas.
Poucos minutos depois, Lily surgiu. Ela parecia radiante, com os cabelos soltos e o seu uniforme da escola. Sentou-se à mesa enquanto colocava algumas panquecas no prato, o sorriso dela aquecendo o ambiente.
— Dormiu bem, Lily? — perguntei, observando-a com carinho.
— Sim. — Ela sorriu enquanto colocava mel na panqueca.
O relacionamento entre mim e Lily vinha se fortalecendo, e eu não podia estar mais feliz. Ela confiava em mim, compartilhava os detalhes da sua vida. Nos últimos dias, não parava de falar sobre Aidan. Pelo visto, eles estavam oficialmente namorando, considerando que ele fazia questão de trazê-la em casa depois da escola. Eles eram fofos juntos, e Lily parecia feliz — isso era o que mais importava.
O som de passos lentos ecoou pela cozinha, e lá estava Samuel. Ele acenou para mim de forma discreta e se sentou à mesa. Eu sorri para ele, e ele retribuiu com um olhar breve, mas sem hostilidade.
Nos últimos três dias, Samuel também estava diferente. Sem brigas, sem provocações, sem acusações. Ele era educado com Doug, mantinha a distância de Lily sem confusão, e até comigo, estava... calmo. Era um alívio.
Por mais que ele e Lily evitassem até mesmo se olhar diretamente, eu tinha esperança de que, com o tempo, esse relacionamento entre irmãos pudesse melhorar. Uma família feliz. Era tudo o que eu queria.
Enquanto dava um gole no meu café, algo me ocorreu, e falei de maneira casual:
— Lily, você se importa se o Samuel for conosco no carro hoje?
O garfo de Lily parou no ar, e Samuel ergueu os olhos da xícara que estava segurando. Ambos pareciam surpresos com a sugestão.
— Não precisa, mãe — disse Samuel, desviando o olhar para o prato. — Combinei com o John e os caras de irmos no meu carro. Vocês podem levar a Lily e nos encontrar lá na produtora.
— De jeito nenhum — retruquei, mantendo meu tom firme, mas gentil. — Hoje faço questão de levar você.
Samuel bufou levemente, como se já soubesse que eu não desistiria fácil.
— Não vai caber todo mundo no carro. São quatro caras: eu, John, Peter e Mike.
Antes que eu pudesse responder, Lily pegou o celular e, com o tom leve, disse:
— Não tem problema. Posso pedir para o Aidan me buscar. É caminho para ele.
Fechei os olhos por um breve momento, contendo minha frustração.
— Nada disso. Faço questão de levar meus filhos hoje.
Samuel parou de mastigar, largou o garfo e me encarou diretamente.
— Lily não é sua filha.
As palavras dele cortaram o ar como uma faca, e até Lily pareceu se encolher um pouco.
Respirei fundo, mantendo minha compostura.
— Você sabe o que eu quis dizer, Samuel. É uma questão de honra para mim. Por favor, aceitem.
Antes que o silêncio desconfortável se prolongasse, Doug interveio.
— Posso buscar os amigos do Samuel. Hoje está tranquilo no escritório.
Lancei a Doug um olhar agradecido, sentindo o calor familiar da parceria dele.
— Obrigada, querido. Você é um amor.
Voltei minha atenção para Lily e Samuel, que ainda se entreolhavam, relutantes. Eles sempre tinham essa dinâmica, como se cada decisão fosse uma batalha.
— E então? — perguntei, minha voz suave, mas insistente.
Samuel soltou um suspiro baixo e desviou o olhar. Lily, após alguns segundos, assentiu com a cabeça, e Samuel, sem muita escolha, fez o mesmo.
Senti um alívio profundo enquanto a paz voltava a reinar na cozinha.
— Ótimo. — Sorri para ambos, satisfeita.
Voltei minha atenção ao café, dando outro gole, e senti uma satisfação calma. A paz reinava novamente, pelo menos por enquanto.
***
O sol da manhã lançava uma luz dourada pela cozinha enquanto recolhíamos a louça e nos preparávamos para sair. Tudo estava em ordem, como deveria ser. Doug estava encostado na porta, e Samuel se aproximou dele para entregar um pedaço de papel com o endereço de John. A interação foi breve, um aceno de cabeça e um murmúrio de agradecimento de Doug.
Observei a cena com cuidado, uma pequena satisfação aquecendo meu peito. Eles estavam fazendo um esforço, ainda que mínimo. Não era a relação ideal entre padrasto e enteado, mas era um começo.
— Vamos? — perguntei, pegando as chaves do carro.
Lily me seguiu até a garagem, a expressão dela tranquila enquanto ajeitava a mochila no ombro. Ela entrou no banco do passageiro, e eu me sentei ao volante. Olhei pelo retrovisor, esperando Samuel, que vinha caminhando em nossa direção. Ele abriu a porta de trás, entrou e bateu-a com força, um gesto típico dele.
— E lá vamos nós — disse, tentando aliviar o clima, lançando um sorriso breve para os dois. — Primeira parada: a escola da Lily. Depois, o futuro do Samuel.
Coloquei o carro em movimento, sentindo o motor ronronar suavemente enquanto saíamos da garagem. O silêncio caiu sobre nós quase imediatamente, como um peso invisível.
Enquanto dirigia pelas ruas tranquilas do bairro, meus olhos alternavam entre a estrada e os reflexos no retrovisor. Lily estava virada para a janela, observando as casas passarem, perdida em seus pensamentos. Samuel, no banco de trás, olhava fixamente para o celular, com os fones de ouvido escondidos sob o capuz.
— Parece que estão com sono hoje. — Tentei romper a barreira, mas nenhum dos dois respondeu.
O silêncio continuou, pesado e denso, preenchendo o espaço entre nós. Por mais que eu quisesse forçar uma conversa, sabia que seria inútil. Lily e Samuel haviam aperfeiçoado a arte de se ignorar.
— Nervoso, Samuel? — perguntei, olhando para ele pelo retrovisor.
Ele tirou um dos fones de ouvido, mas ainda parecia distante.
— Não.
— É um grande dia — continuei, tentando trazer algum tipo de conversa para o carro. — Sua banda vai se sair bem.
— É o que espero. — Sua resposta foi curta, e ele voltou a colocar o fone, encerrando a interação.
Lily olhou de relance para ele, mas logo desviou os olhos, como se não quisesse arriscar um confronto. Ela começou a mexer no celular, os dedos deslizando rapidamente pela tela, e eu me perguntei se estava falando com Aidan, seu novo namorado.
"Casal fofo", pensei, embora houvesse algo na expressão de Lily que me deixava inquieta. Era um olhar perdido, como se ela estivesse tentando se distrair de algo maior.
O silêncio no carro se tornou quase ensurdecedor.
— E você, Lily? Como estão as coisas com Aidan? — perguntei, desviando os olhos para ela rapidamente.
Ela ergueu os olhos do celular e deu de ombros, sorrindo timidamente.
— Estão bem. Ele é... legal.
Samuel bufou baixo, tão sutil que quase passou despercebido, mas eu notei. Pelo retrovisor, vi a tensão em sua mandíbula enquanto olhava fixamente para a janela.
— Ele é um bom garoto — acrescentei, tentando amenizar qualquer potencial atrito.
— Sim, ele é — Lily respondeu, mas sua voz soava quase automática, como se estivesse respondendo por obrigação.