LILY’S POV
A luz pálida do amanhecer invadia o quarto do hospital, filtrada pelas cortinas desgastadas, criando um ambiente meio fantasmagórico, meio reconfortante. Meus olhos piscavam pesadamente enquanto eu me ajustava ao espaço ao redor, minha mente ainda lenta, como se estivesse presa em algum tipo de nevoeiro. A sensação de boca seca e fome se intensificava à medida que eu despertava completamente. O peso do que tinha acontecido na noite anterior começou a me atingir aos poucos, trazendo uma mistura de culpa e vergonha. Eu odiava essa sensação de não ter controle, de ter perdido o controle.
Ao meu lado, Samantha, minha madrasta, estava cochilando em uma cadeira desconfortável. Parecia exausta, como se tivesse ficado acordada a noite toda, velando por mim. A imagem me trouxe um aperto no peito. Mesmo com todos os altos e baixos entre nós, ela estava ali. Sempre estava. Me mexi na cama, o som do lençol sendo arrastado acordou Samantha, que abriu os olhos devagar, ainda confusa. Antes que pudesse dizer qualquer coisa, a porta do quarto se abriu, revelando Susan Pearson, a médica que me atendeu.
"Bom dia, Lily" disse Susan, com um leve sorriso no rosto enquanto entrava no quarto. "Fico feliz de ver que você está acordada. Como está se sentindo?"
Levei um segundo para organizar meus pensamentos e responder.
"Um pouco lenta... com a boca seca... e, bem, com muita fome."
Samantha deu uma risadinha ao meu lado, ajeitando-se na cadeira.
"Esses sintomas, conheço muito bem."
Eu olhei para ela, curiosa, e, antes que eu pudesse perguntar, Susan riu também, como se compartilhassem uma piada interna.
"Eu também" disse a médica, olhando para Samantha com cumplicidade.
Confusa, virei minha cabeça de um lado para o outro, encarando as duas.
"O que isso significa?"
Samantha cruzou os braços e sorriu de lado, claramente se divertindo com a minha falta de entendimento.
"Larica. Acontece depois de usar um baseado... ou comer um bolo especial."
Senti meu rosto queimar de vergonha. As peças começaram a se encaixar, e eu percebi que, de alguma forma, elas sabiam o que eu havia feito. Susan parecia tentar aliviar o constrangimento, mas ainda mantinha um tom profissional.
"Fora isso, está sentindo mais alguma coisa, Lily?" perguntou ela, agora séria.
"Não, só isso mesmo..." murmurei, desviando o olhar, desejando que o chão se abrisse e me engolisse ali mesmo.
Susan assentiu, satisfeita com a resposta.
"Ótimo. Então vou te liberar para ir para casa. Mas, por favor, se hidrate bastante e evite usar drogas, tudo bem?"
Balancei a cabeça rapidamente, ainda sem conseguir encará-la. Ela deu um sorriso curto e se retirou, deixando-me sozinha com Samantha.
O silêncio que se seguiu foi pesado, quase palpável. Eu sabia que tinha sido pega. Samantha se levantou da cadeira com um suspiro longo e começou a ajeitar as coisas ao nosso redor, preparando-se para irmos embora. Eu me senti ainda menor diante dela. Mesmo sem palavras, a decepção no ar era clara. Não consegui aguentar muito tempo antes de falar.
"Samantha... Eu posso explicar..." comecei, minha voz fraca e vacilante. As palavras saíam apressadas, mas vazias.
Ela me encarou, os olhos azuis frios, mas não de raiva, mais de compreensão.
"Lily, você mentiu. Não me surpreende... sei o motivo. Doug ficaria muito decepcionado em saber que a garotinha dele fumou um baseado, não é?"
Eu engoli em seco, sem saber como responder. Ela tinha razão. Eu sabia disso. Doug, meu pai, sempre me via como uma pessoa que eu sabia que não era mais. Ele ainda pensava que eu era perfeita, imaculada. A pressão para manter essa imagem me sufocava. E agora Samantha sabia da verdade. Tudo parecia ruir.
"Eu não sabia que era um baseado, eu..." tentei justificar, mas Samantha ergueu a mão, cortando-me.
"Lily, você não precisa se justificar comigo" disse ela, sua voz firme, mas suave. "Eu também já fui jovem e fiz coisas muito piores do que isso. E, claro, seu segredo está seguro comigo. Doug não precisa saber de nada."
Soltei um suspiro aliviado, mas ainda me sentia estranha. Não estava acostumada a esse tipo de compreensão maternal em minha vida. Ela é uma figura que entrou agora nela, e já estava sendo agindo assim, como se fosse a minha mãe.
"Obrigada, Samantha" sussurrei, realmente grata.
Ela, no entanto, me encarou com uma expressão séria.
"Não me agradeça, pelo menos não ainda. Tem algo que você precisa fazer."
Meu estômago revirou ao ouvir aquelas palavras.
"O quê?"
"Você precisa pedir desculpas ao Samuel." A seriedade em sua voz era inconfundível. "Samuel tem muitos defeitos, eu sei disso melhor que ninguém. Mas uma coisa que ele não é, é mentiroso. E ele se colocou nessa situação por sua causa, corroborando com a sua mentira, ficando como culpado, seja lá por qual motivo você deu a ele. Então, o mínimo que você pode fazer é pedir desculpas a ele quando chegarmos em casa."
Fiquei paralisada por um momento. Não era como se eu não soubesse que deveria me desculpar. Samuel estava lá por mim, se meteu nessa confusão por minha causa, e tudo o que fiz foi usar isso a meu favor. Um nó se formou na minha garganta. Eu sabia que tinha que consertar as coisas com ele, mas ouvir Samantha falar isso em voz alta só aumentou a pressão sobre mim.
"Tudo bem... Eu estava pensando em fazer isso mesmo" murmurei, quase para mim mesma.
Samantha finalmente sorriu, um sorriso pequeno, mas genuíno.
"Boa garota. Agora se arrume, porque ainda temos que passar em um lugar antes de ir para casa."
Olhei para ela, surpresa.
"Onde?"
"Em uma lanchonete. Vamos m***r essa fome sua" disse Samantha, piscando para mim, enquanto começava a arrumar nossas coisas para que saíssemos dali.
Apesar de tudo, eu senti um pequeno alívio ao ouvir isso. Samantha tinha razão, minha fome estava me consumindo. Levantei-me devagar da cama, sentindo meu corpo um pouco fraco, mas determinado. A dor da noite passada, a vergonha, a culpa... tudo isso ainda estava comigo, mas agora havia algo mais. Uma necessidade de corrigir as coisas. De, pelo menos, tentar. Samuel merecia uma explicação. Mais que isso, ele merecia um pedido de desculpas sincero.
Enquanto Samantha e eu saíamos do hospital, o ar fresco da manhã me atingiu em cheio, clareando um pouco mais meus pensamentos. A cidade estava começando a despertar ao nosso redor, pessoas indo e vindo, alheias ao turbilhão que era a minha vida.
Respirei fundo. Hoje seria o começo de algo novo. Ou, pelo menos, eu esperava que fosse.