O som do papel sendo deslizado sobre a mesa ecoou como um chicote no silêncio da sala. Alana recuou um passo, mas a mão pesada do padrasto a empurrou de volta, obrigando-a a encarar o olhar frio e calculista de Seu Augusto Oliveira.
— Assina, menina — rosnou o homem atrás dela. — Não me faça passar vergonha.
Ela tremeu. Por dentro e por fora.
O cheiro do fumo impregnado nas roupas do fazendeiro, misturado com o ranço do suor seco, quase a fez vomitar. Seu Augusto a olhava como se estivesse avaliando uma cabeça de gado, e não uma menina de apenas dezoito anos, ainda marcada pela morte recente da mãe.
— É só um contrato de trabalho — mentiu o fazendeiro, com um meio sorriso que gelava o sangue. — Você vai ajudar na casa, aprender a se comportar... E, quem sabe, um dia, ganhar seu lugar.
O padrasto riu, debochado. Ele já tinha sido pago. Já tinha se livrado dela.
Alana engoliu o nó na garganta e olhou para a folha em branco. Não entendia as cláusulas — não lhe deram tempo, nem chance. Mas no rodapé, em letras pequenas e cruéis, lia-se:
"Ao assinar, comprometo-me ao silêncio absoluto sobre tudo o que vivenciar nesta fazenda, sob pena de punição judicial e pessoal."
Ela sentiu os olhos queimarem. Aquilo não era um emprego. Era uma sentença.
— E se eu não quiser? — a voz saiu fina, quebrada.
O padrasto foi rápido. Agarrou seu braço com força e a sacudiu.
— Então vai voltar pra rua, Alana! Vai mendigar com as putas da cidade.
Ela fechou os olhos com força, como se pudesse apagar a realidade.
E ali, no breu forçado de suas pálpebras, o passado voltou como um vendaval.
Viu o caixão simples descendo à terra fria, a madeira rangendo como se também chorasse. As flores murchas, colhidas de um jardim abandonado, não conseguiam disfarçar a dor crua no peito. Sua mãe — sua única luz, sua única proteção — jazia imóvel, envolta em silêncio eterno.
Na lembrança, o cheiro de terra molhada se misturava ao sal de suas lágrimas.
Um soluço ameaçou romper sua garganta, mas ela o engoliu como engolira tantos outros.
Em seguida, a fome.
O estômago revirando de vazio, os dias passando em preto e branco. Um pão duro roubado de uma cesta no mercado. O olhar de julgamento das pessoas. A humilhação de se tornar invisível ou, pior ainda, indesejada.
E então... o medo.
Não o medo simples, de quem teme escuro ou barulhos noturnos. Mas um medo mais denso.
O medo que mora na alma.
Aquele que sussurra que você está sozinha no mundo.
Aquele que te convence de que ninguém virá te salvar.
O medo que sufoca — como uma mão invisível apertando seu pescoço. Sem dedos, sem pele... apenas pressão.
Alana sentiu a garganta fechar.
Sentiu os olhos arderem.
Sentiu o peso de não ter escolha.
E quando abriu os olhos, viu a realidade encarando de volta: o contrato, a caneta, os olhos lascivos de um velho c***l.
Ela assinou.
Não por covardia.
Mas porque, às vezes, sobreviver também é um ato de coragem.
Mas ela assinou.
Com isso, perdeu o direito à voz. À liberdade. Ao próprio nome.
Seu Augusto sorriu. Um sorriso que não tinha nada de humano.
— Bem-vinda à Fazenda das Oliveiras. A partir de agora, você pertence a mim.
E, com aquelas palavras, a porta se fechou atrás dela.
O mundo que conhecia desapareceu.
E um novo começou — feito de ordens sussurradas, olhares invasivos, e um silêncio que pesava mais do que qualquer corrente.
Mas o que Alana não sabia... era que naquela fazenda, entre o medo e a submissão, ela também despertaria desejos proibidos.
E o mais perigoso deles viria de alguém que não podia — nem queria — tocá-la.
O carro balançava pela estrada de terra, levantando poeira como se quisesse apagar os rastros de sua liberdade. Alana estava no banco de trás, as mãos trêmulas no colo, apertando a barra do vestido surrado. Henrique, o capataz da fazenda dos Oliveiras, dirigia com um cigarro nos lábios e um olhar de desprezo no retrovisor.
— Tenta não fazer merda, mocinha. Seu Augusto não tem paciência com insolente — ele rosnou, cuspindo a ponta do cigarro pela janela. — Aqui, mulher nova é pra trabalhar… e calar a boca.
Alana não respondeu. Seu olhar estava perdido no horizonte, onde as cercas pareciam jaulas de madeira delimitando o mundo. Um mundo do qual ela já era prisioneira.
Ao chegarem à fazenda, a imponência da casa grande a fez engolir seco. Era linda por fora, mas havia uma frieza no ar. O silêncio era diferente, pesado, como se as paredes guardassem gritos não ditos.
Henrique a puxou pelo braço sem delicadeza.
— Anda logo. Seu Augusto quer te ver.
Alana caminhou com passos vacilantes, cada batida do coração ecoando no peito como um tambor de guerra. Ao entrar no escritório, o cheiro de charuto e couro velho a sufocou. Seu Augusto estava sentado atrás da mesa de mogno, com um copo de uísque na mão e um sorriso que mais parecia um corte no rosto.
— Então… você é a filha da v***a que morreu — disse ele, sem rodeios, encarando-a com olhos escuros, frios, impenetráveis.
Alana engoliu em seco. Não respondeu. Sabia que qualquer palavra poderia ser usada contra ela.
— Seu padrasto me devia mais do que podia pagar. E como o que ele tinha de valor era você... agora é minha. Simples.
Ele estendeu o papel.
— Um contrato de silêncio. Você trabalha aqui, obedece, cala a boca, e em troca, eu não coloco aquele inútil do seu padrasto debaixo da terra. Assina.
Ela olhou para o papel, depois para a caneta. Suas mãos tremiam. Seu coração gritava. Mas não havia escapatória. E ali, na tinta preta e fria, ela vendeu mais que sua liberdade.
Vendeu o que restava da própria inocência.
Quando terminou de assinar, o velho se levantou, contornou a mesa e parou atrás dela.
— Agora você é minha funcionária. E tudo seu me pertence. Inclusive o silêncio.
Ele cheirou seu cabelo. Alana se encolheu.
— Henrique vai te levar até o alojamento das empregadas. Amanhã você começa cedo. Rosália vai te mostrar tudo.
Ela saiu do escritório com o peito apertado, a alma ferida, e o olhar opaco. Mas dentro dela, uma pequena chama ainda resistia. Não era esperança. Era outra coisa…
Uma força primitiva. Sobrevivência.
E logo, ela conheceria Dante.
Mas isso… ainda era cedo demais.