O corredor até os fundos da fazenda parecia mais escuro do que o céu noturno. Alana caminhava em silêncio, guiada por Henrique, que não disfarçava o olhar sujo sobre suas costas. A cada passo, a dor em seu peito apertava. O contrato ainda queimava em suas mãos, como se as palavras impressas tivessem se tatuado na pele.
No alojamento, o cheiro era de sabão barato e mofo. As camas de ferro rangeram quando Rosália, a cozinheira velha e calada, se levantou.
— Mais uma? — ela murmurou, olhando Alana dos pés à cabeça.
Henrique deu uma risada seca.
— Essa aqui é especial. Presente do patrão.
Rosália bufou, cruzando os braços. Assim que Henrique saiu, trancando a porta por fora, ela caminhou até Alana e tirou o papel de suas mãos com delicadeza.
— Você assinou?
Alana assentiu, com os olhos marejados.
— Então escuta, menina. Aqui, você vive com o corpo... mas sobrevive com a mente. Se entregar tudo, você morre por dentro. Entendeu?
A jovem respirou fundo. Sentiu-se fraca, mas havia algo naquele olhar de Rosália que parecia prometer um abrigo temporário. Um fio de humanidade no meio da escuridão.
Na manhã seguinte, antes do sol nascer, Alana já estava de pé, com a roupa larga e desbotada das empregadas. Suas mãos tremiam ao carregar os baldes de água, esfregar o chão da varanda da casa grande e suportar os olhares maldosos de Marta, a outra empregada que fazia questão de mostrar quem mandava ali.
— Princesinha de cidade, acha que vai se dar bem com esse rostinho? Aqui, ou aprende a se curvar, ou será esmagada.
Alana não respondeu. Suas costas doíam, o estômago vazio roncava, mas ela se recusava a chorar. Ainda não. Choraria depois. Sozinha. No escuro.
À tarde, foi chamada até o estábulo. O capataz a esperava com um balde de feno e ordens claras.
— Limpa as baias. Uma por uma. Não quero ouvir reclamação.
As mãos de Alana, acostumadas apenas a livros e louça, ficaram em carne viva. Mas ela não parou. A cada pá de estrume, sentia a dignidade escorrer. A cada xingamento, era como se o mundo dissesse: “você não é nada”.
E no meio do estábulo… alguém a observava.
Dante.
De longe, encostado na sombra, os olhos negros cravados nela. Não disse uma palavra. Não se aproximou. Mas a forma como a encarava fez a espinha de Alana gelar. Havia algo de perigoso nele. Algo que a atraía e a assustava em igual medida.
Ele era a tempestade que ainda viria.
Mas naquele momento… ela só queria sobreviver até o fim do dia.
O cheiro de suor, palha molhada e dor pairava no ar. Alana tentou ignorar as fisgadas nos dedos, as bolhas se formando sob a pele frágil. Cada movimento da pá parecia roubar mais um pouco de si mesma. Mas ela continuava. Por medo. Por orgulho. Por sobrevivência.
Quando acabou a última baia, caiu de joelhos. O suor escorria pela testa, o cabelo grudado na nuca. As mãos ensanguentadas tremiam, e por um momento, ela fechou os olhos.
Foi então que o silêncio do estábulo foi cortado.
— Você não foi feita pra isso — disse uma voz rouca, baixa, vinda da sombra entre as colunas de madeira.
Ela se virou devagar. Dante estava ali. Alto. Ombros largos, camisa aberta no peito suado. O olhar fixo nela, como se a despisse com os olhos. Não era um olhar vulgar. Era um olhar que fedia a poder. Domínio.
— Mas vai aprender — completou, com um meio sorriso.
Ela quis falar. Quis perguntar o que ele queria. Mas o medo travou sua garganta. Ela apenas baixou os olhos.
Ele se aproximou com passos lentos. Pegou a pá caída ao lado dela, a ergueu e a fincou no chão, como quem fincava uma bandeira.
— Aqui, ninguém te vê como gente. Só como posse. E posses… precisam saber seu lugar.
A respiração dela falhou. O sangue martelava em seus ouvidos. Mas, ainda assim, levantou o rosto. Seus olhos encontraram os dele. E por um segundo, um lampejo. Um desafio silencioso. Uma fagulha que ele não esperava.
— Então olhe bem pra mim — ela murmurou, rouca. — Porque eu vou ser a exceção.
Dante estreitou os olhos. A mandíbula travou. E então… ele sorriu. Um sorriso perigoso. Arrebatador.
— Quero ver até onde você aguenta, mocinha.
Ele saiu sem dizer mais nada. Mas Alana sentiu como se tivesse sido marcada. Ele deixara uma promessa não dita no ar.
Rosália apareceu minutos depois, ajudando-a a se levantar.
— Você mexeu com o d***o — sussurrou a velha, com medo. — E quando ele se interessa… ninguém sai ilesa.
Alana olhou para o estábulo vazio, o coração acelerado, os joelhos fracos.
Ela ainda não sabia, mas aquele seria o primeiro dia de uma guerra silenciosa.
Entre quem ela era…
E quem ele faria dela se não lutasse.
Rosália a levou para dentro, silenciosa. As mãos da velha tremiam levemente enquanto cuidava das feridas nos dedos de Alana. A água ardeu, mas ela não reclamou. Estava aprendendo que a dor era o idioma daquela fazenda.
— Você devia ter abaixado a cabeça — Rosália sussurrou, enquanto passava um pano morno no rosto da jovem. — Ele não gosta de ser desafiado.
Alana ergueu os olhos, ainda marejados.
— E eu não gosto de ser tratada como um animal.
Rosália fez silêncio por um instante.
— Aqui... gostar não tem valor, menina.
O quarto onde Alana dormia era um cubículo. Um catre de madeira dura, um cobertor ralo, e uma janela que dava para os fundos do estábulo. Mas naquela noite, mesmo exausta, ela m*l pregou os olhos. O som dos passos do capataz Henrique rondando a casa, os estalos da madeira, e o farfalhar da palha do lado de fora a mantinham alerta. Tudo ali parecia ter olhos.
Na manhã seguinte, a tensão só cresceu. A notícia corria entre os empregados: Seu Augusto estava furioso. Mas não com Dante. Com ela.
Na hora do café, foi chamada à sala principal da casa. Entrou com o coração martelando no peito. Seu Augusto estava de pé, diante da lareira apagada. Os olhos gelados como aço.
— Ouvi dizer que está respondendo — ele disse, sem virar-se. — Acha que tem esse direito?
Alana permaneceu calada.
— Fui generoso. Dei-lhe abrigo, comida, um lugar... — Ele se virou, o rosto transfigurado pela raiva contida. — E você me paga com arrogância?
Ela tentou manter-se firme. Mas quando ele deu um passo à frente, ela recuou.
— Você não é nada aqui, entendeu? — ele rosnou. — Nada! E se continuar bancando a princesa rebelde, posso muito bem mandá-la pro lugar de onde veio. Ou pior...
A ameaça ficou no ar como veneno.
Antes que ela pudesse sair, a porta se abriu.
Dante entrou.
Os olhos dele passaram do pai para Alana, e então voltaram ao pai com uma frieza cortante.
— Já terminou com a peça de teatro? — ele disse, sem emoção.
— É você quem está dando ousadia demais a essa menina! — Seu Augusto explodiu. — Ela precisa saber o lugar dela!
Dante cruzou os braços. O maxilar travado. Os olhos, indecifráveis.
— Talvez seja você quem precise lembrar o seu.
Por um segundo, o silêncio foi absoluto.
Então, Dante se aproximou de Alana, e sem tocar nela, apenas a olhou.
— Venha. — Sua voz foi baixa, firme. — Agora.
Ela hesitou.
Mas foi.
E ao sair daquela sala ao lado dele, mesmo sem saber para onde estavam indo, ela sentia que estava entrando em algo muito maior. Algo que poderia salvá-la… ou destruí-la por completo.
E talvez… as duas coisas ao mesmo tempo.