Em um bar qualquer em um lugar qualquer do mundo humano, dois homens extremamente bonitos bebiam e conversavam, ambos com a feição séria e sombria.
- Ele realmente teve um filho – Falou o homem de cabelos prateados e olhos dourados.
- Eu nem sabia que ele estava namorando – O homem de cabelos azuis apontou outra questão – Zeus, quem você acha que seria louca o suficiente para dar um filho ao nosso irmão?
- Eu não faço a mínima ideia – Respondeu Zeus encarando o irmão – Mas ele nem avisou! Caramba! É o primeiro filho dele e Hades nem nos chamou para o nascimento.
- Verdade! Somos irmãos! – Falou o homem de cabelo azul batendo com força na mesa – Eu apresentei a ele todas as minhas esposas e namoradas e o chamei para o nascimento de cada filho. Como ele pode fazer isso?
Traduzindo a conversa: Os homens bebendo e reclamando no bar são Zeus e Poseidon, em resumo eles estão indignados por acharem que Hades escondeu deles um relacionamento que deu como fruto uma criança que apenas chegou ao conhecimento deles depois do nascimento.
- Isso não pode ficar assim! – Gritou Zeus – Poseidon vamos ao submundo, Hades nos deve explicações.
E assim a dupla divina seguiu na velocidade da luz até o reino dos mortos, causando uma grande algazarra nos portões do inferno. E como Hades estava adormecido nos Elíseos, sobrou para os deuses gêmeos remediarem a situação catastrófica.
No entanto por mais que Hypnos e Thanatos tentassem parar o deus do raio e o deus dos mares, não é como se pudessem fazer algo realmente contra eles. No final de tudo a dupla problemática conseguiu chegar à mansão de Hades nos Elíseos.
A bagunça foi tão grande que acabou por acordar a pequena coisinha que dormia tranquilamente ao lado de Hades. O som de choro cruzou todo o paraíso e despertou aos sustos o senhor dos mortos que se levantou para ver a criança se berrando a plenos pulmões ao seu lado já com dificuldade de respirar.
Franzindo levemente o cenho e pegando a criança no colo para acalmar o senhor dos mortos emanou o seu cosmo em busca da perturbação que atrapalhou o tranquilo sono de filho, identificando imediatamente sua dupla de irmãos mais novos sendo interceptados por Calisto na porta.
Hades respirou fundo três vezes e continuou a acalmar o bebê. Por mais furioso que estivesse com seus irmãos por terem invadido o seu reino, sua prioridade era o garoto em seus braços.
Assim que a criança se acalmou o deus o entregou para uma ninfa que já estava lá de plantão dando ordens de banhar a criança com as águas do Letes e alimentá-la com ambrosia despois seguiu para ver os irmãos.
Chegando à entrada de sua mansão ele viu Zeus e Poseidon tentando argumentar com Calisto que negava fortemente a entrada dos dois no local.
- Calisto – Hades chamou com uma voz fria e levemente elevada, contendo indícios de sua irritação. – Vá até as ninfas e assuma os cuidados com a criança eu já dei as ordens.
Assim que a ninfa foi embora Hades direcionou sua atenção aos irmãos, observando atentamente ambos com os olhos afiados como navalhas de gelos. Zeus e Poseidon tiveram certeza de que se pudesse o mais velho prenderia os dois nas mais profundas masmorras do tártaro.
- O que os dois fazem aqui? – Questionou.
- Viemos ver o nosso sobrinho – Respondeu Zeus tirando coragem de seu interior para responder o irmão claramente zangado.
- Vão embora! – Com isso Hades se virou pronto para retornar ao interior da mansão e acompanhar o trabalho das ninfas com o filho.
- Espera! – Poseidon chamou – Não acha que nos deve uma explicação?
- Sobre? – Questionou o senhor dos mortos sem direcionar um segundo olhar ao irmão.
- Essa criança! – Devolveu Poseidon exasperado – Quando infernos você teve um filho? E com quem? Mais importante, por que não nos avisou?
- Desde quando o que eu faço ou deixo de fazer na minha vida é da conta de vocês dois? – Respondeu suspirando já cansado da conversa – Aqueles que precisavam de explicação já a tiveram e quanto ao resto, somente necessitam saber que eu tenho um filho tudo mais é trivial.
Com essa resposta o senhor dos mortos expulsou os irmãos das suas terras e retornou tranquilamente aos seus aposentos aonde um adorável e cheiroso bebê lhe esperava. Encarando a criança que brincava felizmente entre seus lençóis o deus acabou por se lembrar de uma vez que fora ao mundo humano e acabara por participar de uma feira de culinária. Naquela vez ele havia experimentado um pequeno bolinho chinês feito de arroz pegajoso, observando a criança, ele parecia uma versão maior com braços e pernas daquele bolinho.
- Pequeno bolinho? – Hades testou atraindo a atenção da criança – O que acha do apelido?
Sorrindo a criança bateu palmas, Hades entendeu isso como uma aceitação tácita. A partir de então em sua mente o garoto passou a se chamar bolinho. Esse seria o apelido secreto do bebê em seu coração.
O deus passou um tempo brincando com a criança até que os juízes o chamaram para participar dos julgamentos. Sem ter para onde correr, Hades seguiu para cumprir seus deveres como deus, mas não sem antes mudar de roupa. Afinal ele não pode julgar os mortos vestido como jardineiro.
Já no tribunal era possível ver uma enorme e colossal fila de almas esperando seus destinos, os três juízes trabalhavam rapidamente e de forma organizada como se estivessem tocando com uma orquestra e assim que viram seu maestro chegar passaram a trabalhar mais rapidamente.
Em suas vestes negras Hades flutuou até o ponto mais alto do tribunal e lá descansou, observando enquanto seus juízes trabalhavam. Lendo atentamente cada arquivo de alma e os relatórios das prisões. Vez ou outra ele intervia no julgamento dos juízes dando sentenças mais leves ou pesadas para as almas que ele achava que mereciam.
Como o perfeito workaholic que era Hades se afundou no trabalho, esquecendo de qualquer outro assunto e até mesmo do tempo. Não foi até Pandora aparecer no tribunal com um bebê no colo que o senhor dos mortos desviou a atenção do trabalho que estava realizando.
Como pai de primeira viagem que era o senhor dos mortos se sentiu extremamente culpado por ter esquecido do filho, largando imediatamente todo o trabalho que tinha em mãos e transferindo tudo para os deuses gêmeos.
Tomando o filho de Pandora, resolveu por dar uma volta no mundo humano, uma pequena vila alemã que havia do lado do castelo Heinstein. Por causa da barreira ao redor do castelo os moradores se mantinham afastados e não eram atingidos pelo miasma dos mortos que ficava preso na floresta que rondava a construção.
Os moradores da pequena vila quase nada sabiam acerca do castelo, além de que lá morava uma jovem com o seu irmão e alguns criados, mas ninguém nunca os tinha vistos. Parando para pensar bem, não deve ser muito agradável ser vizinho de Hades apesar dele se considerar o melhor de todos.
Em vista de todas essas informações, é possível para o meu caro leitor compreender o motivo da surpresa e cautela dos humildes moradores da vila ao se depararem com um homem alto e bonito, mas que não sorria e ainda andava vestido todo de preto da cabeça aos pés, parecendo carregar consigo as sombras de todas as catástrofes da humanidade, carregando um pequeno pacote de bolinho que parecia um anjo enviado por deus para aliviar os humanos de seus pecados e tormentos.
Era uma imagem muito gritante e que definitivamente chamava mais atenção do que deveria.