Eu estava exausto e faminto. Mesmo acostumado a ficar dentro de um navio por vários meses, as viagens transatlânticas eram sempre muito cansativas. Meu navio atracara no porto na data prevista, as condições estavam boas no mar naquele verão. Talvez tivesse economizado uma semana ou duas se a parada nas américas não tivesse demorado tanto. Mas eu estava de volta em casa, finalmente, depois de nove anos na Europa. Por mais que gostasse do velho mundo e de toda a sua industrialização avançada, e principalmente estar em comando do meu próprio navio, tinha que admitir que o meu lugar favorito no mundo era o Brasil. O clima quente e tropical, a comida típica e as pessoas receptivas eram muito características em minha terra natal. A Inglaterra era um lugar incrível, muito sofisticado e citadino, mas em terras brasileiras eu sentia como se a liberdade corresse feito criança em cada rua de pedra, em cada árvore frondosa. As montanhas ao longe eram de se perder em pensamentos poéticos, e o céu tão azul que dava a impressão de que eu podia tocá-lo se me esticasse o bastante. Até o cheiro era mais limpo. Respirei fundo. Bem... o cheiro daquele porto não era nada limpo. Acabei tendo um acesso de tosse quando o odor de soja estocado nos armazéns mais próximos entupiu minhas narinas. Peguei então minha parca bagagem e segui até a estrada onde provavelmente havia um cavalo me esperando. No meio do caminho tive que desviar de uma fileira de mais de cinquenta homens carregando sacos grandes de café. Sorri. Estava definitivamente em casa. Quando cheguei próximo a uma fileira imensa de carruagens esperando os passageiros, reconheci de imediato a careca do meu mordomo ao longe.
– Fontana – gritei e balancei meu chapéu, para que ele conseguisse me ver em meio ao aglomerado de cavalheiros. O homem alto e magro me viu e abriu um largo sorriso. O Sr. Fontana era o mordomo mais antigo de meu pai, eu o conhecia desde garoto. Com certeza meu pai o mandou porque eu me sentiria mais à vontade se um conhecido me recebesse, porém não pude deixar de me comparecer da idade avançada que se encontrava.
- Capitão! – exclamou Fontana com alegria, e quando cheguei perto fez uma nobre reverencia. Eu dispensei a cerimônia e o puxei para um abraço, dando-lhe tapas nas costas.
- Que alegria te ver, velho amigo.
- Eu que o diga, o senhor saiu daqui um rapazote e voltou um homem feito, capitão... quero dizer, agora Barão. Tentei ignorar o incomodo da minha consciência ao ser tratado naqueles termos.
- Pois é, o mar envelhece quem o conhece – disse, repetindo a velha frase do meu tio, capitão Dominique. O Sr. Fontana riu.
- Sim, sim, eu presumo. O senhor só trouxe essa pequena mala? – perguntou olhando para a maleta aos meus pés.
- Sim, mas tenho dois baús que devem estar descarregando – apontei para o navio atracado onde entrava e saiam vários homens.
- E só?
- Sim, só. – Olhei para Fontana e ele trazia uma expressão de dúvida – Algum problema?
- Não, nenhum barão, mas se o senho diz que além dessa mala pequena só tem dois baús, creio que voltaremos para casa com praticamente todas as carruagens vazias. Não entendi sua fala, mas ele olhava por sobre meu ombro. Quando me virei de costas vi que a fila de carruagens que eu tinha visto – cerca de quatro veículos – estavam todas vazias, e os cocheiros me olhavam com expectativa. Depois, observando melhor, vi o brasão de minha família em todas as portas.
- Para quê tudo isso? – perguntei a Fontana.
- Para suas muitas bagagens, eu presumo. A Baronesa mandou todas elas, quando cheguei ao estábulo estavam todas preparadas.
- Ora, não disse a ela que traria uma casa inteira comigo.
- Ordens da senhora sua mãe.
- Pois cansaram os cavalos à toa, só vou precisar de uma carruagem. Pensando melhor... pode levar minhas coisas nesta aqui – e bati na lateral da carruagem mais próxima – e para mim só um cavalo.
- Mas barão, não está cansado demais para uma cavalgada? Vá de carruagem, são doze horas de estrada, isso se o senhor não quiser parar para pousar em alguma hospedaria.
- Sim, sim, eu estou cansado, mas faz anos que não subo no lombo de um cavalo, temo ter perdido a prática o que, para meu pai, é um ato imperdoável. A viagem levou um terço de tempo a mais do que o esperado, já que, por conta das muitas carruagens inúteis, vire e volta precisávamos parar para desenganchar a roda de um buraco, descansar os cavalos, ou até mesmo contornar uma colina muito acentuada para aquele tipo de veículo.
Quando já estávamos na estrada a mais de vinte horas, comecei a pensar seriamente se não tínhamos nos perdido. Eu sei que sabia o caminho para a fazenda, mas talvez o tempo tenha se encarregado a apagar minha memória.
Quando estava prestes a dar meia volta e perguntar aos cavalheiros que haviam ficado para trás se estávamos na estrada certa, pude finalmente distinguir a silhueta do enorme e luxuoso portão de entrada da fazenda.
Estava aberto, como esperado, com dois guardas um a cada lado. Ao passar por eles os cumprimentei com um acesso de cabeça e ambos me reconheceram.
– Bem-vindo de volta Barão – disse um deles. Sorri e me aprumei no cavalo, sentindo a excitação do dia mais real. Após passar pelos portões, eu já sabia o que encontrar: uma larga estrada de terra com certa de dez quilômetros, cercada dos dois lados por um bosque belíssimo. Olhar aquelas árvores me proporcionou uma sensação muito bem vinda de nostalgia, de todas as vezes que eu cruzava aquela estrada de carruagem com meus pais e meu irmão, ou até mesmo durante a infância quando subia nas árvores frutíferas com ela... m*l havia terminado a estrada e era possível avistar o casarão principal da família Martin. Uma imensa estrutura com cerca de 500 mil metros quadrados, construída a quase sessenta anos pelo meu bisavô, Charles Henri, quando nossa família migrou da Inglaterra para o Brasil. As terras foram dadas ao meu bisavô pelo próprio imperador, Dom Pedro I, como forma de estreitar a relação da exportação de café para com a coroa inglesa. Desde então nossa fazenda só vinha crescendo, eram terras ótimas para cultivo e éramos muito adeptos a toda a industrialização no preparo do grão. Mas, em minha opinião, o nosso maior diferencial e orgulho, era o comprometimento de cada trabalhador.
Eu tinha muito orgulho de tudo que era produzido ali, valorizava cada grão de café recolhido, transportado, torrado e moído que tinham origens nas terras dos Henri. Mas o mais comovente em tudo era como todos funcionavam como uma família. Os funcionários trabalhavam por prazer, tinham boas condições de vida e estavam satisfeitos. Pensar nisso me trouxe lembranças doces e inesquecíveis que vivi ali. Lembranças que eram, em sua maioria, protagonizadas por ela... Interrompi imediatamente o rumo que meus pensamentos estavam seguindo. Se começasse a pensar nela novamente, talvez quisesse descer do lombo de meu cavalo e começar a procurá-la imediatamente, e não era esse meu objetivo agora. Coisas aconteceram na minha família, coisas terríveis e tristes, e eu estava de volta para ajeitar tudo, não precisava de distrações. A exatamente um ano, meu irmão mais velho, Arthur, e sua esposa, Katerina, sofreram um grave acidente de carruagem enquanto voltavam do litoral. A carta que recebi dizia que uma das rodas traseiras se soltou do eixo enquanto subiam uma ladeira íngreme e perigosa. Nem os cavalos e os coxeiro sobreviveram e a carruagem foi encontrada em ruínas dentre as pedras. Barão e Baronesa das terras de meu pai, eles estavam aguardando a chegada de seu primeiro filho. Foi uma catástrofe para todos nós, eu não podia nem imaginar o que minha mãe havia passado.
Quando ocorreu o acidente eu estava em viagem pelas indias, uma viagem que já havia se prolongado por quatro meses, levou mais seis meses para que retornasse a Londres e recebesse a carta com ordens expressas de meu pai que voltasse ao Brasil imediatamente, que ele precisaria da minha ajuda. Depois de muitas noites insone absorvendo tudo o que aquelas palavras pesadas e apressadas diziam, finalmente tive coragem de escrever minha resposta. Com mais um mês acertando todas as coisas no meu navio, parti da Inglaterra.
A carta ainda ardia em meu bolso do casaco, amarrotada e quase se rasgando. Mas era um lembrete pulgente do meu objetivo alí.
Arthur era o modelo de homem que eu queria me tornar, sincero e leal. Ele havia sido durante toda minha infância e juventude a pessoa que mais admirei e lutei para ser igual. Seria capaz de seguir cada passo seu, cada comando. Eu queria ser ele! Não por ganância ou inveja, mas porque ele era uma pessoa admirável.
E ali estava eu, prestes a tomar tudo o que era dele. Sua herança, suas terras e seu título. Não parecia justo. Eu nunca estudei para ser Barão, meu pai tinha muita confiança que esse título pertencia exclusivamente a Arthur. Certos momentos eu me sentia intimamente aliviado por não carregar esse fardo, eu via o quanto Arthur precisava se dedicar, abrir mão de certos momentos de lazer para ficar enjaulado no escritório de papai durante o dia inteiro. Mas quando alguém importante ia nos visitar, ou quando íamos a algum evento da sociedade, eu via o quanto o que ele fazia era majestoso. Todos o olhavam, escutavam o que dizia, queria sua atenção de alguma forma. Eu não, a mim só recorriam para perguntar de meu irmão quando o mesmo estava muito ocupado.
Desci do cavalo bem ao pé da escadaria que dava aos portões principais e um mulato logo veio levar o cavalo. O homem era razoavelmente familiar, alto e muito forte, mas não fiquei muito tempo tentando especular quem fosse, apressei em entrar no casarão.
Tudo estava como eu me lembrava a nove anos atrás. As paredes altas e brancas, com muitos detalhes em azul céu, os móveis grandes, pomposos e muito bem lustrados tomando todos os cômodos e os diversos quadros espalhados.
Pelo visto ninguém estava me aguardando aquela hora, pois não havia qualquer tipo de recepção, então fui para o primeiro lugar que veio a minha mente.
Ao entrar no inconfundível escritório de meu pai, reconheci cada detalhe novamente e veio a forte sensação de nostalgia por todas as vezes que eu ia até ali, sabendo que o encontraria. A única mudança significativa que notei foi a enorme pintura de Arthur decorando a parede atrás da mesa principal. O quadro trazia a imagem de meu irmão sério e formal, vestindo um casaco cheio de detalhes e distintivos. Não lhes fazia jus, certamente foi pintado apenas com as lembranças que o artista tinha de seu rosto após sua morte. Olhar aquilo por mais um segundo era torturante.
Meu pai estava na enorme cadeira de couro com a cara em um grosso livro. Quando bati a porta ele levantou o rosto com os óculos na ponte do nariz e deu um salto para ficar de pé.
– Thomas! – urrou ele de surpresa, vindo até mim de braços abertos e me dando um abraço. – Meu filho, quanta saudade! Não imaginei sua chegada tão cedo, pensei que fosse parar em alguma hospedaria.
– Estava ansioso para chegar – falei alegremente ao lhe soltar.
– Sempre apressado, como sempre – ele riu com sua voz grossa e depois me encarou por alguns segundos. – Você está um homem filho, o mar lhe fez bem. Está robusto e nobre, um verdadeiro barão.
Isso me fez suspirar.
– Sinto muito por Arthur, pai.
Os olhos dele pareceram marejar levemente, então me soltou e andou alguns passos.
– Foi duro por aqui, filhos. As coisas não são mais as mesmas, sua mãe sofre de enxaqueca e chora todas as noite. Ela tenta ser forte, mas procure não comentar muito a respeito se não ela se descontrola.
– Tudo bem – assenti.
Ficamos em silêncio por alguns momentos até que descidi romper o clima pesado.
– As coisas mudaram por aqui, eu li suas cartas. Para começar não temos mais um imperador.
– Sim – concordou meu pai e depois deu uma risada baixa – pode ser que tenha mudado um detalhe ou dois durante esses anos.
– E a escravidão? Finalmente foi abolida, já não era sem tempo.
– Pois é, meu filho, mas confesso que isso trouxe mais problemas do que soluções. Se não fosse pela astúcia de seu falecido irmão em investir no setor ferroviário, talvez estivéssemos passando por sérias necessidades.
Vi que meu pai afrouxou a gola de sua gravata num puxão firme, como se seus problemas o tivessem sufocando.
– Sim, o senhor disse que muitos funcionários foram embora.
– Foram. Juro a você que fiquei sem dormir por uma semana. Seu irmão tentou contratar alguns italianos estrangeiros, mas eu o detive. Tenho confiança nos meus homens. Não deu outra, quinze dias depois daquela abolição, vários voltaram com uma mão na frente e outra atrás. Alguns até ofereceram trabalho de graça, se eu concordasse em recebê-los.
Ele deu mais uma gargalhada grave e rouca.
Parei para pensar um instante e percebi que aquelas palavras foram capazes de acender uma fraca chama de esperança em meu peito, lugar onde por muitos anos só havia sombras. Talvez ela ainda estivesse na fazenda. Se aconteceu como meu pai disse, muitos empregados ficaram ali ou retornaram, as chances de encontra-la eram significativas. – Então os trabalhadores são os mesmo de quando fui embora? – perguntei numa ansiedade m*l disfarçada. Meu pai apenas assentiu com a cabeça, distraído, e foi até o canto do escritório se servir de um copo de whisky.
– Eu vi isso, Joseph – disse uma voz feminina vinda da porta.
Me virei e encontrei minha mãe atravessando o escritório. Estava elegante como sempre e andava com graça, mas percebi que seus passos eram devagar e arrastados.
Ela me deu um sorriso largo e me abraçou, eu a envolvi completamente em meu abraço, se esquecendo o quando ela era baixa.
– Sua benção, mãe – disse e me curvei para ela beijar minha testa.
– Deus te abençoe, meu filho. Quanta saudade.
Depois de algum momento ela me largou e foi em direção a meu pai.
– O que o médico disse? Nada de álcool, Joseph.
Meu pai soltou uma exclamação.
– Aght! O que é um homem sem a sua bebida?
– Está tudo bem? – perguntei, preocupado.
Minha mãe fez pouco da minha preocupação com um aceno de mão.
– Está filho, mas seu pai anda sentindo muitas dores no peito, o médico só recomendou que ficasse longe de tabaco, álcool e que descansasse – a última palavra ela disse com uma ênfase maior em direção ao meu pai – Não que você esteja fazendo isso, Joseph, está enfiado neste escritório desde ontem.
– Estava preparando tudo para a chegada de Thomas, Constança, não me atormente.
– Bom, ele já está aqui.
Isso me fez lembrar de uma coisa.
– Minha mãe, por que mandou tantos cavalos me buscar no porto? – perguntei.
Ela deu de ombros delicadamente enquanto ajeitava a gravata de meu pai.
– Ora filho, eu acreditava que não voltaria desacompanhado. Imaginei que iria precisar de todas as carruagens para transportar tanta bandagem.
Seu tom era de tanta inocência que tive que me conter para não revirar de olhos, então apenas cruzei os braços a frente do corpo. Minha mãe era tão sutil quanto modesta em suas tentativas de me ver casado
– E quem por acaso pensou que estivesse comigo, dona Maria Constança? – perguntei, como se já não soubesse a resposta.
– Sua esposa, minha nora, e talvez algum netinho.
Ri alto, um pouco fora do que a etiqueta mandava.
– Não lembro de ter me casado, muito menos de ter tido filhos.
Ela fez um bico engraçado que enrugou ainda mais seus pés de galinha nos olhos.
– Bom, achei que não tivesse nos contado para fazer uma surpresa – seu tom era um tanto irritado e descepcionado.
– Mãe – Suspirei e a abracei, encostando seu rosto em meu peito e sentindo o cheiro de infância das suas roupas – Lamento decepciona-la, mas não tenho perfil de quem a atormentaria com tais surpresas. Já sei que causa muito tormento para si mesma sem a minha ajuda, como acaba de demonstrar.
Ela estalou a língua.
– Uma mãe pode sonhar – e me soltou, avaliou meu rosto e depois franziu os olhos – E seus tios não o levaram a nenhum dos eventos de todas aquelas temporadas londrinas? São festas muito famosas.
Me limitei a dar de ombros quando a soltei.
– Até tentaram. Eu cheguei a ir em uma ou duas, mas são tão detestáveis como enfadonhas.
– Thomas!
Até hoje sentia arrepios de vergonha ao lembrar desses eventos que fui praticamente arrastado a força, depois de muita e muita insistência da parte dos meus tios. Claro que um homem solteiro e ainda por cima herdeiro de uma terra gigantesca cujo pai fazia fortunas no novo mundo atrairia um monte de moças desesperadas, e mães mais desesperadas ainda, para arranjar um casamento. Era pavoroso tudo aquilo, uma verdadeira temporada de caça aos maridos, onde a mãe mais disposta a ultrapassar qualquer limite da vergonha e do embaraço, levava o prêmio.
Minha sorte era que passava mais tempo ao mar do que em terra firme. Infelizmente as vezes alguns eventos eram levados para dentro do meu próprio navio, quando meu tio o cedia para que algum cavalheiro quisesse organizar uma socialização diferente. Nessas horas eu me trancava dentro da minha cabine e esperava toda a farra passar, no dia seguinte só tinha o trabalho de jogar ao mar todos os vagabundos que haviam bebido demais para conseguir distinguir a prancha de passagem com uma baleia.
– É bom você começar a gostar, porque vamos fazer um baile em homenagem ao seu regresso – falou minha mãe, de repente trazendo minha atenção.
A encarei de boca aberta enquanto a robusta senhora sentava-se em uma cadeira com o ar mais despreocupado do mundo.
– Perdão, como é? – perguntei a meia voz.
Olhei para meu pai, mas ele apenas deu de ombros. Traíra, com certeza estava por trás disso, ou no mínimo nem havia se dado ao trabalho de impedir mamãe.
– Se tivesse voltado casado, iríamos fazer um baile em homenagem ao seu matrimônio, mas como insiste em permanecer solteiro nessa idade, faço questão de convidar toda a moça de respeito disponível que São Paulo tem a oferecer.
– Mãe, isso não é necessário...
– Deixou de ser necessário para se tornar urgente, Thomas Martin – insistiu ela com uma exigência inquestionável. – Além disso, já enviamos os convites a todos nossos amigos, só vou precisar acrecentar as moças, e os criados já estão trabalhando duro nisso há dias. Não faça com que meu tempo tenha sido desperdiçado.
Suspirei pesadamente, sem me dar ao trabalho de esconder meu desgosto. Assim como todos os Martin da família, eu não gostava de festas. Eram eventos chatos e irritantes, principalmente por ter que manter um sorrisinho educado durante quatro horas, quando na verdade meditava entre a escolha de afogar metade dos convidados no rio ou cortar minhas próprias orelhas
Minha mãe era a única que demonstrava um pouco de animação nessas festas, e sendo uma baronesa respeitável em todo o estado, tinha por obrigação social dar, no mínimo, um baile por ano.
– Esta certo, minha mãe, se insiste.
– Claro que insisto. Inclusive, meu filho, tem uma jovem em especial que creio que ficará feliz em revê-la.
– Qual? – eu não conseguia pensar em uma mulher que fosse ter esse interesse... Bem, talvez uma.
– Não, não. Só saberá no baile. Agora ande, se apronte logo para o almoço.
O almoço com meus pais foi um evento animado, passei a maior parte da refeição cumprimentando todos os antigos empregados que vinham nos servir e contando a todos sobre meus anos na Europa e nas viagens em meu navio.
Fiquei de certa forma surpreso que meu pai não tocasse em assuntos de trabalho ou contado qualquer coisa que fosse sobre a plantação e comércio do nosso café. Acreditei que estava me dando o primeiro dia de folga, amanhã o trabalho duro começava.
Depois da refeição minha mãe queria que eu fosse com ela até a vila mais próxima da fazenda, onde poderia me encontrar com conhecidos e ela aproveitaria para fazer o convite ao baile para as jovens solteiras. Recusei educadamente dizendo que terei muito tempo para reencontrar os velhos amigos, e que minha saudade de casa era maior do que a vontade de socializar. Com isso ambos foram para os seus afazeres e eu fiquei livre para desfazer minhas coisas no quarto e dar uma caminhada.
Já estava caminhando em meio ao cafezal por mais de duas horas, falando para mim mesmo que era para apreciar a sensação daquele lugar que, agora, era oficialmente meu. Entretanto, no fundo, minha inconsistência debochava de cada passo que eu dava mais adentro da plantação, de cada olhada desesperava quando ouvia algum dos criados trabalhando, ou quando chegava num ponto desconhecido.
Não gostava de admitir, mas a estava procurando pelo casarão desde que chegara. Quando percebi sua ausência, nutri as ridículas esperanças que estivesse no jardim, ou no lago, nos estábulos, bosques ou até mesmo no celeiro. Cogitara também subir a suntuosa colina onde dava para as centenas de casas que cumpunha a colônia, mas não cheguei a tanto. Qualquer morador do casarão era recebido com certo alarde na colônia e obviamente teria que inventar uma desculpa convincente que explicasse minha presença ali.
Os meus receios estavam se confirmando a cada pisada das botas na terra roxa, a cada novo caminho que trilhava naquele monstruoso cafezal.
Ela se fora. Era a conclusão mais óbvia. Afinal, quais as chances de uma criada ficar na casa dos seus sonhores depois de nove anos? Principalmente agora que a escravidão era ilegal.
Ela sempre foi a personificação de independência, um perfeito espírito livre. Lembro-me de muitas vezes inveja-la por seu jeito tão desprendido, tão dado a imaginação e aos sonhos. Era bem provável que o fim da escravidão havia lhe proporcionado tanta vontade de conhecer o mundo que raiz nenhuma iria conseguir prende-la a um só lugar.
Fiquei imaginando onde ela estaria agora, qual lugar teria explorado durante todos esses anos? Onde quer que fosse... eu gostaria de estar lá.
Pela primeira vez naquele dia, senti vontade de sair da fazenda, o que era muito espantoso da minha parte, visto que estava ali a menos de um dia e provavelmente não deixaria esse lugar até minha morte. Pensando bem, nem depois de morrer, já que os jazigos da família ficavam também alí.
Eu já estava absurdamente frustrado e amaldiçoando a mim mesmo por permitir sentir qualquer esperança. Tinha decidido dar meia volta e levar outras duas horas no retorno quando, sem eu ao menos esperar, uma silhueta feminina muito atraente se ergueu no meio da plantação bem a minha frente.
Não a reconheci de imediato, apenas quando vi um cacho perfeito escapar de seu chapéu e cair delicadamente em sua nuca fina e suada que fui transportado para nove anos atrás.
Era ela.
– Jani – chamei.
A mulher ficou ereta imediatamente e escutei o barulho de cesto caindo. Delatando que sabia quem a estava chamando, ela se virou bem devagar, como se um fantasma a tivesse chamando.
Soltei o fôlego que nem sabia que estava prendendo. Ali estava ela, linda e delicada, como uma porcelana. Sua pele cor de amêndoa ainda tinha a mesma aparência macia, o pescoço longo e fino fazia uma combinação perfeita com os ombros estreitos e a clavícula marcada. Logo abaixo o b***o era marcado por um decote atraente e cintura muito fina. Mas logo percebi mudanças sutis, como os s***s mais fartos e o quadril mais largo. Ela já não era aquela mocinha de dezoito anos que conheci, tinha agora silhuetas de uma mulher.
Continuei a desinibida apreciação de seu corpo até chegar ao rosto... E dali não consegui mais sair.
Minhas memórias eram todas fracas e modestas, percebi. Nenhum dos meus sonhos fazia jus aquela beleza. Nenhuma das minhas lembranças descrevia com perfeição aquelas maças do rosto altas, lábios grossos e carnudos, nariz pequeno e levemente arredondado e os olhos escuros e muito profundos.
Ela ainda era uma deusa.
– Vejo que está de volta, Sr. Martin, ou agora devo lhe chamar de Barão?