MARINA - LUGAR ERRADO, HORA ERRADA

1052 Words
(Narrado por Marina) Hoje foi um daqueles dias que parece que nunca acabam. Desde cedo, tudo parecia dar errado. No trabalho, m*l coloquei o pé dentro da loja e já tinha cliente enchendo a paciência. Logo cedo, uma mulher entrou reclamando do preço de uma mercadoria que nem estava em promoção. Insistia que tinha visto um cartaz, que eu estava enganando ela, que a loja era um roubo. Tentei explicar, com a paciência que me restava, mas parecia que quanto mais eu falava, mais ela me acusava. No fim, a gerente veio, confirmou o que eu dizia, mas a mulher saiu bufando, jogando as compras no caixa com força. O olhar dela ficou em mim como se eu fosse culpada por tudo. Respirei fundo e segui o dia, porque, no fundo, eu já sabia: era só o começo. A loja estava cheia. Fila grande, gente reclamando do calor, do preço, da demora. Trabalhar no caixa é como receber todo o mau humor do mundo num só lugar. Cada cliente vinha com um pedaço do dia r**m dele e deixava em cima do balcão. Eu sorria, respondia educadamente, mas por dentro já estava desgastada. Na hora do almoço, m*l consegui comer. A fila estava imensa, e a gerente pediu que eu adiantasse o turno para ajudar. Engoli rápido uma coxinha fria e um copo de refrigerante morno. O estômago revirava, mas não tinha escolha. Quando finalmente o expediente terminou, já era noite. Eu só queria chegar em casa, tomar um banho e esquecer aquele dia. Mas aí veio a parte que sempre me esgota: o ônibus. Como sempre, atrasado. Uma multidão de gente esperando no ponto, cada um mais impaciente que o outro. Quando finalmente apareceu, parecia uma lata de sardinha ambulante. Gente pendurada na porta, o cobrador gritando para avançar, e eu tentando me enfiar no meio daquilo. Entrei espremida, sem ar, agarrando a bolsa contra o peito. O calor era sufocante, o ar condicionado quebrado. A cada curva, eu era jogada contra alguém. Senti o suor escorrendo pelas costas, o cabelo grudando na nuca. Um senhor resmungava alto, uma criança chorava, e um homem ao meu lado falava tão alto no celular que parecia querer que o ônibus inteiro soubesse da vida dele. E eu só pensava: “Quero chegar logo em casa.” Mas, como se não bastasse, o trânsito travou. Uma viagem que deveria durar vinte minutos virou quase uma hora. Quando finalmente desci, minhas pernas estavam pesadas, e a rua já estava mais escura do que eu gostaria. Foi aí que cometi o erro. Olhei para o relógio, suspirei e pensei: se eu cortar pelo beco menor, chego em casa mais rápido. Já tinha ouvido histórias sobre gente evitando aquele caminho à noite, mas naquele momento, o cansaço falou mais alto do que o medo. Apertei a bolsa contra mim, respirei fundo e segui. Logo na entrada, senti o arrepio. O beco era estreito, úmido, m*l iluminado. As paredes descascadas refletiam sombras estranhas, e cada passo meu ecoava alto demais, como se gritasse que eu estava ali. “Só anda rápido, Marina. É só atravessar e acabou”, pensei, tentando me convencer. Meus olhos corriam de um lado para o outro. O coração acelerado, os ouvidos atentos a qualquer som. Eu já me arrependia da escolha, mas não tinha coragem de voltar. O medo é assim: te prende mais que te liberta. De repente, ouvi vozes adiante. Baixas, sérias, masculinas. Meu estômago gelou. Diminuí o passo, encostando na parede, torcendo para que não me notassem. A respiração ficou curta, pesada. E então, o som. Seco. Cruel. Um disparo. O barulho do tiro ecoou pelo beco como um trovão. Meu corpo reagiu antes da mente: me encolhi, cobri a boca com a mão para não gritar. Senti as pernas tremerem, o coração disparar tanto que parecia querer pular do peito. Tentei recuar, mas meus olhos foram mais rápidos do que a razão. Vi. Vi o corpo caindo. Vi o sangue escorrendo pelo chão, grosso, vermelho escuro. V i o homem que puxara o gatilho ainda de pé, com a arma na mão. A cena queimou meus olhos, como se tivesse sido marcada a ferro. E, pior que tudo, ele me viu. Nossos olhares se encontraram. Eu congelei. Era o Gerente, o Carlinhos. Eu já tinha visto ele no morro, mas nunca de tão perto, nunca assim. O cordão grosso brilhava no pescoço dele, o braço tatuado erguia a arma ainda quente. E os olhos… os olhos me atravessaram como lâmina. Por um segundo, pensei que seria a próxima. Senti as lágrimas arderem, minha respiração falhando. Ele caminhou em minha direção devagar, como um predador que não precisa correr para alcançar a presa. Cada passo dele soava como um martelo na minha mente. Eu não conseguia me mexer. Quando parou diante de mim, tão perto que eu podia sentir o cheiro de pólvora misturado ao cigarro, falou baixo, como se cada palavra fosse uma ameaça invisível: — Você não devia estar aqui. Eu balancei a cabeça rápido, desesperada. — Eu… eu não vi nada… — sussurrei, a voz quebrada, quase implorando. Ele ficou em silêncio, só me encarando. Achei que fosse erguer a arma. Achei que meu fim estava ali. Mas, de repente, ele deu um passo para trás, respirou fundo e disse: — Vai pra casa, garota. Esquece o que viu. Não esperei repetir. Passei por ele quase correndo, tropeçando no próprio medo. Meu corpo parecia feito só de tremores. Não olhei para trás, não pensei, só corri até sair do beco. Quando cheguei em casa, bati a porta com força, tranquei três vezes e desabei no chão da sala. Minhas mãos tremiam tanto que m*l conseguiam segurar a chave. O coração ainda martelava, a respiração curta. Chorei. Chorei como nunca. Não pelo cansaço do dia, não pelo ônibus lotado, nem pelo cliente chato. Chorei porque, naquela noite, eu tinha visto a morte de perto. E, pior ainda, ela tinha me olhado de volta e decidido me deixar ir. Mas eu sabia. Eu sabia que não seria tão simples assim esquecer. Ninguém esquece o cheiro de pólvora, o sangue no chão e o olhar de um homem que carrega a morte nas mãos. E eu também sabia que, mais cedo ou mais tarde, aquilo voltaria a me assombrar.
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