(Narrqdo pela autora)
Na hierarquia do crime, poucos chegavam ao topo. Mas aqueles que alcançavam esse posto, dificilmente eram derrubados sem que o chão inteiro ficasse manchado de sangue.
Carlinhos, conhecido apenas como o Gerente, era prova viva disso.
Aos trinta e dois anos, ele já tinha visto mais traições, execuções e quedas do que muitos homens em idade dobrada. Ninguém sabia ao certo de onde tinha vindo, mas todos sabiam como ele havia se mantido: pelo medo.
Carlinhos era um homem de presença marcante. Moreno claro, corpo definido, tatuagens espalhadas pelos braços e pelo peito, cada uma com uma história que poucos ousavam perguntar. O braço esquerdo trazia a imagem de um relógio de bolso quebrado, símbolo de que “o tempo de todo mundo acaba”; no pescoço, o nome da mãe, único vestígio de humanidade ainda tatuado em sua pele. O resto eram caveiras, cifras e frases como cicatrizes eternas.
O ouro brilhava em seu corpo como medalhas de guerra. Correntes grossas, anéis pesados, relógios que cintilavam mesmo sob a luz fraca dos becos. Não era vaidade: era mensagem. Ele usava aquilo como uma bandeira, como quem dizia ao mundo que nada nem ninguém poderia lhe tomar o que conquistou.
O olhar, no entanto, era o que mais pesava. Escuro, direto, sem um pingo de hesitação. Havia frieza no modo como encarava até seus aliados mais próximos, como se calculasse o preço da vida de cada um, pronto para descartar quem errasse. Carlinhos não aceitava falhas.
Não aceitava desculpas.
E quem ousava falhar, não repetia duas vezes.
Naquela noite, o morro parecia respirar ao ritmo de seus passos. Ele caminhava pela viela estreita, dois homens armados o acompanhando de cada lado. As crianças que brincavam com bolinhas de gude pararam, recolheram os brinquedos e correram para dentro de casa. As portas se fechavam devagar, como se o vento trouxesse aviso.
Carlinhos gostava disso. O silêncio, o respeito, o medo disfarçado. Aquilo era poder.
Chegou à boca, onde cerca de quinze soldados já estavam em posição, alguns embalando pacotes, outros vigiando com fuzis no ombro. O ambiente era um misto de fumaça de cigarro, cheiro de pólvora e dinheiro sendo contado.
— Quem errou hoje? — perguntou, a voz baixa, quase tranquila.
Ninguém respondeu. Apenas olhares trocados, nervosos. Ele insistiu:
— Quem errou?
Um dos rapazes, garoto novo, não mais que vinte anos, gaguejou explicações sobre um dinheiro que não bateu. Carlinhos não precisou ouvir até o fim. Sacou a pistola da cintura, levantou o braço e atirou sem sequer mudar a expressão. O corpo caiu de lado, sangue se espalhando no chão de cimento.
O silêncio foi imediato. O recado, mais uma vez, estava dado.
Carlinhos guardou a arma com calma, virou-se para os outros e disse:
— Aqui ninguém falha. Quem falhar, não respira.
Depois caminhou até a mesa, onde o dinheiro estava empilhado, e começou a contar as notas com a frieza de quem havia acabado de comprar pão. Não havia peso em seus atos. Não havia remorso. Apenas negócios.
O Gerente não era apenas c***l. Era ambicioso. Seu sonho não era ser apenas dono daquele morro. Ele queria mais. Mais ruas, mais bocas, mais favelas sob seu comando. Para ele, território era moeda de poder, e quem controlava o território controlava tudo: polícia, políticos, vidas.
Foi então que Murilo, um dos soldados mais antigos, se aproximou. O rosto estava tenso, como se escolhesse as palavras antes de soltá-las.
— Chefe… tem um problema.
Carlinhos ergueu os olhos, ainda mexendo nos maços de cinquenta.
— Problema? Fala. — repetiu, a voz calma, quase mansa.
— É o Renatinho… ficou devendo.
O barulho da contagem parou. Carlinhos deixou o maço cair sobre a mesa e recostou-se, cruzando os braços.
— Quanto?
— Uns oito mil.
Um silêncio pesado tomou o ambiente. Oito mil não era pouco. E, para Carlinhos, não era nem sobre o valor. Era sobre o exemplo.
Ele tamborilou os dedos no braço da cadeira, o olhar firme em Murilo.
— Esse moleque acha que pode brincar comigo?
Murilo abaixou a cabeça.
— Ele falou que vai arrumar, que só precisa de tempo…
Carlinhos ficou em silêncio por alguns segundos, como se calculasse friamente o destino do garoto. Depois, levantou-se, ajeitou o cordão no pescoço e disse:
— Tempo eu até dou. Mas prazo é prazo.
Se aproximou da mesa, pegou a pistola, engatilhando-a como quem assina um contrato.
— Fala pra ele que tem três dias. Três. Se não pagar, nem precisa aparecer mais.
Murilo assentiu rápido, mas ainda hesitou. Carlinhos percebeu.
— Tá com medo de dar o recado, Murilo?
— Não, chefe… é que… Renatinho é cria daqui. Moleque cresceu na favela, todo mundo conhece.
Carlinhos sorriu de lado, mas o sorriso era cortante.
— Melhor ainda. Todo mundo vai ver o que acontece quando a cria esquece de quem manda.
Voltou a se sentar, acendendo um cigarro. O brilho vermelho da brasa iluminou seus olhos escuros.
— Se em três dias ele não aparecer com meu dinheiro… chama o Espectro.
O nome caiu pesado no ar. Até os mais durões se remexeram desconfortáveis. O Espectro não era apenas um executor. Era uma lenda viva. Um homem que surgia e desaparecia sem deixar rastro, como se fosse parte do próprio morro. Quem recebia sua visita não tinha direito a segundo aviso.
Carlinhos tragou fundo, soltando a fumaça devagar.
— O Espectro resolve. Sempre resolve.
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Os três dias correram rápidos.
Renatinho, magro, de olhar perdido, apareceu na boca duas vezes, suado, tremendo, pedindo mais tempo. Prometeu que ia vender a moto, prometeu que ia pegar emprestado com a tia, jurou que não ia deixar barato. Mas promessas não enchem o bolso de Carlinhos.
Na noite do terceiro dia, o Gerente estava outra vez na cadeira de couro, mexendo nas notas e ouvindo o rádio chiado no fundo. Murilo entrou, o rosto ainda mais carregado do que antes.
— Chefe… o Renatinho não trouxe o dinheiro.
Carlinhos não demonstrou surpresa. Apenas balançou a cabeça, como quem já esperava.
— Então acabou o tempo dele.
Pegou o celular, deslizou os contatos e parou num nome sem foto, sem nada. Apenas uma palavra: Espectro.
Ligou.
Do outro lado, o silêncio foi a primeira resposta. Depois, uma voz grave, rouca, sem emoção.
— Fala.
— Tenho um serviço pra você. Moleque chamado Renatinho. Me deve oito mil. Teve prazo. Não cumpriu. Você já sabe o que fazer.
Mais um silêncio. O Espectro nunca perguntava muito. Nunca negociava.
— Onde? — ele disse por fim.
Carlinhos sorriu, apagando o cigarro no cinzeiro.
— No beco atrás do campo, perto das escadas grandes. Ele costuma passar por lá quando sai da casa da mãe.
Do outro lado, silêncio novamente. Depois, apenas duas palavras:
— Tá feito.
A ligação caiu.
Murilo, que estava ao lado, não conseguiu esconder o desconforto.
— Chefe… tem certeza que precisa ser ele? O Espectro não deixa rastro. Mas é pesado demais pro moleque…
Carlinhos virou-se devagar, encarando Murilo como se pudesse atravessar sua alma.
— Murilo… pesado é me dever. Pesado é desrespeitar meu nome. Se eu alivio pra um, todos acham que podem fazer o mesmo. Eu não negocio com falha.
Levantou-se, colocando o cordão de ouro pra dentro da camisa.
— E você sabe: quando o Espectro aparece… o morro inteiro treme. É disso que eu preciso.
Horas depois, já passava da meia-noite. Renatinho caminhava rápido pelo beco indicado, olhando para os lados, o coração disparado. Ouvia passos atrás de si, mas cada vez que virava, não via nada. O suor escorria pelas têmporas.
O Espectro estava lá. Sempre estava.
E quando a escuridão finalmente se moveu, Renatinho não teve nem tempo de correr.