Tava tudo quieto no morro, mas era aquele tipo de silêncio que dá medo. O tipo que vem antes da bala cantar. Desde que o Caveira mandou o Baianinho me avisar pra não sair do Morro, eu sabia que tava marcado. “Tu fica na tua, Carlinhos. Caveira tá te observando.” Essas palavras ficaram martelando na minha cabeça a semana inteira. Eu quase não dormia, quase não comia. O ar do morro parecia pesado, cheio de olho em cima de mim. Encostei na janela e olhei lá pra baixo. O beco tava deserto, mas eu sabia que tinha alguém me vigiando. Sempre tem. Peguei o celular que eu escondia dentro do forro da cama. Um aparelhinho velho, desses que só servem pra ligação e SMS. O chip eu mantinha guardado dentro da sola do tênis, num plástico dobrado. Meus dedos tremiam quando botei o chip no aparelho.

