(Narrado por Rafael)
Hoje a missão foi simples: cobrar uma dívida. Mas nada é simples nesse mundo. Um vacilo pode ser o último.
Encontrei os caras no beco debaixo. Dois soldados já estavam à minha espera, segurando fuzis como se fossem extensão do corpo. Fomos juntos até a boca de fumo da parte baixa. O devedor era um moleque de vinte anos, tremendo mais que vara verde. Devia dinheiro porque se perdeu no próprio vício. A lei é clara: não pagou, paga com a vida.
Mas eu hesitei. Por um segundo, vi naquele garoto o reflexo de mim mesmo anos atrás, tentando sobreviver em meio ao caos.
Só que eu não tinha saída.
Ele também não tinha. Fiz o que precisava ser feito.
Mais um corpo no chão.
Mais um silêncio que ecoa dentro da minha cabeça.
A noite sempre foi minha parceira. É nela que me escondo, que respiro, que me torno invisível quando preciso. Mas ultimamente, tem sido também o momento em que a minha mente não me deixa em paz.
Encostei a pistola na mesa depois de limpá-la. O metal brilhava sob a luz fraca do abajur improvisado. Tudo em mim gira em torno disso: armas, sangue, silêncio. Não tenho espaço para nada além. Ou pelo menos não deveria ter.
Acendi um cigarro, traguei fundo e deixei a fumaça escapar pelo quarto pequeno. O cheiro de pólvora ainda impregnava minhas mãos. Era o preço de ser quem eu sou: um homem sem rosto, feito de guerra, conhecido apenas por um vulgo que virou sombra. Espectro.
Mas, no fundo do peito, algo insiste em me distrair.
Ela.
Não sei o nome. Não sei quase nada. Apenas ouvi falar, em conversas soltas no morro, que a menina perdeu os pais cedo demais. Que foi a vizinha quem a segurou pela mão quando o mundo desabou. Que, apesar de tudo, ela não se deixou levar para o abismo. Se manteve de pé, trabalhando, estudando, como se recusasse a carregar a mesma sina da maioria daqui.
Eu a vejo às vezes. Passando apressada pelo beco, segurando uma mochila gasta como se fosse escudo. Sempre de cabeça erguida, mesmo quando o olhar denuncia o peso que ela carrega. Não se mistura, não se perde na esquina. É como se pertencesse a outro lugar, mas tivesse ficado presa aqui.
E talvez seja isso que me intriga.
Sinto uma raiva estranha quando percebo que fico observando. Eu, que nunca me permiti parar por ninguém. Eu, que aprendi cedo que o apego é uma fraqueza que o inimigo usa contra você. Só que, quando meus olhos a encontram, por alguns segundos, eu esqueço. Esqueço a guerra que me cerca, esqueço os inimigos à espreita, esqueço até de respirar.
Deito na cama, o colchão duro rangendo sob meu peso. A arma fica sempre ao alcance da mão, em cima da mesa, mas agora meu foco não está nela. É nela.
Nos cabelos longos que caem pelas costas. No jeito apressado, mas firme, de andar. Nos olhos que, mesmo de longe, parecem esconder um oceano de dor.
Trago outra vez o cigarro e fecho os olhos. Tento afastar essa imagem, porque sei no que pode dar. Sei o quanto é perigoso deixar alguém atravessar minhas barreiras. Já vi homens morrerem por muito menos.
E ainda assim, a figura dela insiste em se manter dentro da minha mente.
Talvez seja porque reconheço algo. Porque, assim como eu, ela carrega fantasmas. E fantasmas sabem reconhecer uns aos outros.
Ouvi uma vez que ela não tem ninguém além da vizinha velha que a ajudou a crescer. Isso mexeu comigo de um jeito que eu não consigo explicar. Passei a vida sem ninguém também. O morro me criou. A guerra me moldou. Talvez seja isso que me faz notar o quanto ela é diferente: ela sobreviveu sem se sujar, enquanto eu só sobrevivi me manchando cada vez mais.
Apago o cigarro no cinzeiro abarrotado e viro de lado, encarando a escuridão. Tento convencer a mim mesmo de que não importa. Que amanhã vou acordar e continuar sendo só o Espectro. Que ela vai passar pelo beco como sempre, sem nem imaginar o que causa em mim.
Mas, no silêncio da madrugada, admito o que não falo em voz alta: tem uma parte de mim que gostaria de se aproximar. Só para ouvir a voz dela. Só para saber o nome.
Fecho os olhos, seguro firme no cabo frio da pistola ao meu lado e deixo o sono me levar. A guerra nunca dá trégua, mas, por alguns instantes, a imagem daquela menina me rouba da escuridão que sempre foi só minha.
Hoje a missão foi simples: cobrar uma dívida. Mas nada é simples nesse mundo. Um vacilo pode ser o último
Eu sou o Espectro, um homem sem futuro, sem saída. Ela é só uma garota tentando sobreviver. Nossos mundos não se misturam. Não deveriam se misturar.