MARINA

798 Words
(Narrado por Marina) Eu me chamo Marina, tenho 18 anos, e nasci em meio a becos estreitos, casas de tijolo aparente e fios que parecem teias de aranha no céu. Meus cabelos são castanhos-claros, que sempre caem em ondas desordenadas sobre meus ombros, e meus olhos puxam para o mel, uma mistura que herdei da minha mãe. Minha pele é clara, um pouco queimada de sol, e o corpo pequeno sempre me fez parecer mais nova do que realmente sou. A minha vida poderia ter sido como a de qualquer garota comum da cidade, mas o destino me roubou cedo demais a chance de ser apenas uma jovem com sonhos de faculdade e festas de fim de semana. O morro não perdoa ninguém. Eu aprendi isso da pior maneira. Meus pais eram pessoas simples. Meu pai, Roberto, trabalhava como pedreiro, saía cedo e voltava tarde, com as mãos calejadas e o corpo cansado, mas sempre com um sorriso para mim e para minha mãe. Já minha mãe, Cláudia, era costureira; transformava retalhos em roupas inteiras e tinha aquele dom de fazer milagre com agulha e linha. Eu cresci ouvindo o barulho da máquina de costura e o do martelo do meu pai. Eu cresci acreditando que, mesmo no morro, a gente poderia ser feliz, que tinha futuro. Mas a felicidade tem prazo curto por aqui. Naquela noite, eu tinha 12 anos. Estava deitada no colchão, ouvindo ao longe os tiros secos que já eram comuns, mas que, naquela noite, pareciam mais próximos. Meu coração batia descompassado, porque a cada disparo, eu me perguntava se meu pai conseguiria voltar do trabalho. A porta da frente se abriu com violência, e minha mãe me puxou para perto dela. Eu nunca vou esquecer o cheiro de pólvora, de suor e de medo que se misturaram no ar. Dois homens invadiram nossa casa. Eu não entendi muito na hora, mas eles falavam que meu pai devia dinheiro, que tinha se metido em algo que não deveria. Eu só lembro da mão da minha mãe tremendo, me escondendo atras do corpo dela, enquanto tentava argumentar, implorar. Os tiros vieram logo depois. Um no peito dela, outro no peito dele. E então silêncio. Silêncio que ainda ecoa dentro de mim. Eu fiquei parada, com o corpo coberto pelo sangue deles, sem saber se respirava, sem saber se chorava. Eu não tinha mais nada. Eu não tinha mais ninguém. Foi Dona Zuleide, a vizinha da frente, quem entrou correndo quando ouviu o barulho. Uma mulher gorda, de pele n***a e sorriso bondoso, mas de voz firme, que sempre cuidou das crianças do beco como se fossem dela. Foi ela quem me tirou dali, quem me abraçou quando o corpo da minha mãe ainda estava quente. Foi ela quem não deixou que eu fosse levada pelo Conselho Tutelar, porque eu me agarrei às pernas dela e implorei pra ficar. “Eu cuido dessa menina”, ela disse, firme, diante dos homens que vieram recolher os corpos. E cuidou. Dona Zuleide nunca teve filhos, mas a casa dela era cheia de vida. Crianças iam e vinham, vizinhos pediam ajuda, e ela nunca negava um prato de comida a ninguém. Foi com ela que aprendi a cozinhar arroz soltinho, a passar roupa sem queimar e até a me defender quando alguém tentava me intimidar. Ela dizia que eu tinha a força da minha mãe nos olhos, mas confesso que, muitas vezes, eu não via nada além de dor no reflexo do espelho. Os anos passaram, e eu cresci com a sensação de estar sempre em dívida com a vida. Eu estudava numa escola pública do asfalto, mas o morro nunca deixou de me lembrar onde era o meu lugar. A cada sirene de polícia, a cada grito no beco, eu revivia aquela noite. Muitas vezes pensei em sair dali, arrumar qualquer trabalho e fugir. Mas Dona Zuleide envelheceu rápido, a saúde dela já não era a mesma, e eu não consegui abandoná-la. Se ela me salvou, eu não poderia virar as costas quando ela mais precisava de mim. Hoje, aos 18, eu sei que carrego marcas que não aparecem. Não falo muito, porque aprendi que, no morro, quem fala demais morre cedo. Tenho medo de me apegar, porque tudo o que eu amei já me foi tirado uma vez. Mas também sei que, dentro de mim, existe uma parte que ainda sonha com um futuro diferente, mesmo que pareça impossível. O que eu não sabia naquela época é que o destino já estava preparando um novo encontro para mim. Um encontro que mudaria tudo. Um encontro com um homem que carregava a morte nos olhos, mas que, de alguma forma, me devolveria a vida. O nome dele? Rafael. Mas aqui no morro, todos o chamam de Espectro.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD