(Narrado por Marina)
Acordei antes mesmo do despertador tocar. O sol m*l tinha subido no céu, mas já iluminava os becos estreitos que se enroscavam pela favela. Minha vida sempre foi feita de rotina, de pequenas batalhas que ninguém vê: correr atrás de trabalho, segurar as contas, fugir das tentações que o morro oferece e, principalmente, manter a cabeça erguida quando tudo parece querer me derrubar.
Olhei para o teto da casa simples onde meus pais morreram naquele assalto maldito. O silêncio da manhã só era cortado pelo barulho de crianças rindo na rua e pelo funk que alguém, sabe-se lá porquê, já tocava alto antes das sete. Respirei fundo. Era mais um dia.
No espelho trincado da minha sala, vi meu reflexo: cabelos castanhos soltos até a cintura, pele clara queimada pelo sol e olheiras denunciando minhas noites m*l dormidas. Eu me esforço para parecer forte, mas às vezes me sinto como vidro prestes a rachar.
Peguei minha mochila gasta, joguei dentro a marmita que D. Zuleide tinha preparado para mim ontem à noite — feijão, arroz e um pedaço pequeno de carne. Ela é como uma segunda mãe. Se não fosse por ela, eu teria me perdido no meio do caminho, virado estatística de favela.
O trajeto até o asfalto nunca é tranquilo. Cada passo entre os becos é um exercício de sobrevivência: olhar para os lados, evitar cruzar os olhos com os soldados armados, e fingir que não vê nada. A lei aqui é outra, e eu aprendi cedo a respeitar.
Quando cheguei no ponto do ônibus, já estava suada. O asfalto parece outro mundo. As pessoas estão apressadas, mas livres. Ninguém desconfia de nada, ninguém carrega o peso do morro nas costas.
Meu trabalho é em uma lanchonete no centro. Atendo gente que nunca vai imaginar de onde eu venho. Sorrio, sirvo café, ouço reclamações e guardo para mim o contraste brutal: aqui, as maiores preocupações são filas e atrasos; lá em cima, uma bala perdida pode decidir seu destino.
No intervalo, mexi no celular, sem muitas mensagens. Amigos? Poucos. Namoros? Nenhum. Eu não tenho tempo para ilusões. Mas, às vezes, me pergunto se existe alguém capaz de enxergar além da minha casca, alguém que não veja apenas a menina órfã da favela.
Voltei para casa tarde, com os pés doloridos e a cabeça pesada. O morro estava movimentado, como sempre à noite: motos passando rápido, rádios comunicando os soldados, e a tensão no ar que nunca se desfaz.
Enquanto subia os degraus, vi uma figura parada na esquina, iluminada apenas pelo reflexo das luzes alaranjadas dos postes. Ele parecia parte da sombra. Alto, forte, tatuagens escondidas sob a camisa preta colada ao corpo. Não precisava perguntar quem era. O Espectro era impossível de confundir.
O corpo inteiro doía quando cheguei em casa. Larguei a mochila no sofá e fui direto para o banheiro. A luz fraca, amarelada, tremeluzia como sempre, mas era o suficiente. Girei o registro e deixei a água escorrer, morna, levando consigo a poeira do morro, o suor do ônibus lotado e o cansaço de horas em pé na lanchonete.
Me olhei no espelho antes de entrar. Vi as marcas nos meus olhos — olheiras fundas, expressão cansada — e pensei em como a vida tinha sido dura comigo desde cedo. Às vezes sinto que o mundo já me arrancou tudo o que eu poderia oferecer. Ainda assim, continuo.
Tirei a roupa devagar, sentindo o frio do azulejo me arrepiar, e entrei sob o chuveiro. A água deslizou pela minha pele, escorrendo pelos ombros, pelas costas, pelos cabelos longos que caíam como um véu. Fechei os olhos. No barulho constante da água batendo contra o chão, encontrei um pedaço de silêncio que raramente tenho.
Esfreguei o corpo com calma, como se cada movimento fosse um pedido para apagar as dores do dia. Mas quanto mais eu tentava me desligar, mais a imagem dele vinha à minha mente.
O Espectro.
Não sei o porquê. Eu m*l conheço aquele homem, nunca troquei uma palavra sequer com ele. Só o vejo de longe, parado nas esquinas como se fosse dono da noite, com aquele olhar que parece atravessar a alma. Talvez seja justamente isso: a maneira como ele carrega o silêncio. Como se fosse mais do que apenas violência.
Tentei afastar o pensamento. Não faz sentido me interessar por alguém como ele. Eu sei exatamente o que acontece com quem se envolve nesse mundo. Já perdi demais. Não quero me afundar em outra dor.
Mas o rosto dele insistia em voltar. O maxilar forte, as tatuagens escondidas sob a camiseta, a forma como a sombra parecia se moldar ao redor do corpo dele. E, principalmente, os olhos. Negros, intensos, como se guardassem um segredo que ninguém poderia decifrar.
Me peguei imaginando como seria ouvir a voz dele, grave e firme, falando diretamente comigo. Ou sentir a presença dele tão perto que eu pudesse notar a respiração. Meu coração acelerou só de pensar.
— Para com isso, Marina — murmurei sozinha, abrindo os olhos e encarando o azulejo gasto à minha frente.
— Ele não é para você.
Respirei fundo e deixei a água escorrer mais um pouco antes de fechar o registro. Enrolei-me na toalha, enxuguei os cabelos e segui para o quarto.
Deitei na cama com um suspiro. O colchão gasto afundou sob meu peso, mas, naquele instante, parecia o lugar mais confortável do mundo. As luzes da rua entravam pelas frestas da janela, iluminando o quarto de forma suave.
Fechei os olhos tentando relaxar. Só que, em vez de encontrar descanso, minha mente voltou para a esquina onde o vi. Aquela presença imponente, aquele jeito de se mover sem pressa, como se tivesse o controle de tudo.
Será que ele já me notou de verdade? Será que aquele olhar que senti era real, ou apenas coisa da minha cabeça cansada?
Puxei o cobertor até o queixo e fiquei ali, entre o sono e o pensamento. Eu sabia que deveria esquecer. Que pensar nele só traria problemas. Que homens como o Espectro não trazem paz, só destruição.
Mesmo assim, uma parte de mim — a mesma que ainda sonha, apesar de todas as perdas — sussurrava que talvez houvesse algo diferente nele. Algo que ninguém mais vê.
Adormeci com esse conflito queimando dentro de mim. Entre o medo e a curiosidade. Entre o certo e o errado. Entre o que eu sou e o que, talvez, um dia eu poderia ser ao lado daquele homem feito de sombras.