(Narrado por Rafael)
Me chamam de Espectro.
Ninguém ousa dizer meu nome verdadeiro. Rafael ficou perdido em algum canto da minha infância, junto com a inocência que arrancaram de mim quando ainda era moleque. Hoje, sou só uma sombra que anda pelos becos, um vulto que aparece quando alguém precisa morrer.
Tenho 27 anos, sou alto, pele morena de sol, corpo marcado por cicatrizes de balas e facas. Meus cabelos são pretos, sempre cortados curtos, e os olhos escuros, fundos, carregam um peso que nenhum espelho suporta por muito tempo. As pessoas dizem que, quando eu encaro, dá pra sentir o frio da morte. Talvez seja verdade.
Minha rotina é simples: acordo, treino meu corpo para não perder o reflexo, limpo minhas armas e espero a ordem. Vivo num quarto pequeno no alto do morro, de onde consigo ver quase tudo. Não tenho família, não tenho amigos.
Só dever.
Só a facção.
Fui criado no abandono. Minha mãe morreu de overdose quando eu tinha 8 anos, e meu pai nunca foi conhecido. Fui largado, passando de casa em casa, até que o crime me adotou.
Aos 12, já carregava recados para o tráfico. Aos 14, já segurava arma.
Aos 16, matei meu primeiro homem.
Foi ali que nasceu o Espectro.
Frio, calculista, sem dó.
Eu não sinto remorso. Ou, pelo menos, aprendi a esconder bem. A vida me ensinou que quem hesita morre, e eu me tornei o melhor justamente porque nunca tremi diante da morte. Cada vez que puxo o gatilho, lembro que é matar ou morrer. Eu escolhi viver.
A facção me respeita porque nunca falhei. Quando o patrão manda, eu cumpro. Não questiono, não reclamo. Só executo. Isso me deu fama de imparável, de invisível. Um fantasma que aparece, faz o trabalho e some. O Espectro.
Mas a verdade é que eu também sou humano, por mais que tente esconder. Às vezes, de madrugada, quando a favela silencia e só o vento bate nas telhas soltas, eu lembro da infância. Lembro de uma mulher de cabelos claros, caída no chão com uma seringa ao lado. Lembro do cheiro podre de uma casa esquecida. Lembro do vazio. E é nesse vazio que eu moro desde então.
Eu não tenho sonhos. Não acredito em amor, não acredito em futuro. Vivo o presente como quem vive um castigo eterno.
Ou melhor, vivia.
Até o dia em que recebi uma ordem que mudou tudo.
“Espectro, tem uma garota que viu mais do que devia. Elimina ela.”
Simples. Mais um trabalho. Mais um rosto que se apagaria da memória do morro. Eu não sabia ainda, mas aquela garota seria a única capaz de me enxergar por trás da máscara.