Capítulo 5
MAYA NARRANDO
Assim que eu acordei já me arrumei e fui para o trabalho. Mas eu logo percebi que o morro tava diferente hoje.
Eu senti antes mesmo de chegar perto da boca. Não era o barulho, porque o barulho era o mesmo de sempre, gente falando alto, moto subindo, música vindo de algum lugar, criança correndo. Mas tinha outra coisa aqui no meio, escondida. Uma tensão pesada, daquelas que você não vê, mas sente na pele.
Eu fui subindo mais devagar, prestando atenção nos detalhes. Tinha mais homem armado que o normal. Mais gente parada nos cantos, olhando mais do que o necessário. O tipo de clima que deixa qualquer um mais atento sem precisar explicar o porquê.
Quando cheguei na boca, vi o Breno encostado na parede, com o rosto sério, diferente do dia anterior. Ele me olhou e já falou baixo, sem rodeio.
— Fica na tua hoje.
Franzi a testa, me aproximando um pouco mais.
— Por quê?
Ele deu uma olhada rápida em volta antes de responder, ainda mais baixo.
— O patrão tá puro ódio.
Isso desceu pesado.
— O que aconteceu?
— Rival tentando avançar. Quer tomar território.
Eu senti o estômago apertar. Não era coisa pequena. Isso era problema grande.
— E aí?
— E aí que hoje ninguém erra, Maya. Hoje não é dia.
Assenti. Não precisava de mais explicação. Eu entendi na hora. Hoje era dia de cabeça baixa, silêncio e atenção.
Entrei.
O ambiente tava mais carregado que no dia anterior. Ninguém conversava à toa. Não tinha riso, não tinha distração. Era só movimento e foco. Cada um no seu lugar, fazendo o que tinha que fazer.
Fui direto pro meu canto, sentei e comecei a trabalhar. Minhas mãos se mexiam no automático, mas minha cabeça não tava tranquila. Cada barulho me deixava alerta. Cada passo mais firme fazia meu corpo reagir sem eu querer.
Eu tentava me concentrar, mas o clima não deixava.
Foi quando eu senti.
A mesma coisa do dia anterior.
Aquela mudança no ar.
Pesada.
Silenciosa.
Como se todo mundo tivesse ficado mais atento ao mesmo tempo.
Eu levantei o olhar devagar.
E vi.
Cairo.
Hoje ele tava diferente. Não na aparência, mas na presença. Mais carregado, mais frio, mais perigoso. O tipo de homem que não precisa falar nada pra você entender que alguma coisa grande tá prestes a acontecer.
Ele entrou sem pressa, mas tudo ao redor dele se ajustou. Os homens ficaram mais rígidos, o silêncio aumentou, o ambiente pareceu se alinhar sozinho.
Eu deveria ter abaixado o olhar.
Na mesma hora.
Como fiz no dia anterior.
Mas não abaixei.
Fiquei olhando.
E foi aí que eu percebi uma coisa que eu não tinha deixado claro pra mim mesma antes.
Ele era bonito.
Mas não era um bonito leve. Não era aquele tipo que chama atenção de forma fácil. Era pesado. Marcado. O tipo de beleza que vem junto com problema.
O maxilar travado, o olhar fechado, o corpo firme, tatuagem aparecendo no braço. Ele não precisava fazer esforço nenhum pra ser notado. Ele simplesmente era gostoso pra porrä.
Um deus grego.
E eu fiquei olhando mais do que devia.
Quando percebi, já era.
Desviei o olhar rápido, voltando pro que tava fazendo, mas a imagem já tinha ficado na minha cabeça.
E junto com ela, veio o pensamento.
Idiotä.
Sem sentido.
Perigoso.
Eu me peguei imaginando como seria ele me beijando.
Meu corpo travou na hora.
Eu parei por um segundo, sentindo isso subir como um choque.
Que porrä foi essa?
Balancei a cabeça de leve, tentando afastar o pensamento, como se fosse só uma besteirä que passou.
Mas não passou.
Veio de novo.
Mais claro.
Mais nítido.
E junto com ele, um arrepio subiu pelas minhas costas.
Eu engoli seco e voltei a mexer as mãos, mais rápido agora, tentando me forçar a focar no que tava fazendo.
Isso não era normal.
Não fazia sentido nenhum.
Eu nem conhecia ele. Nunca tinha trocado uma palavra. Nunca cheguei perto de verdade.
E mesmo assim minha cabeça tava indo pra um lugar que não devia.
Eu soltei um ar baixo, irritada comigo mesma.
Só pode ser a drogä.
Só pode.
O cheiro, o ambiente, o contato demorado com isso.
Deve tá mexendo comigo.
Não tem outra explicação.
Porque eu não sou assim.
Nunca fui.
Muito menos com um homem desse tipo.
Aquele ali não era homem pra olhar.
Era homem pra evitar.
E mesmo assim meu olhar queria voltar.
Eu segurei.
Forte.
Não olhei.
Mas senti.
Senti quando ele passou mais perto de novo.
Meu corpo reagiu antes da minha cabeça, ficando tenso, atento.
E isso só me irritou mais.
Porque além de tudo, eu sabia.
Sabia que isso não era só impressão.
Ele tinha me notado.
De novo.
E dessa vez, o clima do morro inteiro deixava isso mais claro ainda.
Hoje não era dia de chamar atenção.
Mas de algum jeito eu já tava chamando.