A palavra ficou presa na garganta de Lívia.
— Saimon, eu preciso te contar —
A porta se abriu antes que ela pudesse terminar.
— Lívia, eu trouxe.
Lucas entrou no quarto sem pedir permissão, o sorriso automático já pronto, um buquê de lírios brancos em uma mão e, na outra, uma marmita térmica ainda quente. A frase morreu no meio quando ele percebeu que não estavam sozinhos.
O ar mudou.
A presença de Saimon ocupava o espaço de forma silenciosa e dominante. Ele estava de pé ao lado da cama, alto, rígido, a mão ainda muito próxima do rosto de Lívia — íntimo demais para ser ignorado.
Os olhos de Lucas passaram rapidamente de Lívia para o homem ao lado dela.
— Eu, — Lucas pigarreou, confuso. — Não sabia que você tinha visita.
— Não é visita — Saimon respondeu antes que Lívia dissesse qualquer coisa. A voz saiu baixa, controlada demais. — Sou o marido dela.
O silêncio que se seguiu foi pesado, quase agressivo. Lucas apertou levemente a marmita, como se só então percebesse o quanto aquela cena se tornou ridícula por sua causa.
— Eu só vim ver como ela estava. — disse, defensivo. — Trabalhamos juntos. Sou amigo dela e, cunhado.
— Amigo — Saimon repetiu, sem emoção aparente, mas os olhos verdes estavam atentos demais, avaliadores. — Que entra no quarto de hospital sem bater.
Lívia sentiu o estômago revirar — não de enjoo, mas de tensão.
— Lucas. — ela chamou, tentando amenizar. — Eu estou bem. Você não precisava.
— Você não tem se alimentado direito — ele interrompeu, colocando a marmita sobre a mesa ao lado da cama. — Trouxe sua sopa preferida. A que você sempre pede quando passa m*l.
Saimon olhou para o recipiente. Depois para Lívia.
Algo imperceptível mudou em sua expressão. Não era raiva explosiva. Era algo mais perigoso: silêncio carregado de conclusões.
— Você tem sido muito solícito — comentou, finalmente. — Mais do que eu imaginava.
Lucas franziu o cenho.
— Eu me preocupo com ela.
— Imagino — respondeu Saimon, num tom educado demais para ser confortável.
Lívia sentiu a urgência crescer dentro de si. O momento estava escapando. O segredo que pulsava em seu corpo parecia exigir espaço, verdade, ar.
— Lucas, obrigada. — disse, firme agora. — Mas você pode ir. Eu preciso conversar com meu marido.
Lucas hesitou. Seus olhos buscaram os dela por um instante longo demais. Depois assentiu, forçando um sorriso.
— Claro. Melhoras, Lívia.
Antes de sair, lançou um último olhar a Saimon — não exatamente hostil, mas carregado de algo não resolvido.
A porta se fechou.
O quarto pareceu menor.
Saimon soltou um suspiro lento, passando a mão pelo rosto. Não olhou para ela imediatamente.
— É por isso — disse, enfim. — É por isso que eu não consegui ficar em paz longe de você.
— Saimon, não—
Ele se virou.
— Você ainda permite que ele ocupe espaços que não devia — completou, sem elevar a voz. — E eu fico me perguntando se sou eu quem está exagerando, ou se sou o único levando esse casamento a sério.
O coração de Lívia apertou. Ela levou a mão ao ventre sem perceber, um gesto instintivo, protetor.
— Olha pra mim. — pediu.
Ele obedeceu.
— Você está errado — disse ela, com firmeza suave. — E eu precisava te contar algo antes que ele entrasse.
Saimon estreitou levemente os olhos, atento.
— O quê?
Lívia respirou fundo. Agora não havia mais como adiar.
— Saimon, eu estou grávida.
O mundo parou.
Saimon cedeu na cadeira ao lado da cama como se o corpo tivesse decidido por ele.
O impacto não veio em forma de palavras, mas de silêncio.
Ele olhou primeiro para o ventre ainda liso de Lívia, como se esperasse ver ali algum sinal visível daquela revelação e depois subiu o olhar até o rosto dela. Os olhos estavam marejados, apreensivos, buscando nele algo que ela mesma ainda não tinha certeza de merecer: acolhimento.
— Seis semanas — ela disse, a voz baixa, quase cuidadosa demais. — Mais ou menos isso.
Ele assentiu lentamente, como quem tenta acompanhar uma conversa em outro idioma.
— Os exames também mostraram anemia. — continuou ela. — O médico disse que preciso me cuidar. Que no início, — engoliu em seco — no início da gravidez isso pode ser arriscado.
Saimon passou a mão pelo rosto, demoradamente. O mundo parecia ter sido reorganizado em segundos, e ele ainda tentava entender onde tudo se encaixava agora.
Um filho.
Deles.
Algo dentro dele se contraiu — medo, surpresa, responsabilidade — tudo misturado. Mas, por baixo de tudo isso, algo inesperado floresceu. Um calor quase perigoso. Um sentimento que ele não se deu ao trabalho de censurar.
Uma parte dele se rejubilava.
Talvez fosse egoísta. Talvez fosse errado.
Mas a ideia de Lívia carregar algo que era dele, criado entre eles, o atravessou com uma força avassaladora. Não como posse vazia, mas como um vínculo impossível de negar, impossível de romper.
Ela não era mais apenas sua esposa por tradição.
Ela estava ligada a ele de uma forma definitiva.
— Você — ele começou, mas a voz falhou. Limpou a garganta. — Você estava sozinha com isso?
Lívia balançou a cabeça lentamente.
— As mães sabem. Só elas. — respirou fundo — antes que você pensasse qualquer outra coisa. Soubemos ainda a pouco.
Ele fechou os olhos por um instante.
As fotos.
Lucas.
A distância.
O orgulho.
Tudo pareceu pequeno diante daquela verdade.
Quando abriu os olhos novamente, levantou-se devagar e se aproximou da cama. Ajoelhou-se diante dela, o gesto impulsivo demais para ser pensado, e pousou a mão sobre o ventre dela — com cuidado, quase reverência.
Ainda não havia nada ali que ele pudesse sentir.
Mas ele acreditava.
— Eu não fazia ideia. — murmurou. — Nenhuma.
Os dedos se fecharam levemente no lençol.
— Isso muda tudo. — disse, não como ameaça, mas como constatação profunda. — Absolutamente tudo.
Lívia observou o rosto dele, tentando decifrar o que vinha agora. Medo? Raiva? Alegria?
Saimon ergueu o olhar até ela.
— Você não vai passar por isso sozinha — afirmou, com firmeza. — Não importa o que aconteceu antes. Não importa o que eu pensei que vi. — Inspirou fundo. — Você é minha esposa. E esse filho é meu.
Havia algo intenso demais em seu tom, algo quase possessivo, sim — mas também protetor, decidido, incontestável.
Ele se inclinou um pouco mais, a testa tocando o lençol próximo ao corpo dela.
— Eu devia ter ficado. — admitiu, em voz baixa. — Nunca devia ter deixado você aqui sem mim.
Lívia sentiu as lágrimas finalmente escaparem.
O destino, caprichoso como sempre, tinha escolhido o momento mais frágil para uni-los de vez.
Saimon levantou-se e ajustou o encosto da cama com cuidado, como se cada gesto fosse pensado duas vezes.
— Deita melhor — pediu. — Você está pálida.
Ela obedeceu sem discutir, e isso não passou despercebido por ele.
Ele puxou a cadeira para mais perto, apoiou os antebraços no colchão e tomou a mão dela entre as suas. Estava fria demais.
— Você quase não comeu, não é? — perguntou.
Lívia deu de ombros.
— Eu tentei.
Ele apertou os dedos dela de leve.
— Tentar não é suficiente agora.
Não havia reprovação na voz dele. Só preocupação. Uma preocupação crua, desarmada, diferente do controle que ele costumava exercer sobre tudo.
— Minha mãe vai cuidar da alimentação — continuou. — E eu vou ficar aqui. O tempo que for preciso.
Ela franziu o cenho.
— Saimon, sua empresa—
— Que espere. — interrompeu, sem hesitar. — Nada do que está lá é mais importante do que você. Ou do que isso aqui que está se gerando em você. — O olhar dele desceu novamente até o ventre dela.
Ele parecia fascinado e aterrorizado ao mesmo tempo.
— Eu devia ter percebido — murmurou. — Você estava cansada demais. Mais sensível. E eu estava ocupado demais, magoado demais para enxergar.
Lívia sentiu os olhos arderem.
— Eu também nunca disse que estava me sentindo doente.
Ele balançou a cabeça.
— Não. — Aproximou-se mais. — Eu devia ter ficado. Devia ter te buscado. Devia ter engolido meu orgulho e voltado no dia seguinte.
O polegar dele começou a desenhar círculos lentos na pele dela, um gesto inconsciente, protetor.
— Eu não sei ser metade das coisas — confessou. — Quando eu vou, eu vou inteiro. Quando eu fico. — ergueu o olhar para ela — eu fico inteiro também.
Ela respirou fundo, sentindo o peso e o conforto daquelas palavras.
— Isso me assusta um pouco. — admitiu.
Um canto da boca dele se curvou, quase um sorriso.
— A mim também.
Ele se inclinou e depositou um beijo leve na testa dela. Nada possessivo. Nada urgente. Apenas presente.
— Descansa — disse. — Eu estou aqui agora. Não vou a lugar nenhum.
E, pela primeira vez desde que acordara naquele quarto de hospital, Lívia acreditou de verdade que podia fechar os olhos sem medo.
As atitudes de Saimon — firmes, silenciosas, desprovidas de qualquer cálculo — fizeram Lívia revisitar cada dia do último mês.
Ele não hesitou. Não negociou. Não ponderou perdas.
A decisão dele fora simples e definitiva: ficar.
Ficar na ilha.
Ficar com ela.
Ficar pelo filho que ainda m*l se anunciava em seu ventre.
E isso, mudou tudo.
Lívia estava sentada na cama, as costas apoiadas nos travesseiros, observando-o em silêncio. Saimon permanecia na cadeira ao lado, a testa apoiada na borda do colchão, os olhos fechados pelo cansaço que finalmente cobrava seu preço. Uma das mãos repousava sobre o ventre dela, como se aquele gesto fosse instintivo — uma âncora.
Ele parecia vulnerável de um jeito que ela jamais imaginara ver.
Não o empresário seguro, nem o homem intenso que comandava espaços com a voz e o olhar. Mas alguém exposto, cansado, inteiro ali. Presente.
E, pela primeira vez, Lívia sentiu-se verdadeiramente segura.
Compreendeu, então, o que a prendia à ilha.
Não era o trabalho.
Não eram os pais.
Não era Lucas — nem o passado, nem o hábito, nem a história m*l resolvida.
Era o medo.
O medo de deixar tudo o que conhecia e ir ao encontro de Saimon para, mais tarde, descobrir que também não fora amada de verdade.
Lucas ficara ao seu lado por dois anos apenas porque ela fora uma ponte — uma sombra do que ele realmente desejava. Uma ligação constante com Judith. Lívia sempre fora o meio, nunca o destino.
E, no fundo, ela temera que Saimon fosse o mesmo.
Que a quisesse apenas porque o destino os empurrara um para o outro.
Porque a tradição os unira.
Porque agora havia um filho.
Mas não.
O homem diante dela estava disposto a abrir mão de tudo — da empresa, da cidade, da própria rotina — para estar ali.
Por ela.
Aquilo não era apego. Não era conveniência.
Era escolha.
Lívia respirou fundo, sentindo o peso e a leveza dessa compreensão se acomodarem dentro de si. Pegou o celular sobre a mesa de cabeceira, desbloqueou a tela e abriu o arquivo que já estava pronto há dias.
O pedido de desligamento.
Leu uma última vez. Sem lágrimas. Sem hesitação.
O relógio marcava quase meia-noite quando apertou “enviar”, encaminhando o e-mail para a secretaria da cidade.
A decisão estava tomada.
Ela não permitiria que Saimon negligenciasse a própria vida para permanecer ali. Não agora que sabia que ele ficaria — não por obrigação, mas por amor.
Não se sentia egoísta por ter precisado daquela prova.
Precisara sentir. Precisara ver.
E ele lhe dera exatamente isso.
Lívia pousou a mão sobre a dele, ainda em seu ventre, entrelaçando os dedos com cuidado. Não diria nada ainda. Precisava se fortalecer primeiro. Precisava cuidar de si — e do pequeno coração que começava a bater dentro dela.
Mas a decisão já estava feita.
Instalada.
Firme.
Irrevogável.
E, enquanto Saimon dormia encostado à cama, sem saber que ela acabara de escolher ir ao encontro dele.
Lívia sorriu, certa de que, desta vez, não estava fugindo.
Estava indo.