capítulo 18

1178 Words
— Quando nosso filho ou filha tiver idade para assumir os negócios, voltamos para Célia. — Saimon disse, a voz baixa, carregada de convicção. — Eu prometo. Lívia sorriu, um daqueles sorrisos que nascem do peito e aquecem tudo ao redor. Não havia dúvida nos olhos dele. Apenas futuro. — Antes de tudo. — ele continuou, como quem revela algo pensado com cuidado — eu já consegui uma entrevista pra você na Universidade de Atenas. Quando formos se desejar, poderá ir falar com eles. Ela o encarou surpresa, o coração acelerando. — Você já pensou nisso tudo? — Pensei em você. — corrigiu com suavidade. — No que te faz ser quem é. Lívia riu baixo, emocionada, e balançou a cabeça. — Então é por isso que meu pai parecia tão calmo esses dias. — murmurou. — Quando você decidiu que iria comigo para Atenas? Lívia respirou fundo antes de responder. O olhar se perdeu por um instante, como se revisitasse aquele momento exato. — No hospital — disse enfim. — Quando você disse que nada era mais importante do que cuidar de mim. Ele pousou a mão novamente sobre o ventre dela, gesto que já se tornara natural, necessário. — Ali eu entendi — continuou, ela. — Que eu podia perder qualquer coisa, menos você. Lívia sentiu os olhos arderem. Encostou o rosto no peito dele, ouvindo o coração firme, presente. Ali, entre promessas simples e decisões definitivas, o amor deixou de ser medo. Virou escolha. Virou lar. ... Lívia caminhava sem pressa pelas ruas de pedra da ilha, sentindo o sol suave da tarde aquecer-lhe a pele. Entrou em pequenas lojas, escolheu tecidos leves, vestidos mais soltos, observando com um misto de surpresa e ternura o reflexo do próprio corpo nas vitrines. A cintura já não era a mesma — havia ali um início discreto de curva, um segredo crescendo silencioso dentro dela. Sorriu sozinha. Não de vaidade, mas de aceitação. Ao sair de uma das lojas, ajeitando a sacola no braço, ouviu o próprio nome ser chamado. — Lívia. O tom era conhecido demais para ser ignorado. Ela parou. Lucas estava alguns passos atrás, as mãos nos bolsos, o semblante tenso como alguém que ensaiara aquela abordagem inúmeras vezes e ainda assim não sabia por onde começar. — Eu, — ele pigarreou, aproximando-se. — Posso falar com você um instante? Lívia sentiu o corpo enrijecer levemente. Não por medo. Mas por cansaço. Ainda assim, assentiu. — Pode. Caminharam até a sombra de uma figueira próxima. O silêncio entre eles era pesado, carregado de tudo que nunca fora dito — ou dito tarde demais. Lucas respirou fundo. — Desde a noite de Afrodite, tem algo me corroendo. — confessou, finalmente olhando nos olhos dela. — Eu tentei ignorar. Fingir que passou. Mas não passou. Lívia cruzou os braços, não como defesa, mas como quem se prepara para ouvir algo difícil. — Então diga, Lucas. Ele passou a mão pelos cabelos, inquieto. — Quando te vi ali, escolhida pela deusa, enquanto o sacerdote abençoava você e seu marido. — engoliu em seco. — Eu senti como se tivesse perdido algo que nunca tive coragem de assumir. Ela franziu levemente a testa. — Você disse que esteve comigo apenas porque eu lembrava minha irmã — lembrou, a voz calma, mas firme. — Foram suas palavras. — Eu sei. — respondeu rápido. — E me arrependo delas todos os dias. Não era mentira, mas também não era toda a verdade. Lívia manteve o olhar fixo nele, sem ceder um centímetro. — E qual é a verdade agora? Lucas respirou fundo, como quem se lança de um precipício. — Que eu errei. Que te machuquei. E que só percebi o tamanho disso quando te perdi. O silêncio caiu entre eles. Ao longe, ouviam-se vozes da vila, o som do mar quebrando nas pedras. Lívia levou a mão instintivamente ao ventre, gesto pequeno, mas definitivo. — Lucas — disse, com suavidade e clareza — isso que você sente chegou tarde. Ele seguiu o movimento da mão dela, e algo se quebrou em seu olhar. — Eu sei — murmurou. — Eu vi você diferente. Mais plena. — Estou — confirmou. — E não é algo que eu esteja disposta a colocar em risco. Nem por dúvidas, nem por arrependimentos. Lucas assentiu devagar, como quem recebe uma sentença que já esperava. — Eu precisava dizer. — concluiu. — Mesmo sabendo que não mudaria nada. Queria pedir perdão. Sei que não mereço, mas, queria pedir mesmo assim. Lívia deu um pequeno sorriso triste, mas honesto. — Às vezes, dizer não é para mudar o fim. — respondeu. — É só para aceitar que ele chegou. Eu perdôo você Lucas. Seja muito feliz. Ela se afastou, retomando o caminho pela ilha, sentindo o peso do passado finalmente ficar para trás. E, pela primeira vez desde a noite de Afrodite, Lucas ficou ali, parado, entendendo que a deusa havia escolhido certo. Certo para Lívia. Saimon havia parado o carro a uma curta distância da praça quando a viu. Lívia estava de frente para Lucas, o corpo sereno, os gestos contidos. Ele reconheceu de imediato a cena — não pelo que parecia, mas pelo que não parecia. Não havia tensão, nem proximidade excessiva, nem aquele fio invisível que denuncia algo m*l resolvido. Ainda assim, o impulso veio. Saimon segurou o volante com mais força, o instinto gritando para descer, intervir, marcar território. Mas não o fez. Respirou fundo. Confie, disse a si mesmo. Confie nela. Confie no que construíram. Deu a volta no quarteirão e estacionou poucos metros adiante. Quando Lívia surgiu com as sacolas nas mãos, o rosto tranquilo, ele soube que fizera a escolha certa. Ela abriu a porta do carro e entrou sorrindo, inclinando-se para deixar um beijo macio em seus lábios — simples, íntimo, verdadeiro. — Eu vi e conversei com o Lucas — disse, enquanto ajeitava o cinto. Saimon não respondeu de imediato. Apenas a olhou, atento, oferecendo o silêncio como espaço para que ela continuasse. — Ele disse que se arrependeu do que falou naquele dia — completou. — E eu o perdoei. O coração dele bateu uma fração mais lento. — Perdoou? — perguntou, sem dureza. Apenas querendo entender. — Sim — Lívia confirmou, apoiando a mão sobre a dele. — Não quero carregar nenhum peso comigo. Minha irmã está com ele. Que sejam felizes. Ela respirou fundo, como se aquele ato tivesse encerrado algo antigo dentro de si. — Lucas precisava disso — acrescentou. — Mais do que eu precisava. Foi ali que Saimon compreendeu. Não havia sobrado dor, nem saudade, nem resquício. O perdão não vinha do amor que foi, mas da paz que agora existia. Ele levou a mão dela aos lábios e a beijou com ternura. — Então está tudo encerrado — murmurou. — Está — respondeu Lívia, sorrindo. Saimon ligou o carro, sentindo algo raro e precioso se acomodar em seu peito: certeza. Certeza de que aquela mulher ao seu lado escolhera ficar — não por destino, não por obrigação, mas por vontade. ...
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD