O morro não dorme, parceiro. Ele é um bicho vivo que respira ofegante, sempre com um olho aberto e o outro na maldade. Ele cochila, dá aquela fingida de que o clima tá calmo, mas o silêncio aqui é só o intervalo entre um tiro e o grito. Eu aprendi essa fita cedo, antes mesmo de ter barba na cara ou entender que o peso de um nome pode ser mais pesado que um fuzil nas costas. Naquela época, eu não era o Trovão. Era só o Zayon, um moleque de olhar aguçado, visão de águia, correndo descalço no cascalho quente, com a planta do pé curtida na ladeira e o estômago acostumado a roncar mais alto que rádio de pilha.
Mas o que faltava no meu prato, sobrava na minha postura. Eu tinha presença, tá ligado? Não era de abaixar a cabeça pra ninguém.
— Fica esperto, pivete — mandava a real um dos veteranos da contenção, dando aquele tapa de leve na minha nuca, só pra ver se o reflexo tava em dia. — Aqui no complexo, quem vacila vira saudade. Quem dorme no ponto acorda com a boca cheia de formiga.
Eu não queria ser só mais uma foto colada em poste ou nome riscado em muro de beco. Eu não queria virar história contada por outros. Eu queria ser o dono da caneta que escreve o destino dessa p***a toda. Desde novinho, eu já sacava a movimentação das peças no tabuleiro. Eu ficava de longe, encostado nos muros descascados, sacando quem era o dono da voz, quem abaixava o olhar, quem ria com falsidade e quem mantinha o bico fechado. Eu entendi o código de conduta sem precisar de manual: no morro, respeito não se ganha de brinde no pacote de salgadinho. Respeito se toma, se conquista no ferro e na palavra.
E eu ia tomar. Eu sentia isso queimando no peito, uma ambição que não cabia naquelas vielas estreitas. Mas antes da glória, antes do radinho no peito, da peça na cintura e do nome que faria os canas pensarem duas vezes antes de subir... existia o meu ponto fraco. A única coisa que me fazia humano. Existia a Raissa.
Ela não era dessas minas que tu olha e esquece, sacou? Mesmo quando era só uma menina de short jeans desfiado, chinelo de dedo e o cabelo preso num coque bagunçado que parecia uma coroa de bagunça. Raissa tinha uma luz que não batia com a escuridão daquele lugar. Era o jeito de ela caminhar, peito estufado, sem pedir licença pra atravessar o caminho de ninguém. Era a língua dela, que parecia uma navalha, não respeitava hierarquia de marmanjo e não baixava a guarda pra opressão. O riso dela era alto, escandaloso, um desaforo no meio do caos, como se ela tivesse avisando pra vida que ninguém ia sufocar o brilho dela.
— Tu ainda vai arrumar um B.O. gigante, sabia? — eu soltei uma vez, com aquela voz de quem já tava vendo além, enquanto observava ela peitar um cara que tinha o dobro do tamanho dela só porque o maluco foi escroto.
Ela deu meia volta, jogou aquela juba pro lado com um desdém que só ela tinha e abriu um sorriso que era puro veneno e mel ao mesmo tempo.
— E tu, bonitão? Tu vai é se meter neles junto comigo. Vai segurar o rojão ou vai correr?
Eu não disse nada na hora. Mas o meu silêncio era a maior resposta. Naquele exato segundo, o destino já tinha passado o cadeado. Raissa entrou na minha vida como um incêndio entra em mato seco no auge do verão: destruindo tudo que eu achava que sabia sobre controle e deixando só as cinzas do que eu era antes. A gente cresceu na manha, naquela parceria de quem divide o último gole de refri e o último sonho impossível. Não tinha essa de romance de novela no começo; era papo de sobrevivência. Dois cria que se reconheciam no meio da tempestade. Ela era o fôlego que me puxava pra superfície quando a realidade queria me afogar. Eu era o freio de mão que impedia ela de voar direto pro abismo.
— Tu não nasceu pra essa vida de cão, Raissa — eu mandei a real numa noite dessas, lá no ponto mais alto, onde as luzes da cidade lá embaixo parecem estrelas caídas no lixo. — Tu é muito grande pra esse pedaço de terra.
Ela deu uma risada curta, sentando no concreto frio do reservatório.
— E tu? Nasceu pra quê? Pra ser o rei do lixo? Pra virar o dono dessa p***a toda e passar o resto da vida contando os dias pra morrer?
Eu não pisquei. Meu olhar tava fixo no horizonte, já visualizando a coroa de espinhos.
— Nasci. É meu destino, Raissa. Ou eu mando, ou eu obedeço. E eu não nasci pra baixar a cabeça.
Ela ficou quieta por um tempo, o vento bagunçando o cabelo dela e trazendo o cheiro de pólvora e esgoto que nunca saía totalmente do ar. Depois, ela encostou o ombro no meu, um toque simples que valia mais que mil promessas de fidelidade.
— Então vira, Zayon. Vira logo pra eu ver se o teu trono vai ser de ouro ou de osso.
E eu virei, parceiro. Só que o caminho não teve nada de poético. Não foi uma subida limpa por uma escada de mármore. Foi um rastro de sangue, suor e traição. O caminho pro topo do Morro da Tormenta era um campo minado onde cada passo em falso significava a perda de um m****o ou da alma. Eu comecei no sapatinho, lá na base da pirâmide. Levei recado, segurei carga no sol a pino, servi de olheiro até a vista arder. Sempre observando. Sempre guardando cada informação na mente, como se fosse munição pro futuro. Eu não era o mais troncudo da contenção. Nem o mais velho da hierarquia. Mas eu era o mais gelado. O meu sangue parecia nitrogênio líquido correndo nas veias. Enquanto os outros moleques entravam em choque no meio do tiroteio, eu mantinha o dedo firme. Enquanto a maioria falava demais pra esconder o medo, eu ficava mudo, calculando a distância, o vento e a maldade alheia.
— Esse menor aí tem a mente de mestre — começaram a cochichar pelos cantos.
E eu tinha mesmo. Cabeça e uma ambição que não me deixava dormir. Quando o "homem" passou a primeira peça pra minha mão, eu não senti o peso do metal. Senti o peso do poder. Quando tive que apertar o gatilho pela primeira vez pra eliminar um rato que tava atravessando o esquema, minha mão não tremeu. Não foi por prazer sádico. Não foi por orgulho. Foi puramente decisão logística. No mundo onde eu escolhi viver, a decisão vale dez vezes mais que o sentimento.
Mas a única falha no sistema, a única engrenagem que ainda rangia dentro de mim, tinha nome e sobrenome. Raissa. Ela via o que eu tava me tornando e o nojo brilhava nos olhos dela.
— Tu tá virando um monstro, Zayon — a voz dela saiu pequena, mas me cortou como se fosse uma faca cega. — Esse lugar tá te mastigando vivo. Tu acha que tá mandando, mas tu é só o escravo mais caro desse morro.
Eu dei um riso de canto, seco, sem alma.
— Eu não vou ser engolido, pretinha. Eu vou ser o dono da boca que mastiga. Entende de uma vez.
— E quando isso te custar tua alma? Quando não sobrar nada desse moleque que corria comigo?
Eu dei de ombros, ajustando a arma no coldre com uma naturalidade assustadora.
— Alma não paga as contas da minha velha. Alma não protege a fronteira. Se eu tiver que entregar a minha pra garantir que ninguém vai pisar no meu pescoço, que seja.
Foi a primeira vez que eu vi uma lágrima escorrer pelo rosto dela por minha causa. E eu, no auge da minha frieza recém-adquirida, fingi que não vi. Porque se eu olhasse de verdade, eu ia sentir. E sentir é o primeiro passo pra virar alvo. O tempo voou, a guerra estancou e o meu nome começou a ecoar nos quatro cantos da cidade. Eu já não era mais o moleque que levava recado. Eu era a peça principal. Respeitado por uns, odiado por muitos, temido por todos. Cada vez mais alto, cada vez mais solitário no topo do mundo de concreto.
Raissa tentou, mano. Ela tentou segurar o que restava do homem que ela conhecia.
— Vem comigo — ela implorou numa madrugada chuvosa, as mãos dela tremendo nos meus ombros. — A gente mete o pé, some no mapa. Tu tem grana, a gente recomeça em qualquer lugar onde o sol não tenha cheiro de ferro. Tu não precisa desse trono de sangue.
Eu fiquei mudo. Meu coração gritava pra eu largar tudo e correr com ela. Mas o morro já tinha se entranhado nos meus ossos. Eu era o Morro da Tormenta. Sem o poder, eu não sabia mais quem eu era.
— Eu não fui feito pra fugir, Raissa. Eu sou a tempestade. E a tempestade não recua.
Ela fechou os olhos, e eu senti o momento exato em que o fio que unia a gente arrebentou. Foi um barulho silencioso, mas ensurdecedor.
— Então tu já escolheu. O trono é mais importante que eu.
— Eu escolhi a sobrevivência.
Naquela noite, ela também tomou a decisão dela. Só que, ao contrário de mim, ela escolheu a liberdade. Mas a maldade do destino é pior que a de qualquer cana ou rival. Naquela mesma madrugada maldita, enquanto o lado da minha cama ficava frio, o barraco da minha velha virou o centro do inferno. O câncer, aquele inimigo silencioso que nem fuzil derruba, decidiu cobrar a última parcela. Minha mãe, a única mulher que eu amei antes da Raissa, deu o último suspiro naquelas cobertas gastas, chamando meu nome num sussurro que eu nem tava lá pra ouvir.
Eu cheguei em casa com o cheiro da pólvora no corpo, querendo o abraço da Raissa pra esquecer o sangue que eu tinha derramado, mas o que eu achei foi o silêncio da morte e o vazio da traição. No dia que eu mais precisei de um chão, no dia que o mundo caiu sobre a minha cabeça com a morte da minha coroa, a Raissa me abandonou. Ela meteu o pé sem olhar pra trás, me deixando sozinho pra enterrar minha mãe e o que sobrava do meu coração.
A dor foi tão grande que não coube em lágrima. Ela virou ódio. Um ódio puro, destilado, que me deu a força que faltava pra subir os últimos degraus. Enquanto o corpo da minha velha descia pro barro, o meu subia pro topo. Não tinha mais Zayon. Não tinha mais piedade. Naquela mesma semana, cercado pelos generais do crime, eu fui coroado ao Comando Vermelho. O juramento foi selado com sangue. Eu me tornei o dono da Tormenta, o soberano do crime, o homem que decide quem vive e quem vira adubo.
Eu me tornei o Trovão.
Meu batismo oficial como comando veio numa noite que os moradores nunca vão esquecer. Tentativa de invasão da facção rival. O morro tava cercado, a bala comendo solta, o pânico tomando conta. Enquanto os outros líderes hesitavam, calculando perdas e danos, eu avancei sozinho na linha de frente. Eu não recuei nem quando o metal quente zumbia no meu ouvido. Eu era o caos personificado. Eu descarreguei o ódio da perda em cada rajada. Quando a poeira baixou e o sol nasceu, o asfalto tava lavado de vermelho e eu tava de pé, fumando um cigarro no meio da carnificina.
— Esse moleque é um trovão, parça — soltou um dos meus aliados, assombrado. — Quando ele desce, ninguém fica de pé pra contar a história.
E o vulgo pegou de vez. Trovão. O som que avisa que a destruição já chegou. 3 anos se passaram. Meu império cresceu. Eu virei o dono da lei, o juiz e o carrasco do Morro da Tormenta. Eu tinha tudo: carros de luxo, mulheres que eu nem sabia o nome, o respeito dos poderosos do asfalto e o medo dos meus inimigos. Mas o preço do poder é a memória que não morre. Eu ainda via o rosto dela nas sombras do meu escritório. Ainda ouvia a risada dela no meio do barulho dos fuzis. Eu odiava isso com todas as forças. Odiava que, mesmo sendo o dono da p***a toda, eu ainda era escravo de uma lembrando de uma traidora que me deixou sozinho no luto.
Eu enterrei meu passado sob toneladas de responsabilidade e guerra. Me tornei a máquina perfeita. Frio. Calculista. Sem misericórdia. c***l como o destino foi comigo. Mas o passado é um agiota, parceiro. Ele não esquece a dívida. Ele espera o momento que tu acha que tá seguro pra vir cobrar com juros.
E naquela noite, quando o silêncio do meu escritório foi quebrado pelo barulho da porta batendo contra a parede, eu senti um arrepio que não sentia há uma década. O meu vapor entrou ofegante, o suor escorrendo pelo rosto, os olhos arregalados.
— Fala logo, p***a — eu rosnei, sem tirar os olhos dos monitores de segurança.
— Chefe... a gente achou. A gente achou ela.
O tempo congelou. O oxigênio pareceu sumir da sala. Eu não me mexi, mas as minhas mãos, escondidas sob a mesa, fecharam em punho até os nós dos dedos ficarem brancos. Eu não precisei perguntar quem. O nome dela já tava tatuado na minha alma como uma cicatriz de bala.
— Onde? — Minha voz saiu num sussurro perigoso, uma vibração que parecia um rosnado de bicho acuado.
— No asfalto, chefe... Zona Sul. Mas tem um detalhe... ela não tá sozinha.
O silêncio que se seguiu foi denso como breu. Dava pra ouvir o tic-tac do relógio na parede batendo como se fosse uma bomba relógio.
— Desenrola essa fita agora. O que tu quer dizer com "não tá sozinha"?
— Tem uma criança, patrão. Um moleque. Pelos meus cálculos... deve ter uns dois, ou três anos. E vou te falar... o moleque é a tua cara cuspida e escarrada. O olhar dele é igual ao seu.
O impacto veio antes do som. Um filho. A palavra explodiu na minha mente como uma granada de efeito moral. Pela primeira vez em anos de comando, eu senti o chão tremer de verdade. Eu não senti o controle que tanto prezava. Senti dúvida. Senti um medo novo, um medo que não era de morrer, mas de ter que encarar o que aquela mulher tirou de mim.
Dúvida, no meu mundo, é o convite pra tragédia. É a brecha que o inimigo espera. Eu me levantei devagar, cada osso do meu corpo parecendo pesar uma tonelada. Meu rosto continuava uma máscara de gelo, mas meus olhos... meus olhos tavam em chamas. O passado não tava mais em foto velha. Tava vivo. Tinha carne, tinha sangue e, pelo visto, tinha o herdeiro do trono. Ela me deixou na pior, fugiu com o meu sangue e agora o destino me devolveu ela numa bandeja.
Eu respirei fundo, o ar entrando pesado nos meus pulmões.
— Prepara o blindado. Chama a escolta pesada. A gente vai descer agora.
A minha ordem foi curta, uma sentença de morte pra qualquer um que entrasse no meu caminho. Porque uma coisa era certa na minha cabeça: se aquele moleque fosse o meu sangue, o mundo inteiro ia ter que se ajoelhar diante da minha linhagem. E quanto a ela... ela ia aprender que ninguém abandona o Trovão na hora do luto e sai impune.
Eu tava pronto pra cair do céu e atingir o asfalto. E quando o Trovão cai... não sobra pedra sobre pedra. Ninguém fica de pé.
O motor do blindado roncava como um bicho enjaulado, uma sinfonia de ferro e fúria que ecoava pelas paredes de concreto do Morro da Tormenta. Eu tava ali, no banco de trás, a farda preta ajustada, o fuzil descansando no colo como um bebê de metal esperando a hora de acordar. Meus generais tavam mudos, sacando que o clima tava mais pesado que porta de cofre. Ninguém ousava dar um pio. O ar dentro do carro tava impregnado com o cheiro de óleo de arma e aquele perfume caro que eu usava pra esconder o cheiro da pólvora que nunca saía dos meus poros.
Eu olhava pela janela fumê, vendo os reflexos das luzes do morro ficando pra trás. Cada poste de luz capenga, cada beco escuro onde a garotada ficava de radinho, parecia um vulto do meu passado me encarando. "Tu vai mesmo, Zayon?", as sombras pareciam perguntar. E a resposta era um silêncio que cortava mais que cerol em linha de sobra.
— Patrão, o setor tá limpo. Os batedores já fecharam a rua lá embaixo. Ninguém entra, ninguém sai até o senhor dar o aval — soltou o Coveiro, meu braço direito, um cara que tinha mais cicatriz no corpo do que letra no alfabeto.
Eu só confirmei com a cabeça, o olhar fixo no horizonte. A Zona Sul brilhava lá longe, aquele mar de luzes falsas onde a burguesia dormia o sono dos inocentes enquanto a gente segurava o rojão aqui em cima. Raissa escolheu o lado de lá. Escolheu o asfalto, o cheiro de mar, a vida de quem não precisa se preocupar se a bala vai atravessar a parede de tijolo baiano. Ela achou que tinha se livrado da Tormenta. Achou que o Trovão não tinha alcance pra atravessar a fronteira invisível que divide o mundo dos reis e o mundo dos servos.
Pobre coitada. Ela esqueceu que eu sou o dono da caneta.
O comboio desceu rasgando. Três carros pretos, vidro blindado, o puro luxo do crime organizado. A gente não tava indo pra um baile; a gente tava indo pra um acerto de contas que o destino demorou três anos pra registrar no cartório. Na minha mente, a imagem do moleque que o vapor descreveu não saía. "A tua cara, patrão". Aquilo batia na minha cabeça como uma coronhada. Um filho. Um pedaço de mim crescendo longe do meu trono, sem saber que o pai dele é o cara que faz a cidade tremer quando decide tossir.
Ela me roubou isso. Me deixou no velório da minha velha, sozinho com o caixão e o ódio, e levou o meu legado no ventre. A traição tinha nome, sobrenome e, agora, endereço.
— Estamos chegando, chefe. Edifício Solar das Palmeiras. O prédio é de alto padrão, segurança privada, mas já demos o papo pro porteiro. O maluco tá mais pálido que papel de seda — avisou o motorista, reduzindo a marcha conforme a gente entrava nas ruas arborizadas que pareciam outro planeta.
— Ninguém atira a menos que eu mande — minha voz saiu fria, com aquela autoridade que faz o sangue do subordinado gelar. — Eu quero ela inteira. E o moleque... se um fio de cabelo dele for tocado, eu mando enterrar essa rua toda com vocês dentro. Fui claro?
— Cristalino, patrão.
Os carros pararam em frente ao prédio. O silêncio da rua era um insulto. Não tinha som de funk, não tinha grito de "olha o rapa", não tinha o estalo do tráfico. Era só o vento batendo nas palmeiras. Um lugar limpo demais pra uma mulher que nasceu no meio da poeira. Eu desci do carro devagar, sentindo o peso da peça na cintura. Cada passo que eu dava no mármore do hall de entrada era um prego no caixão da minha antiga vida. O porteiro nem levantou os olhos, só tremeu a mão enquanto liberava o elevador. Ele sabia quem eu era. O Brasil inteiro sabia quem era o Trovão.
O elevador subiu suave, um contraste absurdo com a subida do morro no lombo de uma moto. Quando a porta abriu no 12º andar, o corredor tava deserto. Eu parei em frente à porta 1204. O número dourado brilhava, me desafiando.
Eu não bati. Eu não sou de pedir licença. Fiz um sinal pro Coveiro, que deu um chute seco, preciso, estourando a fechadura eletrônica como se fosse feita de vidro. A porta escancarou e o cheiro... o cheiro dela me atingiu como um soco no estômago. Alfazema e sabonete de bebê. O cheiro da minha ruína.
Lá dentro, o apartamento era todo branco, moderno, coisa de quem tem grana. Raissa surgiu no corredor, os olhos arregalados, o rosto pálido. Ela não gritou. Ela me conhecia o suficiente pra saber que grito não para o Trovão. Ela só parou, as mãos cobrindo a boca, enquanto o mundo dela desabava em câmera lenta.
— Zayon... — o sussurro dela foi quase um lamento.
— Zayon morreu no enterro da mãe dele, Raissa — eu respondi, entrando na sala como se fosse o dono do lugar, o que tecnicamente eu era, já que ninguém ali tinha poder pra me tirar. — O que sobrou foi o que tu tá vendo. E eu vim buscar o que é meu.
Antes que ela pudesse falar qualquer coisa, um vulto pequeno apareceu atrás dela. Um moleque de uns três anos, com o cabelo bagunçado e os olhos... os meus olhos. Aquele olhar de águia, aguçado, que não recua diante do perigo. O moleque olhou pra mim, viu o fuzil na mão do meu segurança, e não chorou. Ele só me encarou, curioso, como se estivesse reconhecendo um espelho.
O meu coração, que eu jurava que tinha virado pedra no dia que a minha coroa partiu, deu um solavanco tão violento que eu quase perdi o equilíbrio. Era verdade. O sangue não mente. O herdeiro da Tormenta tava ali, vivendo num castelo de vidro enquanto o pai dele reinava no inferno.
— Tu tem cinco minutos pra arrumar as coisas dele — eu disse, a voz ríspida pra disfarçar o tremor que queria subir pela minha garganta. — Porque a partir de hoje, o asfalto acabou pra vocês.
A Raissa deu um passo à frente, os olhos injetados de ódio e pavor, mas com aquela marra de quem nasceu no meio da guerra. Ela grudou o moleque no peito como se o corpo dela fosse um colete à prova de balas e encarou o cano do meu fuzil sem baixar a guarda.
— Eu não vou pra lugar nenhum contigo, Zayon! — ela gritou, a voz ecoando pelas paredes brancas do apartamento, cortando o barulho do ar condicionado. — Tu pode ter o morro todo na tua mão, mas aqui tu não manda em nada. Tu virou um monstro, um carrasco que só sabe derramar sangue! Pra tu encostar um dedo no meu filho, tu vai ter que me matar primeiro! Atira, Zayon! Atira se tu ainda tiver coragem de olhar na minha cara e puxar esse gatilho, porque só morta eu deixo tu levar ele praquele inferno que tu chama de vida!
Eu dei um riso seco, um som que não tinha nada de humano, enquanto meus dedos acariciavam o metal da peça.
— Tu tá achando que esse teu drama me atinge, Raissa? Pois saiba que pra mim, apertar esse gatilho e ver teu sangue manchar esse tapete caro é mais fácil do que acender um cigarro. Tu esqueceu que eu sou o Trovão, p***a? Eu sou Comando Vermelho! Eu mato sorrindo, mato sem piscar, e mato quem atravessa o meu caminho, não importa se um dia eu chamei de amor. No meu mundo, traidora não tem voz, só tem destino. E o teu tá bem aqui, na ponta do meu dedo.
Eu dei um passo pra cima, prensando ela contra a parede com o cano da arma afundando na carne do pescoço dela, bem em cima da veia que pulsava desesperada. O moleque deu um grito, mas eu nem pisquei.
— Pra mim, tu já morreu faz três anos. O que tá aqui na minha frente é só um problema logístico que eu vou resolver agora. Se eu te apagar, o moleque chora hoje, mas amanhã ele cresce no morro sendo homem de verdade, sob a minha asa, sem essa tua fraqueza.
Engatilhei a pistola. O estalo do metal ecoou na sala como uma sentença definitiva. A Raissa fechou os olhos, esperando o fim, e o silêncio que se seguiu foi o mais mortal de todos.
E aí amores, o que acharam desse prólogo de arrepiar? 🔥💣
A Raissa peitou o dono da p***a toda e mandou a real: "tem que me matar primeiro!". Mas o Trovão mostrou que o coração dele virou uma pedra de gelo e que a disciplina do Comando não permite fraqueza.
Será que ele puxa o gatilho ali mesmo ou vai levar os dois pro morro pra começar o verdadeiro pesadelo?
Não esqueçam de adicionar na biblioteca pra não perder o desfecho desse embate e deixem nos comentários: o Trovão tem coragem de apagar a mulher que um dia ele amou? E o bebê será que é dele mesmo ? 👇💥
🚨 Atualização diária a partir do dia 05! Fiquem ligadas, porque a tempestade só tá começando!