Oriana
Ela parou no saguão da casa da alcateia, tinha descido para pegar comida para a sua suíte, já estava tarde, e o lugar estava relativamente silencioso. Provavelmente todos os membros da alcateia estavam em suas suítes. Ela estava em seu quarto há uma semana, tinha descido apenas para pegar comida.
Ela havia evitado o treinamento da unidade Alfa e realmente tinha se concentrado em organizar os seus diplomas para estudar na universidade. Negócios eram uma parte essencial do seu trabalho como Beta da alcateia. Esta alcateia gerenciava a promoção de eventos esportivos ao vivo, possuía uma empresa de outdoors digitais, uma agência de modelos, uma agência de dublagem, e também era uma das empresas de tradução de idiomas mais utilizadas.
Metade da alcateia podia falar duas ou três línguas diferentes e poderia ser contratada através da empresa de tradução da Colinas das Terras Altas para negócios, uso médico/paciente, escritórios de advocacia, audiências judiciais e necessidades de aplicação da lei. Fosse para traduções escritas ou orais, tudo era providenciado.
Ori também pretendia fazer mestrado em japonês, ela estudava desde os cinco anos. Seu pai falava fluentemente, então ele havia ensinado a ela durante toda a vida. Ela sabia que o Slade falava mandarim e que o Palmer se dava bem com francês e alemão. Yuri falava russo porque era a herança de seus avós, mas a alcateia deles conseguia falar e traduzir em pouco mais de cem idiomas diferentes.
Ela tinha passado a semana organizando um diploma duplo, não estava totalmente decidida entre fazer um diploma duplo ou não, apenas tinha decidido estudar negócios em tempo integral e o idioma em meio período. Não havia pressa com o seu diploma de idiomas, ela falava japonês fluentemente, apenas não tinha a documentação para comprovar isso. Então, meio período estava bom nesse aspecto.
Mas agora, enquanto ela permanecia ali no saguão escuro e sua audição captava a conversa que claramente não era destinada a ela, seu coração afundou, era o Alfa e sua unidade no escritório do Alfa, discutindo sobre promover o Hayden como o futuro Beta da alcateia e rebaixá-la.
Ela apenas ficou ali e os ouviu, debatendo entre si os prós e contras de ter a presença dela ao lado de Slade. Ela não tinha capturado o início da conversa deles, mas eles estavam discutindo a licença que ela precisaria para o seu período de cio. E então, quando tivesse um ou mais filhotes, como suas responsabilidades seriam afetadas. Ela precisaria se ausentar do treinamento por meses, período em que se descondicionaria, e então teria crianças para cuidar.
Eles estavam planejando removê-la de sua posição, independentemente se ela permanecesse aqui ou não. Uma fêmea em uma unidade Alfa era vista como uma ameaça por eles. Ela sabia que era isso que eles pensavam, que ela decepcionaria a futura unidade Alfa, uma vez que se casasse. Ela poderia entrar no cio a qualquer momento, até fora do território da alcateia, longe de seu Par, se ele estivesse dentro desta alcateia.
Ela encarou a porta do escritório e quase entrou lá para dizer o que sentia, quando ouviu a voz de Slade vir de lá: — Eu entendo, e vou considerar o que vocês discutiram. — Ela congelou no lugar ao ouvir suas palavras.
— Precisaremos de uma decisão até você voltar para casa em duas semanas. Precisamos resolver isso rapidamente, você entende? Como o futuro Alfa, isso é sobre a força da alcateia, não sobre sua amizade com a Ori.
— Eu entendo, vou abordar isto do ponto de vista do futuro Alfa. — Slade afirmou.
Ori virou-se e caminhou dali naquele momento, até mesmo Slade estava falando em substituí-la; isso doía, ele sempre afirmou que ela era a escolha dele para Beta da alcateia.
Agora ela provavelmente teria isso tirado dela por ser uma loba que poderia entrar no cio, engravidar e ter filhos em algum momento. Tudo isso era vital para o crescimento da próxima geração de Betas da alcateia. Mas agora, era visto como uma fraqueza pela liderança da alcateia.
Slade iria analisar isso do ponto de vista de um Alfa; um ponto de vista como o de seu pai. Aqueles dois eram muito parecidos, e ela sabia disso. Em duas semanas, ele teria que fazer uma escolha: ela ou Hayden?
Ela entrou em seu quarto e olhou ao redor da suíte. Por quanto tempo ainda teria isso? Se ela fosse rebaixada, seria transferida e o Hayden mudaria para lá, no dia do anúncio. Todo o seu regime de treinamento mudaria. Inferno, toda a sua vida mudaria, e num piscar de olhos, ela passaria de alguém a ninguém dentro desta alcateia. Com apenas um anúncio do Alfa Roman.
Ela sabia até mesmo pela maneira como a unidade Alfa lá embaixo, o próprio pai, um deles, estavam pressionando para que ela se rebaixasse, estavam tentando influenciar o Slade a tomar a decisão sozinho. Era a sua unidade, e, no fim das contas, era a escolha dele quem ele queria.
A questão era: o que ele faria? Ela realmente não sabia. Como sua amiga de longa data, ele escolheria, ela sabia, a ela. Mas como o futuro Alfa, com tudo o que lhe apresentaram, enfatizando fortemente os contras de ela ser uma fêmea. Ele, como o Alfa, o futuro da alcateia, seria influenciado por tudo isso chamado de tempo de afastamento que ela precisaria ter?
Ela nem sequer era acasalada, e lá embaixo estavam tentando afastá-la do seu título e lugar legítimo dentro da alcateia. Seu próprio pai, caramba, até mesmo a própria mãe, ela sabia, estavam de acordo. Foi por isso que tiveram o Hayden tão rapidamente depois de terem ela, porque ela era uma menina, e o futuro Alfa precisava de um Beta masculino, não feminino.
Era a opinião dos seus próprios pais, essa sempre tinha sido a opinião deles, e isso doía mais do que um pouco. Eles não poderiam deixá-la ser a futura Beta da alcateia até que fosse acasalada? Algo que poderia estar a anos de distância, séculos de distância. Eles tinham mais de uma dúzia de lobos machos e fêmeas aqui que não haviam encontrado seus pares. Um estava quase com 200 anos, e agora era considerado um ancião da alcateia.
Aquela loba ainda mantinha a esperança de um dia encontrar seu Par. Ori poderia ser exatamente como ela. Eles não sabiam. Estavam apostando contra as probabilidades. Probabilidades imprevisíveis. Inferno, ela poderia estar sem Par para sempre, jamais ter um Par, talvez não gostar do Par que ganhasse e rejeitá-lo, ou ele a ela.
Ninguém sabia o que estava por vir, não havia bola de cristal mágica para mostrar o futuro dessa alcateia. Resumia-se a ela ser uma garota e não um garoto, e ela sabia disso. Ela caminhou pelo quarto, entrou na cozinha sem bater e jogou os lanches que estava carregando na mesa.
Encarou-os, precisava liberar sua raiva, e sabia disso, ela trocou suas calças jeans e camiseta por shorts de ginástica e uma camiseta folgada, desceu as escadas, apenas para ver o Alfa e sua unidade subindo por elas. Todos piscaram ao vê-la. Claramente, não sabiam que ela ainda estava acordada. Não a tinham ouvido mais cedo, ela era leve nos pés e estava descalça.
— Ori? — Seu pai questionou.
— China quer sair para uma corrida. — Ela sorriu para ele e depois para todos eles, não deixou transparecer o quanto estava magoada, ou quão decepcionada estava com o seu próprio pai. Não, ela apenas continuou descendo, passou por ele, passou por todos como se nada estivesse errado.
Não era incomum para lobos quererem estar fora à noite, apenas sair e correr por aí, e sua aparente alegria diria a eles que ela não fazia ideia do que realmente estava acontecendo ali. Toda a traição que ela agora sabia que estavam tramando.
Ela seguiu seu caminho pela casa da alcateia e pelo corredor até o vestiário, atravessou-o e se despiu, saiu para a noite e esperava que China saísse instantaneamente dela, mas não saiu. “China, vamos lá. Vamos liberar um pouco de energia.” ela disse.
Ainda nada; sua loba estava quieta em sua mente. Parecia pensativa ou reflexiva, talvez. “China?”
“Não posso me transformar.” China finalmente lhe disse.
“O que? Por quê?” ela não entendia, nunca tinham tido problema antes. China saía dela o tempo todo, de manhã, à tarde, à noite, no treinamento, para ataques de renegados, apenas para correr e caçar, para brincar mesmo. “Eu sei que é difícil ouvir o que acabamos de ouvir, mas…”
“Não é por isso.” China bufou. “Estamos com filhote, eu não posso me transformar.”
Os olhos de Ori se arregalaram com as palavras de sua loba. “O quê?! Não.” Ela não tinha um Par, nunca entrou no cio, nem tinha namorado, aquilo simplesmente não fazia sentido para ela.
Ela olhou para o seu abdômen ainda plano e então sua mão foi para a sua boca. “Não”, ela ofegou ao recordar daquela noite bêbada com Slade. Não poderia ser de mais ninguém. “Caramba.” ela murmurou e retrocedeu para o vestiário, se vestiu novamente e voltou apressada para o seu quarto.
Estava tão preocupada com tudo o que estava acontecendo aqui, com o seu irmão tentando tomar o seu lugar, que realmente tinha esquecido por um momento sobre aquela noite. Tinha querido esquecer e deixar para trás, para que ela e Slade pudessem voltar à sua normal e feliz relação de Alfa e Beta. Parecia que ela realmente havia conseguido.
Ela ficou ali na escuridão de seu quarto e se perguntou o que diabos faria. Havia regras rígidas sobre lobas grávidas; sem treinamento, sem lutas, todas aquelas coisas que a unidade Alfa acabou de dizer ao Slade, todos aqueles contras estavam agora, de fato, ali.
Ela estava mais do que apenas grávida. Ela carregava o futuro Herdeiro do próprio Herdeiro da alcateia. As coisas estavam ficando mais complicadas a cada minuto. Ela deveria retomar o treinamento pela manhã, mais uma vez.
Mas se ela não pudesse participar do treinamento, todos perceberiam que algo estava errado. Se ela se machucasse no treinamento e perdesse o filhote, seria punida por prejudicar o futuro herdeiro da alcateia. Bem, d***a, como ela poderia esconder isso até descobrir o que fazer?
Ela precisava pensar nisso. Era apenas um erro bêbado, e Slade nem sequer se lembrava. Então, isso iria favorecê-la por um tempo; ninguém sabia que era dele. Bem, os pais do Slade saberiam quando o filhote nascesse, eles cheirariam seu próprio parente. Chamar o Slade de volta da faculdade de Alfa e exigir saber o que diabos estava acontecendo. Não que ele soubesse, nem se lembrava.