triste passado

1338 Words
Dentro do helicóptero que o levaria até a cidade em que morou até os dezoito anos, Otávio estava pensativo, encontraria a mulher que o criou, a mulher que colocou sua suposta boa reputação acima de duas vidas? Otávio suspirou sentindo seu coração pesado e fechou os olhos. Clara nasceu em uma família extremamente religiosa, que prezava pela pureza e pela reputação que a família tinha dentro da igreja e também em toda a cidade. Aos treze anos ela conheceu um rapaz, bonito e galanteador, ele tinha vinte anos e aproveitando-se da inocência dela, a seduziu, e lhe roubou a pureza, Clara apaixonada não conseguia ver aquilo com mãos olhos, achava que havia o dado uma prova de amor, quando na verdade, ele apenas buscou se divertir com a inocência dela, e logo em seguida foi embora a deixando para trás. Clara ficou muito abalada com o abandono, mas não ousou contar a sua família o que havia acontecido, sabia que seria julgada, mas dois meses depois se deu conta de algo que não poderia esconder, sua menstruação atrasou, junto a isso, enjoos e tonturas, estava grávida, aquilo a jogou em uma tristeza ainda maior, como contaria a sua família? Não sabia como. Quando já estava quase entrando no terceiro mês de gestação, sua mãe Morgana reuniu a família em um jantar, daqueles que só faziam quando tinha notícias importante, a mesa, lutando contra o forte enjôo que ameaçava se mostrar, ela escutou sua mãe anunciar uma gravidez, Clara paralisou, e assistiu todos comemorarem, e pelo restante do jantar só conseguiu pensar que, talvez aquela notícia tivesse chegado em boa hora, sua mãe estava grávida, iria a compreender, iria a apoiar, era o que pensava, mas não foi o que ocorreu. Em uma noite a sós com sua mãe, Clara se encheu de coragem e contou o ocorrido, ela viu a expressão de Morgana mudar entre pânico, preocupação e então raiva, logo em seguida sentiu vários tapas em seu rosto que a fizeram cair no chão. – maldita, está tentando jogar o nome da nossa família na lama? – ela perguntou com raiva enquanto Clara se encolhia atrás da mesinha de vidro que havia ali. – eu estava apaixonada, mãe. – apaixonada? Você tem treze anos, é só mais uma moleca rebelde e libertina, saia da minha frente, suma antes que eu perca o controle e te bata até que perca essa criança. – assustada, Clara subiu a escada correndo e se trancou no quarto, sentada no chão, sentiu a dor daquelas palavras pisotear em seu coração. Cerca de três semanas se passaram, Clara vivendo confinada em seu quarto, saindo apenas na calada da noite, para buscar alimento na cozinha, a barriga já começava a aparecer, e não sabia o que fazer, seu pai estava distante, podia ver o desgosto no rosto dele, e sua mãe, está estava lhe ignorando completamente, mas tudo mudou em uma manhã, quando seu pai foi até seu quarto e a chamou para o café da manhã, ela estranhou, mais foi, ao chegar à sala de jantar, viu o olhar de desprezo de sua mãe sob sua pequena barriga, ela sentou-se cuidadosamente e em silêncio, então Morgana e Laércio se olharam, ele não teve coragem de dizer, então fez um gesto para que Morgana o fizesse. – tomamos uma decisão sobre esse bebê. – mãe… eu não quero tirar ele. – Clara disse temerosa. – você não vai, em dois dias vamos viajar para a fazenda da minha tia Elizete, ficaremos lá até que as duas crianças nasçam. – por que? – Clara questionou. – temos quase o mesmo tempo de gestação, as crianças vão nascer perto, quando as duas nascerem, voltaremos e diremos a todos que ambos são meus, que são gêmeos. – mãe, é meu filho. – ela disse em um tom choroso, havia se apegado a aquele bebê que crescia dentro de si, durante semanas havia sido sua única companhia. – não seja tola, você não tem responsabilidade alguma para ser mãe, fique feliz que eu estou assumindo esse fardo, e não o jogando em um orfanato qualquer. Como o combinado, em dias elas foram para a fazenda, um lugar no meio do nada, onde até o silêncio fazia barulho, enquanto Clara sentia aquele bebê crescer dentro de si, mais o amava, mais se apegava, por vezes pensou em fugir, em buscar um lugar onde pudesse ter seu filho, longe da hipocrisia daquela família que, pregava o amor, mas colocava a boa fama da família acima de qualquer coisa, mas como faria, era apenas uma menina, então tudo que fez foi se resignar com seu destino, seu triste destino. Quando o parto de Clara chegou, Morgana e Elizete e a parteira se deram conta de que não seria um parto comum, a garota ardia em febre delirava pedindo para ir embora dali junto com seu bebê, ela não apresentava sinal algum de dilatação, mas a bolsa havia estourado e tinha um sangramento, a parteira preocupada com a situação da garota as incentivou a levá-la para a cidade, para que no hospital fizessem o parto. – ela é só uma criança, não vai dar conta. – disse a senhora. – claro que vai. – disse Morgana, a parteira apenas balançou a cabeça em negação. – não farei o parto dela, sinto muito. – ela tem razão Morgana, ao menos mande chamar o médico, Clara não está bem. – disse Elizete, Morgana então assentiu, e ligou para seu marido, contando a situação, ele então foi em busca de um médico que era amigo dele, e às pressas o levou até a fazenda. Ao chegar lá, encontraram a garota lúcida, a parteira com suas ervas havia conseguido baixar a febre da garota, mas o médico, ao examinar a menina, constatou que não seria plausível fazer o parto ali. – Precisamos levá-la para o hospital, ela precisa de uma cesariana urgente. – claro que não, ninguém pode saber que ela está grávida, o que dirão da nossa família? – Morgana perguntou enquanto segurava sua barriga. – Morgana… – Laércio a chamou, mas ela não mudou de ideia. – faça o parto aqui mesmo, ela é forte e saudável, vai aguentar. – o médico assentiu, mas estava incerto, ainda sim, decidiu ficar e dar seu melhor para tentar salvar aquelas duas crianças. Otávio nasceu cerca de dez horas depois, em um parto complicado, doloroso, sangrento, aquele médico fez o que pode, ele conseguiu salvar o bebê, mas a garota, sofreu grandes lacerações, que a levaram a morte por hemorragia, aquele médico ficou muito abalado com a situação, mas se calou, o que lhe gerou um sofrimento interno por anos. Quinze dias após o nascimento de Otávio e o falecimento de Clara, nasceu Mariana, filha de Morgana, e um mês depois, como o planejado, ela retornou a cidade, contando a todos sobre o nascimento dos supostos gêmeos, e também contando uma mentira bem ensaiada de que, sua filha Clara havia falecido de meningite, todos se compadeceram daquela mãe, que havia recebido uma benção em dose dupla, mas que havia perdido sua filha mais velha, m*l imaginavam eles que, aquela mulher era capaz de colocar seu nome e a reputação daquela família acima até mesmo de uma vida. Mas nesta história, Clara não foi a única prejudicada, Otávio, pobre Otávio, cresceu com o desprezo dos supostos pais, que silenciosamente, atribuíram a ele a culpa de todo o acontecido, descontando nele, todo o remorso que escondiam das pessoas, a única que o amava verdadeiramente, e se colocava diante de todos para defendê-lo era Mariana, sua irmã. Mas como não se mente para todos o tempo inteiro, aquele médico, tomado de remorso, buscou Otávio quando ele recém havia completado dezoito anos, e contou a ele toda a verdade, com a dor da perda, do desprezo e o peso das mentiras, ele catou as poucas coisas que tinha, e foi embora, levando consigo apenas uma mochila e sentindo em seu peito o calor do abraço de despedida de sua irmã Mariana.
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