Leticia estava distraída, dobrando algumas roupas e organizando uma mala no quarto. O silêncio da casa a envolvia, até que, sem perceber, Fabricio entrou abruptamente.
— Que p***a é essa, Leticia? — disparou, a voz carregada de raiva.
Ela se virou assustada.
— Merda, Fabricio, que susto!
Ele avançou alguns passos, os olhos faiscando.
— Você se casou com aquele infeliz… por quê?
Leticia respirou fundo, tentando manter a calma.
— O que eu faço da minha vida não é da sua conta.
Fabricio riu, sarcástico.
— Ele não presta, Leticia. Enzo não presta. Ele vai enjoar de você. Era só ter transado com ele e pronto. Nunca vi Enzo pegar uma virgem…
Antes que terminasse, a mão dela acertou o seu rosto com força. O som seco ecoou no quarto. Fabricio levou a mão à face, chocado.
— Sai do meu quarto! — gritou Leticia, com lágrimas nos olhos. — Nunca mais fale comigo desse jeito. Nunca mais!
Fabricio respirava pesado, mas não recuou.
— Eu só quero te proteger. Você não entende! Esse cara não é confiável. Ele é piloto, vive cercado de mulheres, de festas. Você acha que vai ser diferente com você?
Leticia se aproximou, firme.
— Eu não preciso de proteção, Fabricio. Preciso de respeito. Você fala como se eu fosse uma criança, como se não soubesse o que quero. Mas eu sei. Eu escolhi Enzo.
— Escolheu errado. — retrucou ele, amargo. — Vai sofrer.
— Prefiro sofrer por uma escolha minha do que viver sob as suas críticas. — respondeu ela, firme. — Você não manda na minha vida.
O silêncio se instalou por alguns segundos, pesado. Fabricio desviou o olhar, ainda furioso, mas incapaz de responder. Leticia, com a voz embargada, concluiu:
— Eu não sou sua irmã, nem a sua propriedade. Sou uma mulher. E sou esposa de Enzo. Aceite isso ou se afaste.
Fabricio apertou os punhos, mas não disse mais nada.
Leticia respirou fundo, sentindo o coração disparado. A raiva ainda queimava, mas também havia alívio. Pela primeira vez, ela havia enfrentado Fabricio de frente, sem medo.
Leticia estava ainda mexendo em suas roupas quando Fabricio de repente a puxou pelo braço, de forma firme. O olhar dele era carregado de tensão.
— Você me ama, Leticia. — disse, quase como uma acusação.
Ela se virou, surpresa, e respondeu firme:
— Não amo mais. Você vai casar com a minha prima, que é como uma irmã para mim, vai ser pai do filho dela. Eu preciso seguir em frente.
Fabricio respirou fundo, os olhos marejados.
— Mas eu te amo.
Antes que ela pudesse reagir, ele a puxou e a beijou. Mas não foi o beijo que Leticia um dia sonhou. Não havia calor, nem paixão. Apenas repulsa. O coração dela se fechou, e imediatamente sua mão acertou o rosto dele mais uma vez, dessa vez com mais força.
— Respeite a mãe do seu filho! — gritou, empurrando-o para longe.
Fabricio, atordoado, levou a mão ao rosto.
— Me desculpe, Leti… não sei o que deu em mim.
Ela, firme, com os olhos cheios de lágrimas, respondeu:
— Nunca mais se aproxime de mim. Nunca mais.
Fabricio saiu do quarto, derrotado, sem perceber que Giulia estava parada no corredor, ouvindo tudo. O mundo dela desmoronou naquele instante. O homem que ela amava, o pai de seu filho, também amava sua prima. O ciúme inflamou seu coração, e o ódio por Leticia cresceu silenciosamente.
Giulia respirou fundo, engolindo a dor, e bateu na porta com um sorriso ensaiado, escondendo seus verdadeiros sentimentos.
— Nossa, Leti, estou feliz por você. Pode deixar que vou arrumar tudo o que é seu com carinho. Vai, aproveite seu marido.
Leticia, ingênua diante da tempestade que se formava, sorriu e abraçou a prima com sinceridade.
— Ai, Giulia, obrigada.
Giulia retribuiu o abraço, mas seus olhos, por trás do sorriso, explodiam em ciúmes e ódio.
Naquele instante, duas verdades se revelaram: Leticia havia se libertado de Fabricio, mas sem perceber, havia despertado em Giulia um ressentimento profundo, capaz de mudar o rumo de todos os próximos dias.