Dois anos haviam se passado desde o casamento. A vida de Enzo e Leticia seguia em Monza, no apartamento da cobertura, e embora muitos esperassem que a rotina os desgastasse, o contrário acontecia: cada dia parecia reforçar ainda mais o vínculo entre eles.
As manhãs começavam cedo. Leticia gostava de preparar o café, mesmo que houvesse empregados disponíveis. Pão fresco, frutas, café forte para Enzo.
— Você nunca vai deixar que alguém prepare meu café, não é? — brincava ele, ajeitando a gravata ou o macacão de treino.
— Claro que não. É o meu jeito de te cuidar. — respondia ela, sorrindo.
Depois do café, seguiam juntos para o autódromo. Leticia não era o tipo de esposa que ficava na área VIP, cercada de luxo e flashes. Preferia os boxes, o cheiro de gasolina, o ronco dos motores.
Enquanto Enzo treinava, Leticia ficava conectada ao rádio, ouvindo os comandos da equipe.
— Pressão dos pneus está boa, mas cuidado na curva três. — dizia Romano, chefe da equipe.
Leticia acompanhava cada detalhe, anotava observações, e às vezes até comentava com Enzo depois das voltas.
— Você entrou muito agressivo na curva quatro. — dizia, com naturalidade.
Enzo ria, tirando o capacete.
— Você está virando engenheira de corrida, mia stella.
A equipe inteira era apaixonada por ela. Não pelo glamour, mas pela simplicidade. Leticia conversava com todos, conhecia os mecânicos pelo nome, trazia bolo ou café para os treinos mais longos. Era genuína, e isso conquistava.
Após os treinos, voltavam para casa. Leticia gostava de abrir as janelas da cobertura, deixar o vento entrar e preparar algo leve para o jantar. Muitas vezes, cozinhavam juntos.
— Você corta os tomates, eu faço o molho. — dizia ela.
— Mas eu sou piloto, não cozinheiro. — brincava Enzo, antes de obedecer.
À noite, caminhavam pelas ruas de Monza, sem seguranças, sem ostentação. Apenas um casal comum. Tomavam sorvete, riam de coisas simples.
A vida com Leticia era desprovida de excessos. Ela não usava roupas de grife, não ostentava joias caras. Sua beleza estava na naturalidade.
— Você não precisa de brilho para ofuscar. — dizia Enzo, olhando-a com admiração.
Nos finais de semana sem corridas, recebiam amigos ou visitavam a família. Sofia, a sobrinha, adorava dormir na casa deles.
— Tia Leti, você é minha melhor amiga. — dizia a menina, abraçando-a.
Quando o dia terminava, Enzo e Leticia se recolhiam. Ele, acostumado ao barulho dos motores, encontrava paz no silêncio ao lado dela.
— Dois anos, e ainda parece que foi ontem. — murmurava, deitado ao lado dela.
— Dois anos, e ainda parece que será para sempre. — respondia Leticia, com um sorriso.
A rotina deles não era marcada por luxo, mas por gestos pequenos que se tornavam grandiosos. O café da manhã preparado com carinho, o apoio nos boxes, as caminhadas noturnas, os jantares simples. Era nesse cotidiano que o amor se fortalecia.
Enzo, que sempre vivera cercado de excessos, descobria que a verdadeira riqueza estava na simplicidade. E Leticia, que sempre buscara paz, encontrava nela a vida que sonhara.
Dois anos depois, ainda viviam no apartamento em Monza, mas já falavam em construir algo maior, talvez uma casa com jardim. O futuro era incerto, mas o presente era pleno.
O céu de Silverstone estava pesado, cinzento, e a chuva fina tornava o ambiente ainda mais dramático. Leticia, como sempre, preferia ficar nos boxes, acompanhando cada detalhe da corrida. Mas naquele dia, tia Claudia havia viajado para vê-la e apresentar o pequeno Matheus, filho de Giulia e Fabrincio, um garoto lindo de quase dois anos e meio. Leticia não resistiu: subiu até a ala VIP para encontrar a família.
O espaço estava cheio de esposas de pilotos, mulheres elegantes, joias brilhando sob a luz artificial. Leticia destoava, simples e serena, mas sem perder a graça natural que sempre chamava atenção. Foi então que ouviu alguém chamá-la:
— Leticia Mancini?
Ela se virou com calma. À sua frente estava uma mulher fabulosa, o tipo de modelo perfeita, alta, cabelos impecáveis, olhar penetrante.
— Sim? — respondeu Leticia, educada.
A mulher sorriu com leve ironia.
— Nossa, é realmente uma bela ragazza… comum, mas bela.
Leticia arqueou as sobrancelhas, surpresa.
— Desculpe, mas eu a conheço?
— Scusi, — disse em italiano, com um sorriso calculado. — Olivia Moretti.
O nome ecoou na mente de Leticia. Olivia. Onde já ouvira falar? O coração acelerou, mas ela manteve a postura.
— Prazer, Olivia. — disse, tentando encerrar a conversa. — Mas estou atrasada, preciso almoçar com minha família.
Olivia inclinou a cabeça, ainda sorrindo.
— Claro, não se prenda por mim.
Leticia fez menção de se afastar, mas Olivia deu um passo à frente.
— Você sabe que é falada, não é? — disse em tom baixo, quase confidencial. — Todos comentam como Enzo mudou.
Leticia respirou fundo.
— Mudou porque quis. Porque escolheu viver diferente.
Olivia riu suavemente.
— Escolheu… ou se deixou levar? Enzo sempre foi intenso, mas nunca constante. Você realmente acredita que será diferente com você?
Leticia manteve o olhar firme.
— Eu não preciso acreditar. Eu vivo isso todos os dias.
Olivia a observou por alguns segundos, como quem mede forças.
— Interessante. Você não é como as outras. Não tem brilho, não tem luxo… e ainda assim está aqui. Talvez seja isso que o atrai.
— Talvez seja isso que nos une. — respondeu Leticia, sem hesitar.
Olivia sorriu, mas havia algo frio em seu olhar.
— Boa sorte, Leticia Mancini. — disse, virando-se com elegância. — Vai precisar.
Leticia ficou imóvel por alguns instantes, sentindo o peso das palavras. Não sabia exatamente por que aquele nome, Olivia Moretti, a incomodava tanto. Mas havia algo ali, uma sombra que parecia querer se infiltrar em sua vida.
Respirou fundo, afastou-se e seguiu até tia Claudia, que a esperava com o neto Matheus nos braços. O menino sorriu para ela, e Leticia o abraçou com ternura. O calor da família dissipou a inquietação, mas no fundo, sabia que aquele encontro não seria esquecido.