Capítulo 2 - A Noite da Lembrança - Parte I

1481 Words
Naquela noite, após a visita inesperada de Maria Mancini, Leticia sentou-se na varanda do seu quarto. O som das ondas quebrando contra as pedras da Praia dos Naufragados trazia a calma que ela havia aprendido a valorizar. A brisa fria da noite acariciava seu rosto, mas dentro dela o coração estava em turbulência. Ali, naquele lugar, ela tinha paz. Escrevia seus livros, cuidava da pequena pousada, vivia cercada pela simplicidade que lhe dava sentido. Mas o pedido de Maria havia aberto uma ferida antiga. Voltar para o mundo de Enzo significava mergulhar novamente no furacão de emoções que ele sempre representara. Acompanhara de longe, em silêncio, cada notícia que a impressa dava sobre ele, cada especulação sobre sua recuperação. E recentemente vira reportagens dizendo que os dias estavam contados para o retorno dele às corridas. Fechou os olhos e deixou que a memória a levasse de volta no tempo. Voltou à noite em que conheceu Enzo Mancini. Era o Grande Prêmio de Mônaco, 2014. Leticia havia acabado de completar 21 anos. Pela primeira vez, seus tios permitiram que ela fosse a uma boate com a equipe de corrida da qual seu tio Roberto era engenheiro-chefe. A noite prometia ser inesquecível. A boate, localizada em Monte Carlo, era um espetáculo de luzes e luxo. Lustres modernos refletiam nas paredes espelhadas, o som da música eletrônica pulsava em cada canto, e o ambiente estava tomado por pilotos, mecânicos e convidados da alta sociedade. O cheiro de perfumes caros misturava-se ao aroma de champanhe recém-aberta. Leticia entrou com um vestido verde solto, que abraçava suavemente as curvas do seu corpo. Não era tão alta, apenas 1,65m, pele clara, olhos verdes que brilhavam sob a iluminação colorida, e cabelos castanho-dourados que caíam em ondas perfeitas até a cintura. Sua presença era delicada, mas chamava atenção pela naturalidade. Ao lado dela estava a prima Giulia, o oposto em aparência: alta, loira, olhos azuis, parecia um anjo. Giulia sempre atraía olhares, e naquela noite não foi diferente. Fabricio, o grande amigo de ambas desde a infância, estava radiante. Ele havia conquistado o segundo lugar na corrida e a equipe estava em êxtase. Leticia, no entanto, carregava um segredo. Amava Fabricio desde que compreendera o que era esse sentimento. Mas nunca revelara aquele sentimento a ninguem. Giulia, dois anos mais velha, começara a namorar Fabricio aos 18, e já estavam juntos havia seis anos. Leticia se contentava com os gestos gentis, os sorrisos e as palavras carinhosas que ele lhe oferecia como amigo. A música aumentou, e todos celebravam. Fabricio foi erguido nos ombros por alguns colegas de equipe, brindes eram feitos, risadas ecoavam. Mas nada preparou Leticia para o que viria. No meio da boate, diante de todos, Fabricio ajoelhou-se diante de Giulia. O silêncio tomou conta por alguns segundos, até que ele abriu uma pequena caixa e revelou um anel de diamantes fabuloso. — Giulia, vuoi sposarmi? — disse em italiano, com a voz firme e apaixonada. A prima, emocionada, disse “sim” sem hesitar. A boate explodiu em aplausos e gritos de alegria. O anel brilhou sob as luzes, e Giulia abraçou Fabricio com lágrimas de felicidade. Leticia sentiu o mundo desmoronar. Segurou as próprias lágrimas com todas as forças, mas quando Giulia correu para abraçá-la, sendo a primeira pessoa a compartilhar sua alegria, não conseguiu evitar que o coração se partisse ainda mais. — Agora só falta você, Leti… amar alguém — disse Giulia, sorrindo, sem imaginar a dor que aquelas palavras causavam. Leticia apenas murmurou algo como “felicidades eternas”, tentando manter a compostura. Mas assim que os noivos foram rodeados pela equipe, ela saiu praticamente correndo dali os olhos cobertos de lágrimas. No caminho, trombou com uma mulher que carregava uma bandeja de bebidas. O líquido se espalhou pelo vestido verde, manchando o tecido. — Não olha por onde anda! — reclamou a desconhecida, irritada. — Des… desculpe… — balbuciou Leticia, sem forças para discutir. Ela continuou em direção ao terraço da boate. Tudo o que queria era ficar sozinha. O ar fresco da noite de Mônaco a envolveu quando atravessou as portas de vidro. Lá fora, o contraste era brutal: dentro, música e celebração; fora, silêncio e o brilho das luzes refletindo no mar. Leticia apoiou-se no parapeito, tentando recuperar o fôlego. As lágrimas escorriam sem controle. O coração parecia despedaçado. O amor que guardara em silêncio por anos havia acabado de se tornar impossível. Enquanto observava os iates iluminados no porto, sentiu-se pequena, invisível. A felicidade de Giulia e Fabricio era legítima, mas para ela significava o fim de um sonho nunca confessado. No terraço, Leticia permitiu que as lágrimas rolassem livremente pelo rosto. O ar fresco da noite de Mônaco parecia não aliviar a dor que lhe consumia. Olhando para o mar iluminado pelos iates, murmurou em voz baixa, quase como uma oração: — Não é justo… A dor em sua voz ecoou no silêncio. — Non è giusto davvero… — respondeu uma voz grave, surgindo das sombras. — Uma senhorita tão bela, aqui sozinha e chorando. Leticia se assustou. Virou-se rapidamente e viu a silhueta de um homem alto, mais de 1,85m, que avançava devagar. A luz da boate iluminou parcialmente seu rosto. Cabelos castanhos escuros, alguns fios caindo sobre a testa, que ele ajeitou com a mão. Quando finalmente a luz o revelou por inteiro, Leticia encontrou olhos cor de mel, vivos, intensos, quase perigosos. Ele sorriu de forma suave, mas havia algo magnético em sua presença. — Mi scusi, signorina… — disse em italiano, num tom doce e ao mesmo tempo carregado de mistério. — Não quis assustá-la. Leticia respirou fundo, tentando recuperar o controle. — Tudo bem… — respondeu, ainda surpresa. Ele se aproximou mais, mantendo uma distância respeitosa, mas sem perder o olhar fixo nela. — Mas por que mancha com lágrimas esse belo rosto? As palavras tocaram fundo. Leticia hesitou, mas a dor era tão grande que não conseguiu guardar para si. Pela primeira vez, abriu o coração para um desconhecido. — Eu… — começou, a voz embargada. — Eu amo alguém desde que aprendi o que era o amor. Mas esse alguém nunca soube. Ele sempre esteve ao meu lado, mas escolheu outra pessoa… minha prima. Hoje, diante de todos, pediu ela em casamento. E eu… eu não sei como suportar. O homem a ouviu em silêncio, sem interromper. Seus olhos cor de mel refletiam compreensão, não julgamento. Quando ela terminou, ele se aproximou um pouco mais, inclinando-se para que sua voz fosse apenas para ela. — Capisco… — disse suavemente. — O amor pode ser c***l. Mas às vezes, o destino nos coloca diante de escolhas que parecem injustas, apenas para nos preparar para algo maior. Leticia o encarou, surpresa com a profundidade das palavras. — Você fala como se soubesse o que é perder alguém. Ele sorriu de lado, um sorriso que misturava dor e charme. — Já perdi muitas coisas. Pessoas, corridas, momentos que nunca voltam. Mas aprendi que cada perda abre espaço para um novo começo. O silêncio entre eles foi preenchido pelo som distante da música da boate e pelo mar batendo contra o cais. Leticia sentiu que aquele desconhecido não era apenas mais um convidado. Havia algo nele que a atraía, algo que fazia seu coração bater diferente. — Quem é você? — perguntou, quase em um sussurro. Ele estendeu a mão, firme e elegante. — Piacere… Enzo Mancini. O nome ecoou dentro dela como um presságio. Leticia hesitou por um instante, mas aceitou a mão. O toque foi quente, seguro, e por um momento pareceu que o mundo inteiro havia parado. Enzo a observou com atenção, como se quisesse gravar cada detalhe de seu rosto. — Não chore mais, signorina. A vida é feita de curvas inesperadas. Talvez esta seja apenas a primeira de muitas. Enzo deu um passo à frente, o sorriso iluminado pelo reflexo das luzes da boate que vinham do interior. Havia algo magnético em sua postura, uma confiança natural que parecia dominar o espaço. — Vieni… andiamo a ballare. — disse em italiano, estendendo a mão para ela. — Hoje eu sou o rei de Mônaco, afinal ganhei a corrida. Leticia piscou, surpresa. O coração ainda estava pesado pela cena que presenciara minutos antes, mas a energia dele era tão intensa que parecia impossível resistir. — Eu… não sei se devo… — murmurou, hesitante. Enzo inclinou a cabeça, os olhos cor de mel brilhando com uma mistura de desafio e ternura. — Deve, signorina. A vida é curta demais para desperdiçar lágrimas. Venha, deixe que eu lhe mostre como se celebra uma vitória. Ele segurou delicadamente a mão dela, e por um instante Leticia sentiu o calor daquele toque percorrer seu corpo. O contraste era brutal: de um lado, a dor silenciosa por Fabricio; do outro, a intensidade inesperada de Enzo.
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