Abri os olhos e me surpreendi ao perceber que ainda estava viva.
— Amy, anda logo! Você vai se atrasar!
Me sentei de sobressalto e olhei ao redor, confusa. O que estava acontecendo? Onde eu estava?
— Amy! — a voz chamou novamente, e eu me sacudi, tentando me situar.
Me levantei da cama e olhei ao redor mais uma vez. Reconheci aquele quarto. Era o meu quarto de infância.
Eu não pisava ali desde que encontrei meu companheiro, Brandon. Ouvi uma batida na porta e, em seguida, minha mãe a abriu. Antes que eu pudesse processar o que estava acontecendo, corri para os braços dela.
— Mãe, você está aqui — comecei a chorar. — Senti tanto a sua falta.
— Amy, minha menina — ela riu, dando tapinhas suaves nas minhas costas. — Eu te vi ontem.
Ela se afastou um pouco, e eu encarei seus olhos cor de âmbar, idênticos aos meus.
— Feliz aniversário, querida.
Me aconcheguei em suas mãos e, naquele momento, me dei conta de que aquele era o último dia que passei em casa. Encontrei meu companheiro no meu décimo oitavo aniversário.
— Obrigada, mãe.
— Tomara que hoje você encontre seu companheiro e comece sua nova vida. — ela sorriu, e eu senti meu sangue gelar.
Eu não queria encontrar Brandon. Não quando eu já sabia o que ia acontecer.
— Eu preferia ficar aqui com você — sorri e beijei sua bochecha. — Não quero sentir saudade de você e do Morgan.
E eu sabia que, quando Brandon achasse que eu o traí, antes de me matar junto com o meu bebê, ele mataria minha mãe por sua suposta participação. O pai de Shannon, marido da minha mãe, assistiria a tudo sem fazer nada.
Não me entenda m*l. Eu sabia que ele amava minha mãe e que aquilo o machucaria, mas sua filha ardilosa foi a responsável por tudo isso. E ele ficou parado, apenas observando acontecer.
Eu entendia por que ele apoiava a filha, mas isso não significava que eu gostava dele.
— Querida, você não vai sentir saudade de nós. Estaremos com você em cada passo do caminho — minha mãe beijou minha bochecha, e eu entrelacei meus dedos nos dela.
— Mãe, e se a gente fosse embora? Só nós duas? Esquecêssemos Shannon e Morgan e voltássemos para a matilha do papai?
Meu pai, o Alfa da matilha Silvermoon, não era um bom marido, mas era um bom homem. Ele traiu minha mãe quando estava bêbado, e isso a destruiu. Jurou que tinha sido um erro, que tudo não passava de uma armação de outro Alfa para separá-los. Mas minha mãe disse que não importava. Era tarde demais.
A traição dele custou a vida do meu irmão, que ainda crescia no ventre dela. E ela nunca conseguiu superar.
— Não, querida. Eu não posso voltar. — o rosto da minha mãe se entristeceu enquanto ela desviava o olhar.
— Eu não quero ser traída, mãe. Não como você. E nem de uma forma pior. Eu não quero um companheiro. — sussurrei minha nova verdade.
— Companheiros não machucam um ao outro, querida. — ela tentou sorrir, mas eu apenas balancei a cabeça. Eu sabia exatamente o que companheiros eram capazes de fazer.
— Você ficaria brava se eu recusasse o meu companheiro?
— Deus, não, querida. A Deusa da Lua nos mostra um caminho, mas cabe a nós escolher se o seguimos ou não. Se você não quiser o seu companheiro, pode rejeitá-lo.
— E se for o filho do Alfa?
Minha mãe me encarou. Ela sabia que, se fosse o filho do Alfa, eu estaria condenada. Eles não me deixariam ir embora. Um Alfa precisa se unir à sua primeira companheira, nem que seja por apenas um dia, para atingir todo o seu poder.
— O que você sabe? — observei seus olhos analisarem os meus.
A puxei para dentro do quarto, longe da porta.
— Não tenho certeza, mas estou apavorada. Se eu for destinada ao namorado de Shannon, sei que vou morrer depois de nos unirmos. Mãe, as chances de ele estar destinado a uma Alfa são muito maiores do que de ser meu companheiro, filha de um Beta — me afastei. — Eu não quero isso para mim.
Ela ponderou minhas palavras, e eu vi quando chegou à mesma conclusão que eu.
— Tudo bem, querida. Mas você não pode ir embora. Seria muito suspeito. Você vai precisar mascarar seu cheiro sempre que ele estiver por perto.
Joguei as mãos para o alto.
— E como eu faria isso?
— Há muitas coisas que você não sabe e que eu preferia deixar no passado. Mas se você tem certeza… — ela interrompeu a frase e me observou. Eu apenas assenti com a cabeça.
— Então, me deixe fazer algumas ligações. Você não precisa ir para a escola hoje.
Saltei de volta para os braços dela.
— Obrigada, mãe. Eu não sei o que faria sem você.
— Eu te amo, meu amor. Você nunca ficará sem mim, isso eu te prometo.
Ela beijou minha bochecha e saiu do quarto, me deixando sozinha.
Corri até o celular e chequei a data para ter certeza. Era 2018. Eu voltei seis anos no tempo. Seis anos exatos desde o dia em que conheci Brandon. Eu poderia reviver tudo, fazer escolhas melhores. Eu poderia viver e, talvez, dessa vez, meu filhote também.
Passei a mão pelo meu estômago plano.
— Não se preocupe, meu filhote. Dessa vez, ninguém vai te machucar.
Fui até o banheiro e entrei no chuveiro. De jeito nenhum eu enfrentaria esse dia parecendo que acabei de sair da cama. Depois, fiquei no meu closet, ainda enrolada na toalha, tentando decidir o que vestir, quando ouvi a porta do quarto se abrir.
Estava prestes a me virar e chamar minha mãe, mas percebi um passo leve. Minha mãe não andaria assim. Então, me escondi atrás dos casacos de inverno e esperei.
— Estou te dizendo, se ela for a alma gêmea de Brandon, eu vou matá-la.
— Você não pode estar falando sério, Shan — a voz esganiçada de Megan, melhor amiga de Shannon, veio do celular pressionado contra sua orelha.
— É claro que estou! Brandon é meu.
— Só porque você se entrega pra ele. Ele estava esperando que Shannon o notasse.
— Cala a p***a da boca, Megan — Shannon rosnou, seus olhos faiscando. — Ele é meu.
— Tanto faz, preciso ir. Anda logo antes que eu te deixe pra trás — Megan disse antes de desligar a ligação.
Uma buzina soou do lado de fora, e Shannon agarrou alguma coisa antes que eu segurasse sua mão.
— O que você acha que está fazendo no meu closet?
— Amy? — A boca de Shannon se abriu em choque.
Apertei sua mão até ouvir um estalo. Seu grito foi abafado pela minha outra mão.
— Você tem sorte que eu só quebrei um dedo. Você acabou de ameaçar me matar, não foi? Ouvi direito? A filha de um beta ameaçando um alfa? — Tisquei a língua.
— Eu não fiz p***a nenhuma! — Ela rosnou de volta, sua mão começando a se curar.
— Mente pra mim de novo e eu quebro todos os seus dedos e seguro enquanto os ossos cicatrizam — sorri, satisfeita ao sentir seu corpo tremer. — Você me ameaçou?
— Sim! — ela gritou. — Você vai tirar o Brandon de mim!
— Eu não quero seu alfa patético agora, nem nunca. Pode ficar com ele.
A empurrei para longe.
— Agora sai do meu quarto antes que eu mude de ideia sobre te aleijar.
Me virei para o armário e peguei um jeans de cintura baixa e uma regata.
— Qual é o seu problema?
— Você. Agora sai.
Deixei minha loba se manifestar, e meus olhos brilharam. Impus minha ordem alfa nas palavras, a forçando a sair do meu quarto.
Estúpida. Como ela ousa entrar no meu quarto e pegar algo que é meu? Minha loba rosnou baixo. Esse era o nosso território.
Sacudi a cabeça, voltando a me concentrar. Fechei a porta, deitei na cama e peguei o celular. Tentei lembrar de tudo que aconteceu nos últimos seis anos que poderia me ajudar no meu plano. Porque não se enganem: Brandon e Shannon iriam pagar.