**Fenrir**
O vento frio da tarde batia contra o meu rosto enquanto me aproximava da fronteira da alcateia. O ambiente que antes era pacífico, com a presença de Zara ao meu lado no parque, agora parecia distante. A minha mente estava completamente focada na ameaça iminente que pairava sobre nós. Os Belmonte não costumavam mandar lobos à nossa fronteira sem um propósito claro, e eu sabia que isso não era uma visita amigável.
Caminhei em passos firmes, deixando a clareira para trás enquanto o som das folhas sob os meus pés criava um ritmo quase hipnótico. Ao longe, já podia ver a figura imponente de Ethan, meu beta, ao lado de Sam, o meu guerreiro mais leal. Os dois estavam parados, observando a linha da fronteira com expressões tensas, claramente cientes da gravidade da situação. Quando me viram, ambos se endireitaram, prontos para o que quer que viesse a seguir.
— Fenrir — disse Ethan, me saudando com um aceno de cabeça. — Acabamos de avistar três lobos Belmonte. Eles não cruzaram a fronteira ainda, mas estão provocando. Ficaram à espreita por tempo suficiente para que soubéssemos que estão aqui com algum objetivo.
Sam, sempre direto, acrescentou:
— Eles estão esperando por você.
Não precisei de mais explicações. Eu sabia que a família Belmonte tinha uma rivalidade antiga com a nossa alcateia, e, com o passar dos anos, as provocações e tensões nunca cessaram completamente. Mas algo no tom de Sam e no olhar de Ethan me dizia que isso era mais do que apenas uma provocação usual.
— Estão armando alguma coisa — disse Ethan, sua voz baixa e grave. — E eles sabem sobre Zara.
Meu peito se apertou ao ouvir o nome dela. Saber que os Belmonte, nossos maiores inimigos, estavam cientes de que eu tinha uma companheira era o suficiente para acender o meu instinto protetor. Eles não hesitariam em usar qualquer fraqueza contra mim, e agora Zara era o alvo perfeito para eles.
— Eles se atreveram a mencionar ela? — perguntei, minha voz saindo mais fria do que eu pretendia.
Ethan assentiu.
— Apenas insinuações, por enquanto. Mas sabemos como isso funciona. Estão plantando sementes, testando até onde podem ir.
— Certo. Vamos resolver isso agora. — A fúria ardia dentro de mim, mas eu sabia que precisava manter a cabeça fria. Ethan e Sam eram meus homens de confiança, e juntos, precisávamos manter o controle da situação, pelo menos por enquanto.
Seguimos juntos até a fronteira, onde logo avistei três figuras sombrias em pé do outro lado. Mesmo à distância, era fácil reconhecer os lobos Belmonte. O ar ao redor deles parecia mais pesado, carregado de malícia e hostilidade. Eles estavam à vontade, como se estivessem à espera de uma diversão.
— Ora, ora... — disse um deles, ao nos ver se aproximando. Era Roderick, um dos soldados mais antigos da alcateia Lua Azul, e alguém que nunca deixava passar a oportunidade de provocar.
— Parece que o grande alfa Fenrir decidiu finalmente nos honrar com a sua presença — disse ele, um sorriso malicioso curvando os seus lábios. — Estávamos começando a pensar que você estava se escondendo.
Ethan deu um passo à frente, sempre o mais protetor quando se tratava de manter a ordem, mas eu levantei a mão, indicando que ele ficasse no lugar. Queria lidar com isso diretamente.
— O que vocês querem, Roderick? — perguntei, sem rodeios. Não havia tempo para jogos.
Roderick e os outros dois lobos trocaram olhares, como se estivessem se divertindo com a situação. O brilho de maldade nos olhos deles deixava claro que tinham algo planejado.
— Oh, não muito — respondeu ele, dando de ombros. — Só passamos para ver como vocês estão... E para lembrar que a história ainda está inacabada. Vocês sabem, não é?
Minha paciência estava se esgotando. As insinuações eram as mesmas de sempre. Eles nunca perderam a oportunidade de nos acusar da morte dos antigos alfas da alcateia Lua Azul, uma tragédia que ocorreu muitos anos atrás. Era uma mentira, uma desculpa barata para justificar sua sede de poder, mas eles a usavam como pretexto para tentar nos enfraquecer e provocar conflitos.
— Já conversamos sobre isso — disse Ethan, com os punhos cerrados. — Sabemos que vocês estão errados sobre o que aconteceu com seus antigos líderes. Esse assunto já foi discutido várias vezes, Roderick. Vocês só estão buscando uma desculpa para começar uma guerra.
— Ah, mas agora temos algo novo para discutir, não é? — disse Roderick, ignorando Ethan e focando em mim. — Soube que você tem uma companheira, Fenrir. Uma pena... O que você acha que aconteceria se algo r**m acontecesse com ela?
Senti o sangue subir à minha cabeça. O simples fato de eles ousarem mencionar Zara me encheu de fúria. Dei um passo à frente, encarando Roderick com intensidade. Minhas mãos tremiam de raiva, mas eu sabia que precisava manter o controle.
— Se você tocar nela, ou sequer pensar em ameaçá-la, eu mesmo acabo com você — minha voz saiu baixa, porém mortalmente séria. A tensão no ar aumentou, e os outros dois lobos ao lado de Roderick pareciam menos à vontade.
Roderick apenas sorriu, como se tivesse conseguido exatamente o que queria.
— Não precisamos fazer nada... ainda. Mas todos sabem que uma guerra está para acontecer. Não importa o quanto você tente evitá-la. E quando ela começar, suas fraquezas serão expostas. E Zara... Bem, ela será o primeiro alvo, não acha?
Minhas mãos se fecharam em punhos. Sentia Sam e Ethan prontos para agir, mas a diplomacia sempre foi uma qualidade que me diferenciava dos Belmonte. Eu sabia que, se reagisse naquele momento, a guerra estaria garantida. Precisava ser mais inteligente do que eles.
— Isso é uma ameaça? — perguntei, estreitando os olhos.
Roderick riu, dando um passo para trás, como se tivesse terminado o que veio fazer.
— Não. Ainda não. Considere isso apenas... um aviso. Mas não se preocupe, Fenrir. Você saberá quando for a hora certa. — Ele olhou para os outros lobos, que o seguiram com sorrisos perversos. — Nos vemos em breve.
Sem esperar resposta, os três lobos Belmonte se viraram e desapareceram na floresta, deixando uma ameaça silenciosa pairando no ar. Eu fiquei parado ali, sentindo a raiva fervilhar em meu peito. Sabia que eles estavam tentando me provocar, mas o fato de mencionarem Zara, de a colocarem como alvo... era algo que eu não podia ignorar.
— Malditos... — murmurou Sam, ao meu lado, seus punhos ainda cerrados.
— Estão prontos para começar uma guerra — disse Ethan, mais calmo, mas claramente preocupado. — Não vão parar até conseguirem o que querem.
— Não podemos permitir isso — falei, virando-me para eles. — Eles estão usando Zara como uma forma de me provocar, mas não vou cair nesse jogo. Precisamos ser cuidadosos.
Começamos a caminhar de volta para a alcateia, o peso da ameaça ainda nos acompanhando. Sabia que precisávamos agir rápido, e de forma inteligente, para evitar uma guerra que poderia destruir tudo o que construímos.
Ao chegarmos à sede da alcateia, convocamos uma reunião de emergência com nossos líderes. Sam e Ethan estavam ao meu lado enquanto discutíamos o que poderia ser feito.
— A primeira coisa que precisamos fazer é reforçar nossas fronteiras — comecei. — Se os Belmonte estão espreitando, precisamos garantir que eles não entrem em nosso território sem que saibamos.
— E quanto à diplomacia? — perguntou um dos anciões. — O conselho dos lobisomens poderia intervir, talvez adiar um conflito.
— Podemos tentar, mas todos sabemos que os Belmonte não respeitam o conselho. Eles vão ignorar qualquer tentativa de paz — respondi, lembrando-me da frustração de encontros passados. — No entanto, devemos fazer o pedido oficial de intervenção. Isso nos dará algum tempo.
Ethan assentiu, compreendendo o plano.
— Também precisamos garantir que Zara esteja segura. Não sabemos até onde eles estão dispostos a ir.
Ao ouvir o nome dela, meu coração apertou novamente. Sabia que mantê-la protegida seria minha prioridade. Não podia arriscar que algo acontecesse a ela por minha causa.
— Vamos agir rápido. Reforçaremos as defesas e faremos o pedido ao conselho. Mas preparem-se — disse, olhando para cada um dos presentes. — A guerra pode ser inevitável, e se for, vamos lutar para proteger tudo o que temos. E ninguém, nem mesmo os Belmonte, vai tocar em Zara.
Todos assentiram em concordância, e com o plano em andamento, eu senti a gravidade da situação pesar sobre meus ombros.
A ameaça dos Belmonte estava mais próxima do que nunca, e agora, mais do que nunca, eu sabia que precisaria estar preparado para qualquer coisa.