Sombras de Vingança

1328 Words
**Alfa Lorcan Belmonte** O crepitar do fogo na lareira era o único som que preenchia a vasta sala do conselho. A luz das chamas lançava sombras longas nas paredes de pedra, refletindo a inquietação que se instalava na minha mente. Sentado na minha poltrona de madeira escura, eu sentia o peso de cada decisão que estava por vir. A alcateia Presa Branca havia cruzado o limite da minha paciência, e eu sabia que, cedo ou tarde, esse conflito precisaria ser resolvido. Os meus punhos se apertavam ao pensar em Fenrir, o alfa que governava a Presa Branca. Ele era o símbolo de tudo o que eu odiava, tudo o que havia sido tirado de mim. Meus pais, meus líderes, foram mortos sem misericórdia, e desde aquele dia, o vazio que se formou no meu coração foi preenchido apenas pelo desejo de vingança. O fato de que ninguém havia sido responsabilizado por suas mortes, e que a alcateia Presa Branca prosperava como se nada tivesse acontecido, só alimentava a minha raiva. — Lorcan, controle-se — a voz grave do meu avô, Corin, ecoou pela sala. Ele estava sentado numa poltrona próxima ao fogo, observando-me com os seus olhos experientes. Havia sabedoria no olhar dele, mas também um cansaço que sempre me perturbava. Suspirei, forçando-me a relaxar as mãos. — Avô, não consigo. Toda vez que penso no que fizeram, a raiva volta como uma onda. Eles destruíram a nossa família. Eles tiraram os meus pais de mim, e ninguém pagou por isso. Como posso simplesmente ignorar isso? Corin balançou a cabeça lentamente, como se já tivesse ouvido esse argumento um milhão de vezes. — O que você pensa que sabe, Lorcan, é uma suposição. Nós nunca conseguimos provar quem foi o responsável pela morte dos seus pais. Não há evidências concretas de que a Presa Branca foi a culpada. Esse ódio está cegando você. — Não há evidências, mas eu sei — rebati, minha voz cheia de amargura. — Os sinais estavam lá. O meu pai desconfiava de Fenrir e dos seus antecessores. Eles sempre buscaram enfraquecer a nossa alcateia, sempre se colocaram como rivais. O poder e a influência da Presa Branca cresceram rapidamente após a morte dos meus pais. Não pode ser coincidência. Corin permaneceu em silêncio por alguns momentos, olhando para as chamas. Sabia que o meu avô tinha mais dúvidas do que certezas, e isso me frustrava. Ele acreditava na paz, na diplomacia, enquanto eu via claramente o inimigo à nossa frente. — Lorcan, às vezes o que acreditamos ser verdade é apenas uma sombra projetada pelo ódio. Esse caminho de vingança que você trilha vai destruir você e a nossa alcateia — advertiu Corin, seu tom calmo, mas firme. Fechei os olhos por um instante, tentando acalmar o turbilhão de emoções dentro de mim. Era fácil para ele falar. Corin havia vivido décadas de guerras e perdas, mas ele não entendia o que era crescer com a ausência de pais, com o peso de ser o sucessor de uma linhagem quebrada. Eu precisava vingar a morte deles, não apenas por mim, mas pela memória da nossa família. Antes que eu pudesse responder, a porta da sala se abriu, e Roderick, meu guerreiro de confiança, entrou. A sua presença era sempre uma mistura de arrogância e poder, um homem que vivia para a batalha e adorava provocações. Mas ele era leal, e isso era algo que eu prezava. — Alfa — disse ele, curvando levemente a cabeça em respeito. — Temos novidades sobre a Presa Branca. Acabamos de retornar da fronteira. As minhas sobrancelhas se ergueram, e o silêncio na sala se tornou mais denso. Corin continuou imóvel, observando a cena com atenção, mas eu sabia que ele estava interessado no que Roderick tinha a dizer. — O que vocês descobriram? — perguntei, sentindo o meu coração acelerar. — Encontramos Fenrir na fronteira. Ele veio até nós com os seus guerreiros — começou Roderick, com um sorriso que não me agradava. — Trocamos algumas palavras... provocamos um pouco. Nada fora do comum. — Provocaram? — perguntei, minha voz carregada de cautela. Roderick deu de ombros, como se fosse algo trivial. — Apenas o suficiente para ver como ele reage. Está claro que ele protege algo mais do que apenas o seu território agora. Os meus olhos se estreitaram. Eu sabia que Roderick gostava de testar os limites, mas isso não era um jogo. Se ele tivesse ido longe demais, poderia ter desencadeado algo que não estávamos prontos para enfrentar. — Roderick, isso não é uma brincadeira. O que você fez? — a minha voz agora era uma advertência. Ele finalmente me olhou nos olhos, o sorriso arrogante desaparecendo. Havia uma sombra de seriedade no seu rosto quando respondeu. — Ele tem uma companheira. Essas palavras caíram na sala como uma pedra no fundo de um lago. Por um momento, tudo ficou em silêncio, e eu processei o que ele tinha acabado de dizer. Fenrir, aquele bastardo, tinha uma companheira? Uma fraqueza? Algo que ele não poderia proteger completamente? — Uma companheira? — perguntei, tentando entender a relevância disso. — O que isso importa? Roderick riu de leve, embora sem o tom provocador de antes. — Importa porque ele a protege com todas as suas forças. É óbvio. A simples menção dela o fez quase perder o controle. Fenrir tem um ponto fraco, Lorcan. E é algo que podemos usar a nosso favor, se formos cuidadosos. A minha mente começou a girar com essa nova informação. A ideia de que Fenrir, o alfa implacável da Presa Branca, pudesse ser vulnerável por alguém... era algo que eu não esperava. Isso mudava tudo. Mas, ao mesmo tempo, um sentimento de desconforto começou a surgir em mim. — Você a ameaçou? — perguntei diretamente, encarando Roderick. Ele hesitou por um momento, mas finalmente assentiu. — Apenas uma insinuação. Nada direto. Queria ver como ele reagiria. A minha mandíbula se apertou. Não era assim que eu pretendia lidar com isso. Acompanhei os ensinamentos do meu avô por anos, e mesmo que a minha raiva pelo que aconteceu com os meus pais me consumisse, sempre mantive uma linha que não cruzaria. Vingança era uma coisa, mas ameaçar uma inocente? Isso não fazia parte do meu plano. Fenrir podia ser o meu inimigo, mas eu não era um monstro. — Não quero que toque nela, Roderick. Nem você, nem ninguém. — Minha voz saiu fria e firme, deixando claro que não aceitaria esse tipo de ação. — O que temos com Fenrir é uma disputa antiga, mas isso é entre mim e ele. Não envolva a sua companheira. Roderick pareceu confuso por um momento, mas assentiu, embora com uma leve frustração visível no seu rosto. — Como quiser, Alfa. Corin, que até então havia permanecido calado, finalmente se manifestou. — Lorcan, você está certo em não cruzar essa linha. A honra da nossa família é o que nos mantém acima dos nossos inimigos. Não podemos nos rebaixar ao nível deles. Se Fenrir tiver que cair, ele cairá pelas suas próprias ações, não por vingança suja. Eu sabia que ele estava certo, mas isso não diminuía o fogo que queimava dentro de mim. Não importava o que eu tivesse que fazer, eu vingaria os meus pais. A alcateia Presa Branca pagaria por suas ações, e Fenrir seria o primeiro a cair. Mas agora, algo novo surgia nesse cenário. Quem era essa companheira de Fenrir? O que a tornava tão especial para ele, a ponto de ele quase perder o controle apenas com uma menção a ela? Eu não sabia, mas uma coisa era certa: queria descobrir mais. Se Fenrir tinha uma fraqueza, eu precisava conhecê-la melhor, e usaria essa informação com inteligência. Enquanto Roderick deixava a sala, senti a fúria se acalmar, substituída pela curiosidade. Fenrir sempre foi um oponente formidável, mas até mesmo os guerreiros mais fortes têm pontos fracos. E agora, eu sabia que o ponto fraco dele tinha um nome.
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