Episódio 09 — Pantera

2144 Words
O que eu mais gosto nessa favela é que eu sou o dono. Aqui, minha palavra é lei, meu nome pesa, e eu faço o que quiser. Quem tenta peitar acha que vai sair ileso? Aqui não tem espaço pra vacilão, e quem acha que pode tomar o que é meu, descobre rápido que bala não tem nome, mas tem direção. Depois daquela invasão m*l planejada da Pedreira, tratei de dar um fim na palhaçada. Puxei minha tropa, botei fogo em quem merecia e garanti que não sobrasse um desgraçado em pé. O Chapadão é meu e vai continuar sendo. Nenhum filho da p**a vai passar por cima da minha autoridade. Mas, se tem uma coisa que eu aprendi nesses anos todos de crime, é que paz é um luxo que chefe de morro não tem. Não dá nem tempo de respirar que já surge outra merda pra resolver. Quando não é treta de morador, é problema com polícia, com vagabundo que quer crescer pra cima de mim ou até com os próprios aliados. A semana passou nesse ciclo sem fim de guerra e ostentação. O baile de sábado foi um estouro, daquele jeito que eu gosto: mulher pra c*****o, uísque na mesa, os cria fortalecendo e a favela no ritmo do batidão. No domingo, baixei a adrenalina e colei no pagodinho da praça, que é aquele evento que junta todo mundo, desde os pivete correndo de um lado pro outro até os mais velhos que moram aqui há décadas. Faz parte da vida na favela, um equilíbrio entre caos e celebração. Mas segunda-feira chegou, e com ela, aquela sensação de que mais uma semana de guerra tava só começando. Com um baseado queimando entre os dedos, fui descendo o morro no meu ritmo, sentindo o cheiro do café invadindo as ruas. A comunidade já tava acordada faz tempo, o povo se virando como podia. De um lado, a mulherada indo trabalhar, crianças fardada caminhando pras escolas, os truta na contenção, e do outro, aqueles que tão na correria desde cedo, fazendo dinheiro da maneira que dá. Eu tava na minha, curtindo meu beck, quando decidi que precisava botar alguma coisa no estômago antes de continuar o dia. Meu destino? A padaria. Um café reforçado agora cairia bem. Continuei descendo o morro no meu ritmo, soltando a fumaça do baseado no ar, sentindo o cheiro da rua misturado com café fresco vindo da padaria. O dia tava só começando, e a favela já pulsava no corre de sempre. Trabalhador saindo pra luta, pivete correndo entre as vielas, e os meus cria na contenção, de olho em qualquer movimento estranho. Mas foi no meio desse fluxo que uma das putas que eu como apareceu no meu caminho. — Oi, gostoso… — Uma das putas que eu pegava se aproximou, toda cheia de sorrisos, o olhar malicioso cravado em mim. Sabia bem qual era a dela. Chegava assim, jogando charme, querendo atenção. Sem diminuir o passo, lancei um olhar de canto, mantendo a expressão fechada. — Dá o papo. Ela riu baixinho, cheia de manha, ignorando minha seriedade. — Quando é que a gente vai marcar aquele rolê gostosinho? — perguntou, mordendo o lábio, a intenção clara nos olhos. Soltei a fumaça devagar, a mente ainda girando com o peso da manhã, e respondi seco: — Quando eu tiver paciência. Ela inclinou a cabeça, aquele sorriso sacana ainda no rosto. — Oh, me desculpa, gostoso… — sussurrou, fazendo charme, deixando claro que tava se insinuando. — Posso te acompanhar? Ignorei a pergunta e continuei andando, mas a mulher veio atrás mesmo assim, se jogando na minha cola como uma sombra. Revirei os olhos, bufando baixinho. Até que não seria r**m meter mais tarde, mas no momento minha prioridade era outra. A padaria já tava lotada quando cheguei, gente na fila do pão, a senhora da esquina comprando leite, os pivetes pegando aqueles pães dormidos que os donos sempre deixavam pra quem não tinha grana. Me joguei numa mesa mais afastada, me recostando com preguiça, e nem deu tempo de relaxar direito que a mulher já sentou na minha frente como se fosse íntima. Antes que eu falasse algo, uma voz familiar se fez presente. — Bom dia, senhor. Levantei os olhos e a vi. Era a loira. Os olhos dela arregalaram um pouco quando nossos olhares se cruzaram, e dava pra ver claramente a surpresa estampada em seu rosto. Interessante. Mas antes que eu dissesse qualquer coisa, a p**a da Erica se adiantou. — Bom dia, loira. — falei primeiro, vendo como o rosto dela ficou vermelho na mesma hora, claramente desconcertada. — B-Bom dia… — murmurou. — Traga um café pra mim e um misto quente. — Erica cortou, se metendo onde não devia. Minha irritação cresceu na hora. Virei o olhar pra loira e perguntei: — O que tem de bom hoje? Ela baixou os olhos pra caderneta que segurava com força, como se tentasse evitar me encarar de novo. — Tem… misto quente, croissant, rosquinhas, bolo de chocolate, cenoura, laranja e morango… também tem sanduíche natural. A voz dela saiu trêmula, e os dedos seguravam a caneta com tanta força que quase a derrubou. Eu podia sentir o nervosismo dela de longe. — Me traz uma fatia de bolo de chocolate, um misto quente e um suco de laranja. Ela anotou rápido, mas antes que pudesse sair, Erica, essa desgraça, resolveu abrir a boca de novo. — O que você ainda faz aqui, garota? A merda foi feita. A loira piscou, claramente afetada pela hostilidade da outra, e tentou se justificar baixinho: — Desculpa, eu… Mas antes que completasse, minha paciência foi pro c*****o. — Quem você pensa que é, c*****o? — minha voz saiu baixa, cortante, carregada de ódio, enquanto meus olhos afiados cortavam a Erica. Ela se calou no mesmo instante, engolindo em seco. — Some da minha frente, p***a. Sem ter escolha, levantou e saiu batendo o salto no chão. A loira ainda estava parada, como se não soubesse se ia ou ficava. — Tá esperando o quê? — perguntei, arqueando uma sobrancelha. Ela deu um pulo quase imperceptível e saiu apressada pra buscar meu pedido. Me recostei na cadeira, puxando mais um trago do baseado, sentindo a adrenalina esfriar. O dia m*l tinha começado e já tava cheio de merda acontecendo. Soltei um longo trago do baseado, deixando a fumaça escapar pelos lábios devagar enquanto me recostava na cadeira. A adrenalina do momento anterior ainda pulsava no sangue, e meu humor tava no c*****o, mas pelo menos a v***a da Erica já tinha sumido da minha frente. Foi nesse instante que ouvi a voz do Barão. — Bom dia, irmão. Olhei pro lado e vi o desgraçado se jogando na cadeira à minha frente, com aquele sorriso de sempre, como se a vida fosse só diversão. Diferente de mim, Barão parecia estar sempre de bom humor, o que às vezes era irritante pra c*****o. — O que tem de bom, p***a? — questionei, puxando outro trago e soltando a fumaça no ar. Ele riu, já me sacando na hora. — Quem já te irritou? Meu olhar cortou direto no dele, e minha expressão se fechou ainda mais. — Não te interessa, p***a. Barão me encarou por alguns segundos, como se tentasse decifrar meu mau humor. — Eu te conheço, irmão. Sei que já acordou puto. — Revirei os olhos, impaciente. Ele riu de novo, sem se abalar, e mudou de assunto. — Mas enfim, deixa essa p***a pra lá. Te falar, sabe aquela nossa prima que tá morando em São Paulo? Bufei, já sentindo que vinha merda. — O que tem ela? — Ela me ligou. Disse que tá vindo morar aqui na comunidade com a nossa tia. Minha testa franziu na hora. — Que c*****o ela quer aqui? Barão deu de ombros, relaxado. — Sei lá, mano. Só falou que tava voltando com a nossa tia e que ia ficar aqui no morro. Minha mandíbula travou. A última coisa que eu precisava era mais alguém da família no meu pé. Principalmente alguém vindo de São Paulo, acostumado com outra realidade. Aqui não era brincadeira, não era condomínio de playboy. Aqui era guerra. Mas antes que eu pudesse continuar esse assunto, percebi que os olhos do Barão estavam focados em algo atrás de mim. — Bom dia, loirinha. A voz dele saiu naquele tom sacana, o mesmo que ele usava quando queria azarar alguém. Virei o rosto levemente e vi a loira ali, visivelmente nervosa, mas se mantendo cautelosa enquanto começava a me servir. Suas mãos tremiam um pouco, mas ela fazia questão de manter a postura. — B-Bom dia, senhor… — a voz dela saiu hesitante, baixinha. Fiquei observando enquanto ela colocava meu suco na mesa, seguida pelo misto quente e a fatia de bolo de chocolate. Seus dedos eram delicados, mas dava pra ver que se esforçava pra não demonstrar insegurança. Barão não disfarçava o interesse, os olhos dele acompanhavam cada movimento dela com aquela expressão de quem já tinha planos na cabeça. E isso, por algum motivo, me irritou ainda mais. — Conhece as regras, né, Barão? — minha voz saiu firme, sem espaço pra discussão. O desgraçado parou de encarar a loirinha e virou os olhos pra mim, antes de soltar uma risada debochada. — Fica tranquilo, irmão, ela é homem pra mim. — Ele disse aquilo sem o menor tato, com ela ainda ali, e eu vi quando o rosto da garota ficou vermelho de vergonha. Ela abaixou a cabeça, focada no bloquinho de anotações, tentando se manter profissional. — O senhor... vai querer... alguma coisa para comer? — a voz dela saiu trêmula, quase inaudível. Barão nem disfarçou o sorriso satisfeito por deixá-la desconfortável. — Traga uma xícara de café forte, sem açúcar, e um croissant recheado com ovo frito. Ela anotou depressa e saiu quase correndo dali, como se quisesse escapar daquele ambiente o mais rápido possível. Assim que ela sumiu da nossa vista, voltei a encarar Barão com seriedade. — Quero você longe dessa garota, tá me entendendo? Ele ergueu as sobrancelhas e, em vez de me responder de imediato, soltou uma risadinha. — Tá interessado nela, irmão? — provocou, com aquele olhar de quem já tirava suas próprias conclusões. Meu maxilar travou na hora. — c*****o, qual o seu problema, p***a? Peguei o misto quente e dei uma mordida, deixando claro que não queria continuar aquela conversa. Barão percebeu que eu não tava pra brincadeira e resolveu calar a boca. Ficamos ali por mais alguns minutos, terminando nosso café, enquanto a loirinha voltava pra nos servir e depois atendia outros clientes. O jeito dela era discreto, sempre focada no trabalho, mas eu percebia a tensão em cada movimento dela. Assim que acabamos, me levantei, fiz o pagamento e saí da padaria com o Barão. Pouco tempo depois, Coringa colou com a gente, já jogando conversa fora enquanto descíamos em direção à quadra. A missão do dia era estruturar melhor o espaço pro próximo baile, algo que já tava nos planos, mas que exigia uma boa organização. O tempo foi passando rápido enquanto resolvíamos as pendências do morro. Coringa aproveitou pra me avisar que um pessoal da prefeitura tava querendo marcar uma reunião com a gente, falando sobre melhorias na saúde, nas escolas e nas ruas do complexo. Eu gargalhei na hora, porque essa hipocrisia sempre me fazia rir. — Saúde? Escola? Esses filha da p**a só lembram da gente quando é conveniente. Aqui os médicos são pagos por mim, e se algum ficar de repouso sem minha autorização, eu mato essa p***a. Quem banca sou eu, não essa merda de prefeitura. Coringa só balançou a cabeça, rindo também. A tarde já tava virando noite quando peguei a moto e saí pra dar uma ronda no morro. Eu gostava dessa parte do dia, quando a brisa ficava mais fresca e a movimentação começava a mudar, os becos ficando mais vivos, as vielas respirando aquela energia caótica que era o coração da comunidade. Foi então que, ao virar uma esquina mais estreita, avistei a loirinha caminhando sozinha por um dos becos. Ela parecia tensa. Apressava os passos, olhando pros lados como se tivesse com medo de algo, como se esperasse que alguém pulasse das sombras a qualquer momento. Acelerei a moto e parei bruscamente ao lado dela, só de s*******m, pra ver sua reação. Ela levou um susto tão grande que quase caiu pra trás. Colocou a mão no peito, respirando pesadamente, e eu tive que segurar a risada. — Tá devendo, p***a? — perguntei, me divertindo com o jeito dela. Os olhos arregalados dela vieram direto pro meu rosto, o peito subindo e descendo rápido, tentando recuperar o ar. Ela engoliu seco. — Meu Deus, que susto… — murmurou, visivelmente sem fôlego. E eu só ri, achando graça da reação dela.
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