Depois do dia da invasão, depois daquele beijo que me tirou o chão, ele simplesmente desapareceu da minha vida. Não voltou a aparecer diante dos meus olhos, como se tivesse decidido me evitar a qualquer custo. E eu não consigo entender o motivo dele ter feito isso. Fico me perguntando se foi arrependimento, se ele se arrependeu do que aconteceu, ou se apenas quer me manter distante do mundo dele. Essa dúvida tem me consumido todos os dias, porque por mais que eu tente, não consigo apagar a sensação daquele momento.
A semana até que foi se passando de forma mais tranquila, apesar do peso que ainda carrego dentro de mim. A tia Maria voltou para casa e isso me trouxe certo alívio, afinal ela é meu porto seguro, a pessoa que me faz sentir um pouco de normalidade no meio de tudo. Também arrumei uma amiga, a Vanessa. Ela é um amor, cheia de energia e sorrisos, e tem me ajudado a me situar nesse lugar que agora chamo de lar. Não é muito, mas é alguma coisa, e de certa forma já basta.
Vez ou outra o irmão dele aparece, sempre de forma discreta, perguntando se estou precisando de algo. Eu nunca sei como reagir, porque tudo me parece muito confuso, como se cada gesto deles tivesse um peso maior do que deveria.
Hoje estou aqui, junto da Vanessa, tentando me distrair. Ela surgiu com a ideia de irmos a uma festa, disse que eu precisava sair, respirar, me divertir um pouco. Eu não sei que festa é, não sei o que esperar, mas confio nela. Só sei que, por mais que eu tente manter a mente leve, lá no fundo carrego a angústia de que talvez eu não o veja de novo. E só de imaginar isso, meu coração dispara.
Ela me ajudou a escolher um vestido tomara que caia, simples, mas que ainda assim deixava meu corpo em evidência. Não era nada vulgar, ao contrário, era comportado, só que eu não tinha o costume de usar roupas assim. Sentia-me diferente, como se estivesse ocupando um lugar que não era meu.
— Eu não sei... talvez não seja uma boa ir com esse vestido. — falei, olhando meu reflexo com estranheza. A insegurança latejava dentro de mim, como se todos pudessem notar que eu estava deslocada.
Vanessa me encarou com aquele sorrisinho maroto, confiante, como quem não aceita um não.
— Amiga, não tem problema nenhum. Esse vestido tá lindo no seu corpo, sério. Então, não tem porque não querer usar. — afirmou com firmeza, como se quisesse me convencer de uma verdade que eu mesma não conseguia enxergar.
Ela terminou de se arrumar e, antes que eu tivesse tempo de inventar outra desculpa, pegou o perfume dela e borrifou em mim, o cheiro doce preenchendo o ar.— Será que é uma boa mesmo? — perguntei mais uma vez, ainda me sentindo deslocada, ainda com medo do julgamento.
Vanessa segurou meus braços com força, me olhando nos olhos, e sua voz soou com a convicção de quem não deixa espaço para dúvida:
— Não sei porque você tá insegura, você é linda.
Aquele reforço me arrancou um sorriso tímido. Talvez eu nunca conseguisse acreditar cem por cento, mas ouvir isso dela já me deu coragem. Respirei fundo, e só então concordei em sair.
Me despedi da tia Maria, que me olhou com aquele ar preocupado de sempre, mas não disse nada, e saí com a Vanessa. Seguimos juntas pelo morro, os becos cheios de gente indo e vindo. Vanessa falava sem parar, contando histórias, tentando me distrair, até que comentou que a festa era pública, que muita gente iria, que o morro inteiro praticamente comparecia. Minha curiosidade cresceu na mesma medida que meu nervosismo. À medida que nos aproximávamos, o som alto de batidas pesadas tomava conta do ar, vibrava no chão, invadia meu corpo antes mesmo de chegar. O fluxo de pessoas aumentava, e logo vi que não era exagero dela.
Assim que passamos pelas grandes portas de metal, o impacto foi imediato: uma multidão preenchia o espaço, corpos se movendo no ritmo da música, vozes misturadas em gargalhadas, copos se erguiam cheios de bebida. Era uma explosão de cores, barulho e energia. Gente dançando sem pudor, gente se beijando, outros apenas observando. E eu, ali, parada por um instante, tentando absorver tudo aquilo, sentindo o coração bater acelerado, não só pelo ambiente desconhecido, mas porque, no fundo, eu sabia que esse lugar podia mudar muita coisa dentro de mim.
Eu sabia que aquilo podia dar merda — festa nunca foi meu lugar. Sempre fui de casa, de rotina, de quietude. Na minha cabeça aquilo seria uma reunião pequena; a proporção do que era, no entanto, me esmagava: som alto que fazia o peito vibrar, corpos se esfregando, risos soltos, copos tilintando. Vanessa não deu tempo pra eu pensar, me puxou pela mão e me arrastou pro meio da pista. No primeiro instante eu fiquei travada, o corpo estranho a cada batida do som; depois, aos poucos, fui deixando a música comandar, me soltando no balanço que ela marcava, sentindo o vestido colando na pele, o perfume dela misturando com o meu.
Tinha homens vindo por ali, olhares escorregando, cantadas de meia boca — não gostei da maioria. Ainda assim eu tentava acompanhar o ritmo, fingir leveza, até que algo fez o sangue gelar: ele apareceu. Do nada estava na minha frente. A mesma presença que eu já tinha visto em vielas, nos dias de tiroteio, agora ali, alinhado com a luz bass da quadra. Os olhos dele brilhavam, mas não era brilho bom; era raiva compacta, pronta pra explodir.
— O que c*****o você faz aqui? — ele perguntou, a voz cortando o som como lâmina.
— Eu... eu só estou... — tentei explicar, tropeçando nas palavras, e Vanessa não hesitou por mim.
— Trouxe minha amiga pra curtir a festa, tá proibido? — ela rebateu, postura reta, como se aquilo fosse desafio. Não deu sinal de medo.
A resposta dele foi ríspida, cortante:
— Esse c*****o aqui não é lugar pra ela.
Vanessa não recuou. Ela empurrou a conversa pra frente com firmeza:
— Você não é dono dela, e muito menos tem nada com minha amiga. Aqui é lugar de todo mundo.
O rosto dele mudou. A tensão cresceu no ar; a vontade de partir pra agressão quase saiu do corpo dele. Vi o espaço entre eles afinar e senti o estômago virar. Antes que a p***a virasse zoeira maior, me joguei no meio, interferi do jeito que pude.
— Por que você tá bravo? — eu disse, sem frescura, sem medo de desafiar. — Você simplesmente me abandonou, e agora tá puto porque eu vim aqui? Você não tem motivos.
Falei duro porque doeu. Doeu lembrar da fuga dele, do silêncio depois do beijo, da promessa que ficou no ar. Minha voz saiu mais firme do que eu esperava. Ele olhou pra mim, meus olhos se encontraram com os dele, e naquele segundo entendi que o que eu tinha denunciado atingiu em cheio algo dentro dele.
Foi então que notei a voz do irmão dele, mais baixa, tentando controlar a tensão:
— Irmão, todos estão olhando.
Aquele aviso caiu na roda como uma ordem sussurrada. Senti os corpos ao redor se virarem, olhares escaneando a cena. O som da pista parecia afundar por um segundo. Eu fiquei ali, respirando rápido, sentindo o peso de cada olhar pousado em mim, em Vanessa, nele. A festa, que até pouco tinha sido abrigo e distração, tornou-se praça onde a nossa merda particular já vinha desaguando.
— E eu lá devo a esses filhos da p**a? O morro é meu, a festa é minha, c*****o! — ele disparou ríspido, a voz grave ecoando acima do som da música e atraindo olhares de todos os lados.
— Vamos parar de fazer contenda — murmurou o Coringa, tentando aliviar a tensão, mas a fúria dele era como pólvora acesa.
— Vamos, Maisie, vamos curtir — disse Vanessa, me puxando pelo braço, determinada a me tirar dali, mas antes que eu pudesse dar um passo, ele agarrou meu braço com força. O aperto foi seco, firme, não deixando espaço pra resistência.
— Tu não vai ficar aqui — rosnou, nervoso, os olhos queimando em cima de mim. — Vai vim comigo.
Não houve tempo para pensar, nem para argumentar. Ele simplesmente me puxou para perto, arrancando-me da pista diante de todos. Vanessa ficou parada, sem reação, os olhos arregalados, impotente diante da cena. A vergonha me corroía por dentro; cada pessoa que olhava era como uma faca atravessando minha pele.
— Você está me machucando! — reclamei, tentando soltar meu braço, a voz falhando entre raiva e humilhação.
Mas ele não parou. Continuou me arrastando no meio da multidão, o olhar fixo, o corpo rígido, ignorando meus protestos. Eu sentia meu coração disparar, não sabia se era medo, vergonha ou uma mistura dos dois. Só sabia que, diante de todo mundo, eu parecia uma boneca puxada à força, sem conseguir reagir.