Minha avó, dona Hugn, era uma senhora de cinquenta anos que pegou o neto em forma de uma doação do filho, no caso meu pai e da ex-nora, no caso minha mãe. Quando eu tinha apenas cinco anos, depois da mamãe trocar meu pai por um outro cara.
A partir daí, eu fui melhor criado e com uma pessoa mais responsável, tirando as vezes que ela iria para o bingo clandestino ou fumava perto de mim.
Aos cinco anos eu fui morar com vovó, em uma casa que era maior que muitas, uma casa onde ela criou os três filhos e onde nenhum foi visitar ela direito depois de sair de lá.
Vovó foi a figura mais próxima de uma mãe para mim.
Ela foi a mulher que ensinou a ser um garoto educado, que me disse que não havia nada além de escuro, que eu não devia ficar com medo ou que se eu não tirasse boas notas ela iria me tirar da escola e me colocar pra trabalhar, além de falar que eu tinha que ser bom no que eu fazia, não competir com ninguém, mas me destacar como um Hugn.
Bem, eu segui tudo que ela havia dito.
Bem, boa parte das coisas que ela disse e me ensinou.
Vovó havia perdido meu avô depois de um câncer de cabeça terrível, quando enterrou meu avô, disse que nunca mais iria se casar, pra sofrer aquilo de novo, dito isso, ela realmente não se casou de novo, mesmo que eu soubesse que ela era uma coroa gostosa pra muitos, do tipo que faz você pensar na terceira idade como algo normal e até abrir os horizontes.
Assim como foi com o jovem Alberto, um garoto que sempre ia em casa, eu tinha apenas oito anos quando ele apareceu por lá procurando por ela, ele devia ter uns vinte anos, ele até foi legal comigo, jogamos videogame a tarde toda, isso até vovó chegar e ver ele no nosso sofá, ao meu lado e comendo as minhas batatas.
Bem, depois nunca mais vi ele.
Vovó sempre saia com algumas pessoas, mas durante o tempo que morei com ela, ela só me deu uma babá, uma que eu levei pro coração e até hoje lembro dela e dos p****s enormes.
Vovó não era o tipo de mulher que dependia de alguém pra alguma coisa, ela também não era o tipo que mudava de opinião ou fazia o que não gostava.
Ela detestava futebol.
Ela detestava músicas metálicas.
Ela detestava tatuagem.
Ela detestava que bebesse direto na garrafa.
Ela detestava o presente.
Ela detestava perder.
Ela detestava não ser escutada.
Ela detestava pessoas falsas.
Ela detestava vestidos curtos e pessoas que usava esses tipo de vestido, também quem falava da roupa dos outros ( Esse eu deixo o questionamento "hipocrisia?").
Mas o principal.
Ela detestava quando alguém criticava o cabelo dela.
Vejam, minha avó era uma espécie de Edward mãos de tesoura, isso até o cabelo dela sofrer demais.
Vou contar pra vocês como ela ficou careca.
Com toda aquela prepotência que ela tinha.
Bem, ela começou cortando apenas as pontas até querer ter um cabelo platinado, sabemos que você vai ter que usar química pra tirar o preto do cabelo.
Vovó em um dia descoloriu o cabelo quase cinco vezes, até ele virar uma bucha elástica.
Eu falo isso por que eu tinha dez anos e lembro da cabeleira fazendo o teste, puxando o cabelo dela e vendo o resultado desastroso, enquanto eu estava sentado perto, com uma revista no colo e de boca aberta, vendo minha avó mais parecida com um esfregão velho em pé.
Bem, no fim do dia ela estava careca e com uma peruca.
Isao mesmo, minha avó teve que usar peruca, ainda hoje se você tirar o cabelo dela vai ver as falhas daquele dia terrível pra ela.
Vovó era vaidosa e ela passou isso pra mim, ela era cheirosa, não só ela, mas as roupas e até o ambiente que ela estava.
Aprendi com ela a ser assim, tanto que hoje cada mulher que conheço não esquece do meu cheiro tão rápido.
Vovó nunca me bateu ou levantou a mão maravilhosa dela para mim, mas me colocou de castigo tantas vezes que eu nem consigo lembrar da metade, eu era uma criança de comportamento duvidoso, do tipo que estaria aprontado quando estivesse quieta demais.
Já fiz uma porção de coisas, desde colocar adoçante na picina ou invadir a casa do vizinho pra pegar o cachorro dele. Do tipo a estourar a caixa de correio no fim da rua ou estourar as luzes dos postes com o estilingue.
Eu era terrível.
Terrível mesmo.
Mas vovó sempre estava lá pra resolver tudo.
Até mesmo pra me levantar, como da vez que cai da árvore no fundo de casa e quebrei o braço, quando pulei do telhado e quebrei o nariz ou quando desmaiei no colégio depois de cortar minha perna nos brinquedos e ver sangue.
Ela também esteve nas reuniões de escola e até quando as professoras chamava pra conversar, me acusando de sumir com o material de algumas crianças ou brigar com alguns garotos, de sair escondido da escola e ir jogar no fliperama perto do colégio, de ser convidado a se retirar da escola e até de algumas aulas.
Eu era uma criança horrível.
Mas vovó sempre estava lá.
Ela não brincava quando dizia que me pegou pra criar, ela também não admitia que alguém, no caso papai e mamãe, falasse que iria me pegar novamente.
Eu fui dela a partir dos cinco.
Chamava ela de avó, mas ela era quase uma mãe, foi ela que me criou e me educou, mesmo algumas pessoas não sendo de acordo, a partir da forma que ela me criou, até me mimando, ela ainda sim foi uma criação bem melhor do que a que eu teria com meus pais.
Além disso, ela também me amava.
Eu era o neto preferido.
Eu era o melhor de três.
Eu era o biscoito premiado.