Sabe os dias que colocamos o pé esquerdo fora da cama e pensamos “ah, nada vai acontecer, isso é tudo superstição”? Pois é...
Eu não acredito em coincidência então... Foi culpa do pé esquerdo, da escada, do gato preto do vizinho, do rejunte que eu pisei, o espelho que eu quebrei quanto tinha sete anos. Qualquer coisa.
Tá não foi nada tão ruim... Eu só não estava esperando...
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Por culpa do Baekhyun – que me deixou cansado demais noite passada, porque ele não queria parar hehe – a gente acordou super atrasado.
Acabamos tomando banho juntos e um vestindo o outro, enquanto eu fechava os botões da sua – minha – camisa ele fazia o nó da gravata do meu uniforme.
Ele usava minhas camisas porque ficavam largas em seu corpo, não ficavam fazendo o contorno de sua barriga de forma tão descarada, mas né, não era o tipo de coisa que dava para esconder.
Eu fiquei tomando café – que ele tinha preparado como sempre – e ele saiu mais cedo para pagar o aluguel do prédio, disse que ia comprar café no caminho.
Baekhyun já estava com sete meses e uma semana de gravidez e o cheiro dele continuava mais forte, então pensamos que estava tudo bem, no final do mês que vem eu me formo e tudo saí como o planejado.
Saí correndo de casa com um pão ainda na boca, a mochila em um braço e o blazer na outra.
Como eu estava em um dia azarado perdi o ônibus.
Quase não consegui entrar na escola por conta do atraso. Por um segundo os portões teriam se fechado.
Eu estava ofegante e meio suado.
Ao chegar à sala eu nem bati na porta, simplesmente entrei, eu pensei que levaria uma dura do professor Byun, mas... Ele estava estático, seus olhos estavam arregalados e toda a turma ria de alguma coisa.
Foi então que a piada chegou aos meus ouvidos e eu entendi.
— Chegou o manezão que pega o Byun... Pra um nerdizinho até que se deu bem hein, Park...
Foi então que eu entendi o que estava acontecendo. Hideki tinha o cheiro de um Alfa... No caso eu... E assim como o cheiro do Byun era forte antes, agora o meu dominava seu corpo, quase da forma que será para sempre.
Baekhyun virou-se em direção a mim quase me câmera lenta, como naquelas cenas de filme de terror.
Seus olhos estavam vermelhos, eu sabia o quanto ele queria chorar, mas jamais faria isso perante outras pessoas, seu orgulho não permitiria.
Ele passou por mim quase correndo.
— Hyung...
— Park, volta pra sala. Esta atrasado novamente, devo falar com seus pais? Eu voltarei logo. Faço os exercícios da pagina 113.
E saiu. Como a diretoria e o banheiro ficavam próximo eu não sei para onde ele foi. Mas aposto no banheiro. Peixe, leite, laranja e estresse o deixam enjoado.
Voltei para sala e me sentei no meu canto como sempre.
Coloquei os fones de ouvido para não ficar ouvindo aquelas piadas idiotas que faziam sobre nosso relacionamento.
Se eu já não tinha amigos porque era “novo” na escola e não sabia me enturmar, só piorou depois que eu virei o namorado do professor.
Mas apesar de isso estar me incomodando profundamente. Eu fico preocupado com o Hyung.
Eu sei o quanto ele preferia que Hideki fosse qualquer coisa, menos um alfa. Ele ficou radiante quando entrou no sétimo mês o seu cheiro continuava a predominar.
Tão radiante que a gente até tinha transado umas três vezes seguidas. Então vem essa história de que Hideki é um alfa. Isso deve tê-lo abalado demais.
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Cheguei em casa e ele estava pelado no sofá. Eu queria rir, porque de novo ele parecia uma p******a. Mas eu me segurei, pois seus olhos estavam vermelhos e eu sentia sua angústia.
— Por que demorou tanto a chegar? – ele perguntou com a boca cheia de marshmallow com Nutella. Não sei como ele aguenta tanto doce.
— Eu estava à procura de emprego. E consegui, numa Starbucks aqui perto. Começo na segunda.
— Que bom, porque eu fui afastado da escola. A diretoria não quer ter problemas com pais por eu estar grávido de um aluno.
Ele falava colando mais do doce na boca e misturando tudo aquilo com suas lágrimas salgadas.
Sentei-me ao seu lado e fiquei acariciando seus cabelos.
Ele veio todo dengoso deitar no meu peito e chorar. Fiquei acariciando suas costas, ele tinha a pele tão macia, mas vez ou outra eu ficava fazendo o contorno das penas da fênix.
Eu gostava das tatuagens dele... Gostava da fênix que cobria suas costas, as tatuagens bizarras e misteriosas que cobriam seus braços, o provérbio chinês que dava a volta em seu tornozelo, eu amava tudo. Amava a textura e os prováveis significados para tudo aquilo.
— Channie... Eu amo meu trabalho. Eu não queria ficar longe da escola. Se não fosse pelo bebê...
...Agora eu estaria fumando uns trinta cigarros.
Eu jurei que ele fosse dizer que nada disso estaria acontecendo, mas ele consegue me surpreender a cada dia. Ele estava se importando com nosso Hideki quando ele era, de certa forma, o causador de nossos problemas.
— Vai ficar tudo bem. Eu te amo.
O beijei, mesmo em meio as lágrimas. Um beijo calmo e lento. Fiquei o beijando até que eu o senti calmo. O peguei no colo e levei para o banheiro, dei-lhe banho e o cuidei, assim como ele fazia comigo.
Coloquei nele apenas uma das minhas regatas, nada mais e então deitei ao seu lado. Fiquei acariciando seus cabelos e sentindo suas mãos no meu peito, às vezes ele parecia um filhote de cachorro assim. Esses momentos eram raros, mas eu valorizava cada um.
E então acabei pegando no sono fazendo carinhos nos seus cabelos e sentindo aquelas mãozinhas procurar por mim.
Ele tateou meu rosto e selou meus lábios, assim podendo dormir mais tranquilo.