Entre uma encarnação e outra

1111 Words
Era apenas mais um dia de trabalho no plano espiritual. Aqui jaz uma comunicação que Eduardo recebeu, assim que colocou os pés no templo espírita. Tudo indicava que já estavam esperando por ele:               Precisei dar um pulo no mundo dos encarnados, mais precisamente na prefeitura municipal de São Paulo para resolver um probleminha. Entrei na grande sala e vi ali, sentado numa cadeira enorme que lembrava um trono de um rei antigo, um homem que outrora fora austero porém agora se apresentava quase que desfalecido. Contei quatro vultos negros ali grudados nele, sugando suas energias. Ah! Esqueci de mencionar, sou um espírito, como aqueles vultos que estavam ali na minha frente. Mas não necessariamente iguais, somos de classes bem distantes! Havia algumas pessoas encarnadas, ou seja, vivas, ali também. Mas não importava agora, deste lado de cá da realidade o que conta é a missão que vim realizar. Voei rapidamente, fazendo balançar meu sobretudo materializado como que se fossem asas de um anjo, colocando-me defronte aos agressores espirituais, dizendo enquanto estendia as mãos:             — Peço com gentileza que parem de atormentar este pobre homem...             — Um absurdo! Ele é um político corrupto! Corrupto! Vamos continuar aqui até que ele desencarne! Vá embora! – um dos vultos malignos respondeu furiosamente.             Dei um leve sorriso. Eu sei que não deveria, mas gosto quando eles não colaboram logo de cara. Isso me faz expressar o modo artístico como gosto de resolver essas coisas. Assim, num movimento rápido retirei, ou melhor, materializei uma katana de uma bainha presa nas costas de meu sobretudo, e no melhor estilo de filmes de ação ou de super-heróis que eu adorava quando encarnado, causei uma expressão de terror no rosto das criaturas que ali se encontravam. Mesmo assim, o ser que respondera rispidamente e que parecia ser o mestre dentre aqueles, disse aos demais:             — Acabem com este espírito de luz metido a b***a e arrastem-no para o abismo!             — Não!!! Não está vendo que ele é o Caçador de Demônios?! – respondeu amedrontado um dos outros vultos.             — Seus tolos ignorantes, isto não passa de uma lenda! Vão logo! Vocês estão com medo do que? Já estão mortos mesmo! – insistiu o mestre daqueles pobres espíritos ignorantes.             Com essas últimas palavras, os vultos se convenceram e pularam para me atacar, mesmo que receosamente. Não tendo alternativa, engajei-me em combate com eles. Como disse acima, confesso que gostei... "Tá" certo, eu sei... É pecado e blá blá blá... Mas na maioria das vezes que chego perto desses espíritos inferiores, eles saem correndo como d***o foge da cruz. Fazia um certo tempo que eu não tinha nenhuma ação como esta na minha "vida" espiritual. Na maioria das vezes acabo fazendo mesmo é o trabalho de resgate de recém-desencarnados que ainda estão confusos com sua atual situação.             Eu poderia até descrever a luta, entretanto julgo melhor não fazê-lo para deixar para a sua imaginação. Apenas um momento interessante gostaria de frisar, que foi uma verdadeira cena cinematográfica: durante o furor do combate, os encarnados continuavam agindo normalmente, afinal de contas eles não podiam ver "fantasmas"! Mas uma jovem senhora abriu as gigantescas janelas, queixando-se:             — Meu Deus! Como está escuro e abafado aqui. Isto só está piorando o estado do Sr. Prefeito...             Neste momento, o vulto "falador" saiu voando pela janela, após meu pontapé bem em cheio no meio de seu peito. Outros dois fugiram. O que ficou, perplexo com tudo, encolheu-se num canto, com medo e envergonhado da surra que levara, tremendo ao perceber que realmente estava diante do Caçador de Demônios.             — Por Deus! Quando você vai evoluir? Estes seus métodos infantis e pouco ortodoxos assustam o pessoal lá em cima. – respondeu rispidamente uma senhora, envolta em uma luz branca e com ar áspero, porém de "vovózinha", que você sabe que sempre pode confiar...             — Senhora Débora! Que prazer vê-la por aqui tão prontamente. Veio trazer o remédio para levantar o prefeitão aí? Me desculpe, mas meus métodos meio doidos funcionam às vezes! Acabo de recrutar mais um pro nosso time! – naquela hora, estendi a mão para o vulto que estava acuado no canto da sala. Apesar de aterrorizado, senti que ele tinha sido tocado e possuía vontade de evoluir e sair da situação em que se encontrava. Ele, vagarosamente, deu as mãos para mim e levantou-se, pedindo perdão e orando para que Deus também o perdoasse.             A senhora Débora trabalha na mesma função que eu, sendo uma "socorrista" do mundo espiritual, fazendo uma ligação entre os encarnados e desencarnados da Terra. Sejam estes doentes, recém-desencarnados ou encarnados assombrados por espíritos dos quais lhes carecem o conhecimento necessário para evoluírem, em sua maioria, aqueles que não aceitam a morte.             A minha colega ficou ali medicando o necessitado e eu percebi que o outro vulto metido a b***a ainda se encontrava na rua, mesmo depois de eu o ter arremessado da forma que fiz. Pulei da sacada ao encontro dele, dizendo, enquanto sorria:             — Faça igual seu amigo lá! Venha para o lado branco da força, irmão.             — Maldito, caiu na minha armadilha! Acha que tudo isso aqui é brincadeira? Bancando o super-herói, parafraseando filmes e personagens do mundo dos encarnados? Hoje te arrasto para o abismo onde permanecerá até o final dos tempos! – resmungou rispidamente o espírito maléfico.             No mesmo instante, uma horda de espíritos iguais a ele surgiu como que do nada. Foi uma luta ferrenha. Fiquei abismado com a quantidade e como ele tivera a capacidade de organizar e atacar tão diretamente daquela forma. Nunca vi algo assim. Confesso que senti uma pontada de medo percorrer meu corpo espiritual, o perispírito, mas durante toda a troca de socos e pontapés me lembro do Salmo da Bíblia que mais gosto: "Ainda que eu ande pelo vale da sombra da morte, não temerei m*l algum pois Ele está comigo"             Ao terminar o combate, já cansado por ter utilizado todas as minhas energias espirituais para devolver aqueles inúmeros espíritos ao abismo, escutei, meio que desacreditado:             — Caramba, que legal esse filme que estão rodando por aqui! Olha a coreografia do cara de sobretudo!             — Olhei para trás instigado e surpreso ao ver aquele jovem encarnado me fitando. Não acreditei como as coincidências do destino que apenas se confirmaram, pois lá em cima falam muito de você caro Eduardo, ou melhor, Eddie, como você gosta de ser chamado. Bem, esta e outras coisas são o que acontecem normalmente entre uma encarnação e outra, quando você não está no plano terrestre. Toda a ação acontece aqui, por trás das cortinas. Venha, acompanho vocês até o centro espírita, pois temos assuntos importantes a tratar. Enquanto isto, continuo a minha história...   
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