Marcela Mille
Passei a maior parte da minha vida nas ruas, um lugar onde a luz era apenas uma lembrança distante e a escuridão me engolia inteira.
A escuridão foi minha professora, minha amante, meu refúgio.
Quando fui capturada e forçada a vender meu corpo, não tive o luxo de escolher. A única escolha que me restou foi sobreviver. E, na sobrevivência, aprendi a mentir. Não mentiras comuns, mas mentiras feitas de veludo e veneno. Tornei-me uma artista na manipulação, uma dançarina no fio da navalha.
Sobreviver nas ruas não era só lutar contra o frio ou a fome; era lutar contra a invisibilidade.
As pessoas passavam por mim como se eu fosse um fantasma, algo que não existia ou que elas fingiam não ver. Às vezes, era melhor assim. Melhor ser ignorada do que ser notada pelas pessoas erradas.
Já vi mulheres serem arrastadas à força porque chamaram atenção demais. Vi crianças serem usadas como isca para um trocado, enquanto os pais afundavam no vício. A rua é um lugar sem misericórdia, sem regras. Só existe uma lei: ou você devora, ou é devorado.
Eu não podia me dar ao luxo de ser devorada. Aprendi a roubar antes mesmo de aprender a confiar. E confiar era um erro que não podia me permitir.
Os rostos ao meu redor mudavam como o vento, mas as intenções eram sempre as mesmas. Ninguém ajuda por bondade. Se alguém te oferece algo, é porque quer algo em troca.
Talvez fosse isso que me tornava tão boa em mentir. Eu já sabia o que eles queriam antes mesmo de abrirem a boca. E eu dava a eles exatamente o que esperavam, sempre mantendo a faca metafórica pronta para o caso de precisarem de um lembrete de que eu não era tão indefesa quanto pareço.
À noite, quando o mundo se silenciava, era o pior momento. O frio entrava nos ossos, e o medo era o único cobertor. Era quando os monstros saíam. Homens que rondavam com sorrisos nojentos, que viam meninas como eu como caça.
Aprendi rápido que não dava para correr de todos eles. Às vezes, você precisa engolir o orgulho para viver mais um dia. Outras vezes, você reza para que eles percam o interesse antes de te destruírem por completo.
Não foi uma, nem duas vezes que vi corpos jogados no beco, rostos que eu conhecia, mulheres que riram comigo no dia anterior. A morte na rua era tão banal quanto a sujeira no chão. Nós chorávamos por elas, mas nunca por muito tempo. Lágrimas eram uma fraqueza, e fraqueza era uma sentença de morte.
Minha vida virou uma luta constante por um pedaço de pão, por um canto seguro, por algo que parecesse humano. Mas o que mais me marcava era ver a luta dos outros. Crianças famintas brigando por restos de comida.
Mulheres desesperadas fazendo coisas que nem consigo repetir. Homens que se afogavam na bebida porque era mais fácil do que encarar o vazio. O mundo das ruas era uma guerra constante, mas não uma guerra que você luta por vitória. É uma guerra que você luta para não desaparecer.
E talvez o mais c***l de tudo fosse isso: a rua não só tirava tudo de você, como te fazia acreditar que você merecia. Ela quebrava o espírito antes de quebrar o corpo, transformando cada um de nós em sombras do que poderíamos ter sido.
Eu sobrevivi à miséria e à violência das ruas porque queria vencer, queria me tornar outra pessoa, alguém melhor, alguém respeitada. Mas, ironicamente, o que me tornei foi algo muito diferente. Hoje, sou uma pessoa sem coração, manipulada pelas circunstâncias e c***l por escolha.
Com o tempo, minha habilidade em sobreviver se transformou em algo mais sombrio. Fui promovida no jogo da vida suja.
Hoje, sou especialista em minha arte: enganar pessoas, especialmente mulheres ambiciosas e cegas pela sede de grandes fortunas. Uso a ganância delas contra elas mesmas. Meu sorriso encantador é minha arma mais letal, escondendo minha verdadeira intenção, fria e calculada.
Meu namorado costuma dizer que eu não tenho coração. Talvez ele esteja certo. Mas ele é ainda pior do que eu. Ele tira vidas sem pensar duas vezes, sem remorso ou qualquer preocupação com as consequências. Ele diz que o mundo é assim, que não há espaço para fraquezas, e talvez eu tenha começado a acreditar nisso também. Quem precisa de moral, afinal? O que realmente importa é o que podemos arrancar dessa vida.
Eu tenho coração, sim. Mas o dinheiro sempre fala mais alto. Sempre. No final, nada mais importa.
Mas voltando àquela desgraçada... Samuel está obcecado por ela, aquela mulher que sequer conheço pessoalmente, mas que já detesto com todas as minhas forças. Ele viu uma foto dela, só uma imagem, e ficou encantado, fascinado, e isso me encheu de ódio. Como ele ousa? Como ele pode desejar alguém assim quando fui eu que estive ao lado dele, enfrentando tudo e todos?
Samuel disse que só me pagaria o que me deve quando a morena estivesse em suas mãos. Ele seria o primeiro a usá-la, a dormir com ela. Ele não queria só controlar, queria destruir, e eu... Bem, eu só queria o meu dinheiro. Mas ouvir ele falar dela daquele jeito fez algo em mim que eu não esperava: despertou uma raiva que ia além da simples inveja.
O que me mata é a contradição. Samuel, com sua obsessão doentia, quase me matou mais de uma vez com suas exigências absurdas. Ele é um homem c***l, imprevisível, e ainda assim, há algo nele que me prende. Talvez seja o poder que ele emana, aquela aura de perigo que me fascina tanto quanto me destrói.
Meu namorado? Ele é apenas uma distração. Ele me dá prazer, sim, mas não controla minha mente. Já Samuel... Ele me possui de uma forma que eu odeio admitir. Não é amor. É algo sujo, algo que me faz sentir viva e morta ao mesmo tempo.
Eu sei que estou jogando com fogo. Sei que estou presa em um ciclo de ódio, desejo e ganância. Mas esse é o mundo que escolhi. E se sobreviver significa que preciso engolir meu orgulho e me rebaixar, que assim seja. Porque no final, só há uma regra: quem tem mais controle, vence. E eu não vim até aqui para perder.
No fundo, eu sei quem eu sou. Uma alma boa, perfeita em sua missão. Sou a personificação da justiça, mesmo que os métodos que escolhi sejam incompreendidos por tantos. Não espero que me entendam — nem quero. As pessoas são rápidas em julgar, em apontar o dedo, mas poucas têm a coragem de enfrentar as verdades cruas desse mundo, de encarar o quão brutal é a sobrevivência.
Eu fiz isso. Eu encarei. E mais do que isso, eu sobrevivi. Não só sobrevivi, eu venci.
Quando encontro aquelas meninas na rua, vejo nelas o que eu era: jovens, quebradas, famintas por uma oportunidade, qualquer oportunidade, de escapar. Sou eu quem lhes estende a mão. Sou eu quem lhes dá comida, abrigo, e algo que elas nunca teriam sem mim: uma chance. Ainda assim, ao invés de gratidão, o que recebo delas? Olhares de ódio, desconfiança, ingratidão.
Mas eu não as culpo. Elas são jovens demais, tolas demais para entender. Elas não sabem o que é necessário para sobreviver nesse mundo. Não sabem que, para prosperar, você precisa ser forte, precisa fazer escolhas difíceis. Eu vejo o potencial em cada uma delas, mesmo quando elas mesmas não enxergam.
Ainda assim, Helena é diferente. Ela não é como as outras meninas. Ela não é uma vítima, não uma qualquer. Não. Helena é esperta, mas subestima o mundo em que vive. Ela não entende que esse jogo já foi vencido por pessoas como eu.
Meu desejo de capturá-la não é movido por ódio — pelo menos não só por isso. Eu quero mostrar a ela o que significa ser parte de algo maior, de um sistema que funciona. Ela acha que pode escapar de mim, mas está apenas adiando o inevitável.
Helena precisa aprender o que é obediência. Precisa ser domada, e eu sou a pessoa certa para fazer isso. Samuel, com toda sua obsessão por ela, me deu a missão perfeita. Ele quer Helena, e eu entregarei Helena. Não por ele, não pelo desejo ridículo que ele nutre, mas porque isso me levará aonde quero estar. Essa captura será a última peça que me separa do topo.
Mas confesso, há algo nela que me intriga. Uma foto simples bastou para que Samuel ficasse obcecado. Aquele olhar dela, tão desafiador, tão cheio de vida... É algo que me provoca. Helena não é apenas uma fugitiva, ela é uma afronta ao que acredito, ao que construí.
No fundo, talvez eu a admire. Talvez seja isso que me irrita tanto. Eu vejo nela um reflexo de algo que deixei para trás há muito tempo: esperança. E eu quero esmagar isso. Quero arrancar cada gota de esperança que ela tenha e mostrá-la como o mundo realmente funciona.
As noites têm sido longas. Fico deitada na cama, enquanto meu namorado dorme ao meu lado, roncando como o i****a que é. Penso em como será o momento em que Helena finalmente será minha. Como será o encontro, quando ela perceber que todos os caminhos a levaram até mim.
Eu posso quase ouvi-la implorando, tentando entender como conseguiu chegar tão longe, mas sem chances de escapar. Eu serei fria, como sempre fui. Samuel terá o que quer, mas serei eu quem vencerá. Porque a vitória não está no dinheiro — embora eu vá amar cada centavo. A vitória está no poder.
Enquanto espero, sinto minha paciência se desgastar. Está demorando demais. Onde está essa maldita?
Meu telefone parece zombar de mim, tão silencioso. Mas eu sei que é só questão de tempo. Sempre foi. Não importa o quanto ela fuja, o quanto tente se esconder. Eu sou boa demais, perfeita demais, para falhar.
Quando a hora chegar, serei o rosto que Helena verá quando sua resistência finalmente se quebrar. Vou ser sua última memória de liberdade antes de ela ser consumida pelo sistema que eu represento. E quando isso acontecer, quando tudo estiver acabado, não terei dúvidas.
Eu sou a heroína dessa história. Helena, ela só não sabe disso ainda.
E quando Marcela tem um objetivo...
Acontece.