Capítulo 3 — Primeira Ordem Direta

1401 Words
Júlia encarou o envelope por mais tempo do que gostaria de admitir. Preto. Simples. Sem nome. Mas não precisava. Ela abriu. O cartão branco contrastava com o fundo escuro. Uma única frase. Direta. “Hoje, você vem comigo para a reunião do conselho.” Sem assinatura. Sem explicação. Sem opção. Júlia soltou um pequeno suspiro. — Claro… — murmurou. — Claro o quê? — Marina apareceu do nada. Júlia fechou o cartão. Tarde demais. — O que é isso? — Marina já estava puxando da mão dela. — Nada importante. — Se não fosse importante, você não estaria com essa cara. Marina leu. E arregalou os olhos. — Ah. Meu. Deus. Júlia pegou o cartão de volta. — Não começa. — Ele te chamou pra reunião do conselho? — Pelo visto. — Isso não é normal. — Eu sei. — Você não é nem da diretoria. — Eu sei, Marina. Silêncio. — Você vai? Júlia ficou parada por um segundo. Depois respondeu: — Eu trabalho aqui. Tradução: não era uma escolha. O resto da manhã passou rápido demais. Mas não leve. Júlia tentou se concentrar no trabalho, mas a mente voltava sempre para a mesma coisa. Reunião do conselho. Aquilo não era uma reunião comum. Era onde decisões grandes eram tomadas. Onde nomes importantes sentavam. Onde erros não existiam. E ela… não pertencia àquele lugar. Ainda não. — Você vai com essa roupa? — Marina perguntou, avaliando. Júlia olhou para si mesma. Camisa branca. Calça social preta. Simples. Impecável. — Estou adequada. — Está. Mas… — Mas o quê? — Parece que você está indo trabalhar. Júlia arqueou uma sobrancelha. — E eu estou indo pra quê? Marina sorriu. — Para um campo de guerra elegante. Júlia ignorou. Mas a frase ficou. Às 13:40, o telefone tocou. Número interno. — Júlia. A voz de Renata. — Ele está saindo em dez minutos. Sem “por favor”. Sem explicação. — Entendido. Júlia desligou. Respirou fundo. Pegou o tablet, a agenda, e se levantou. — Boa sorte — disse Marina. — Eu não preciso de sorte. — Todo mundo precisa quando envolve ele. Júlia não respondeu. Saiu. O elevador parecia menor. Ou talvez fosse só a tensão. Quando as portas abriram, Pedro já estava lá. De pé. Imóvel. Como se o tempo não tivesse passado para ele. Terno escuro impecável. Expressão fechada. Olhar direto. Ele a analisou em silêncio. Da cabeça aos pés. Sem pressa. Júlia sustentou. Não desviou. Não abaixou. — Você demorou — ele disse. Ela olhou o relógio. — Ainda faltam quatro minutos. — Eu não gosto de esperar. — Então chegou cedo. Silêncio. Pedro segurou o olhar dela por um segundo a mais. Depois virou. — Vamos. O trajeto até o carro foi silencioso. Júlia andava ao lado dele. Passos firmes. Postura controlada. Mas consciente demais da proximidade. O estacionamento estava quase vazio. O carro preto já esperava. Motorista à frente. Porta aberta. Pedro entrou primeiro. Júlia hesitou por meio segundo. Depois entrou também. O espaço era fechado. Silencioso. E próximo demais. O carro começou a se mover. Júlia manteve o olhar à frente. — Você sabe o que é essa reunião? — ele perguntou. — Conselho. — E sabe o que isso significa? — Decisões estratégicas. Ele virou o rosto para ela. — Significa que não há espaço para erro. Júlia manteve a expressão neutra. — Eu não erro fácil. O canto da boca dele se moveu. — Eu percebi. Silêncio. — Então por que eu estou aqui? — ela perguntou. Direta. Pedro não respondeu imediatamente. Observou. Como sempre. — Porque você resolve problemas. — Isso não é função de conselho. — Não. — ele disse baixo. — Mas é função minha escolher quem está perto. Aquilo mudou o ar. Júlia sentiu. — E o senhor escolheu errado? Pedro inclinou levemente a cabeça. — Ainda estou avaliando. O prédio do conselho era mais silencioso que o da empresa. Mais fechado. Mais… seletivo. Eles entraram. Olhares discretos se voltaram. Não para Júlia. Para ele. Sempre para ele. Mas alguns perceberam. Ela estava ao lado dele. E isso era suficiente. — Fique perto — ele disse, baixo. Ela não respondeu. Mas ficou. A sala era ampla. Mesa longa. Homens mais velhos. Algumas mulheres. Todos com a mesma expressão: controle. Pedro entrou sem pedir licença. Como se aquele espaço fosse dele. Talvez fosse. — Estamos completos agora — alguém disse. Pedro sentou. Júlia ficou atrás, ligeiramente ao lado. Observando. Analisando. Aprendendo. A reunião começou. E, em poucos minutos, ficou claro: Pedro não participava. Ele dominava. Interrompia quando queria. Corrigia sem suavizar. Decidia sem hesitar. E ninguém contestava por muito tempo. Júlia acompanhava. Rápida. Atenta. Anotando pontos-chave. Mas também observando ele. A forma como pensava. Como reagia. Como controlava. Era… impressionante. E perigoso. — Isso está errado. A voz de Pedro cortou a sala. Um dos conselheiros se calou imediatamente. — Os números não fecham. — Fecham sim — o homem insistiu. Pedro virou o tablet na direção dele. — Então explique isso. Silêncio. O homem hesitou. E Júlia viu. O erro. Pequeno. Mas suficiente. Ela se inclinou levemente. — Linha três — disse baixo. Pedro ouviu. Claro que ouviu. Olhou o ponto. E então— — Linha três. A sala inteira voltou a atenção. O homem travou. — Isso… isso pode ser ajustado. Pedro recostou. — Pode. Mas não deveria precisar. Silêncio. Decisão tomada. Alguns minutos depois, ele falou sem olhar para trás: — Júlia. Ela se aproximou. — Confirme os dados e me diga o impacto. Sem hesitar. Sem explicar. Ela pegou o tablet. Analisou. Rápido. Preciso. — Afeta o fechamento em 2,3%. Mas não compromete a decisão se ajustado agora. Pedro não olhou. Mas ouviu. — Corrijam. E o assunto seguiu. Júlia voltou para a posição. Mas agora… não era invisível. Alguns olhares mudaram. Ela percebeu. Eles também. A reunião terminou quase duas horas depois. As pessoas começaram a sair. Conversas baixas. Olhares avaliando. Pedro se levantou. — Venha. Ela seguiu. No corredor, o silêncio voltou. Mas agora era outro tipo. Mais carregado. Pedro parou. Virou para ela. — Você não hesitou. — Não tinha por quê. — Tinha. Ela sustentou o olhar. — Eu sabia o que estava fazendo. Ele se aproximou. Devagar. Como sempre. — E se não soubesse? — Eu não estaria aqui. Silêncio. Pedro a observou. Mais de perto agora. Mais atento. — Você não se intimida fácil. — Já disse isso antes. — E continuo certo. Júlia respirou fundo. — Era só trabalho. Ele deu um pequeno sorriso. — Não. A voz ficou mais baixa. — Não foi só isso. O coração dela acelerou. Ela odiou. — O senhor está complicando algo simples. — E você está simplificando algo que não é. Silêncio. Pesado. — Posso voltar? — ela perguntou. Ele demorou. Como se pensasse. Ou como se não quisesse. — Pode. Ela virou. Mas— — Júlia. Ela parou. Não virou. — Sim? — Continue assim. Pausa. — Eu gosto de quem não recua. Aquilo ficou. Forte demais. Ela saiu sem responder. No carro, de volta, o silêncio era outro. Mais consciente. Mais perigoso. — Você chamou atenção — ele disse. Júlia olhou pela janela. — Não era a intenção. — Mas aconteceu. — Não controlo o que os outros pensam. Pedro a observou. — Mas controla o que faz. Ela virou o rosto. — Tento. Ele se inclinou levemente. — E até quando pretende tentar comigo? Aquilo a pegou desprevenida. — Isso não faz sentido. — Faz. Silêncio. — Porque você não recua. Ela sustentou o olhar. — E o senhor não para. O canto da boca dele subiu. — Exatamente. O carro parou. Júlia saiu primeiro. Sem olhar para trás. Sem responder. Mas com o coração acelerado demais. Quando voltou ao escritório, Marina praticamente correu até ela. — E aí?! Júlia deixou a bolsa na mesa. — Foi uma reunião. — Só isso? Júlia a encarou. — Não. Marina sorriu. — Eu sabia. — Eu só fiz o meu trabalho — E ele? Júlia hesitou. Por um segundo. — Ele… percebeu. Marina arregalou os olhos. — Percebeu o quê? Júlia virou para o computador. — Que eu não sou invisível. GANCHO FINAL Naquela noite, Júlia recebeu uma mensagem. Número desconhecido. Sem nome. Ela abriu. Uma única frase: “Amanhã, você fica depois do horário.” Sem explicação. Sem opção. E, dessa vez… ela sabia. Aquilo não era só trabalho.
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