Capítulo 7 — Jogo silencioso

1156 Words
Júlia entrou no carro sem dizer nada. Porta fechando. Ar condicionado frio. Espaço próximo demais. Pedro já estava lá dentro. Imóvel. Como se aquele momento fosse apenas mais um detalhe controlado do dia dele. Mas não era. Ela sabia. E ele também. O motorista deu partida. Silêncio. O tipo de silêncio que não era vazio. Era cheio demais. De coisas não ditas. De tensão acumulada. De limites recém-estabelecidos… e já sendo testados. — Você trouxe a pauta? — Pedro perguntou. Direto. Profissional. Como se nada tivesse acontecido no dia anterior. Júlia abriu a bolsa. — Sim. Entregou o tablet. Ele pegou. Sem tocar nela. Sem aproximação desnecessária. Mas, de alguma forma… isso parecia ainda mais intencional. Pedro começou a ler. Calmo. Preciso. Sem pressa. Júlia manteve o olhar à frente. Tentando ignorar a presença dele ao lado. Tentando. — Você reorganizou os pontos. Ela virou levemente o rosto. — Sim. — Mudou a ordem de negociação. — Priorizei o que pode travar o acordo. Silêncio. Ele deslizou o dedo pela tela. — E reduziu a margem. — Tornei mais realista. Pedro levantou os olhos. Olhou para ela. Direto. — Você não facilita. — Eu não erro. O canto da boca dele se moveu. Quase um sorriso. Silêncio novamente. Mas agora… diferente. Mais alinhado. Menos confronto. Mais… jogo. O carro seguiu pelas ruas ainda pouco movimentadas da manhã. Luz entrando pelos vidros. Reflexos cortando o rosto dele em ângulos duros. Júlia percebeu. O modo como ele estava mais relaxado. Sem a rigidez total do escritório. Mas ainda assim… totalmente no controle. Sempre. — Você colocou limites ontem. A frase veio sem aviso. Baixa. Sem julgamento. Júlia não olhou imediatamente. — Coloquei. — E pretende manter? Agora ela virou. — Sim. Pedro a observou. Mais lento. Mais atento. — Vamos ver. Aquilo soou como desafio. Claro. Sempre um desafio. — Isso não é um jogo — ela disse. Pedro inclinou levemente a cabeça. — Não? Silêncio. Júlia sustentou o olhar. — Não para mim. — Tudo é um jogo quando envolve escolha. A frase ficou. Pesada. Júlia desviou o olhar primeiro. Não por fraqueza. Por estratégia. Ela não ia entrar naquela lógica. Não naquele momento. O carro parou diante de um prédio alto, fachada espelhada. Ambiente corporativo. Frio. Formal. Seguro. Ou pelo menos… deveria ser. Pedro saiu primeiro. Júlia veio logo depois. A diferença era clara. Ali fora, ele não era apenas CEO. Era referência. As pessoas cumprimentavam. Afastavam-se. Observavam. E, inevitavelmente… olhavam para ela. — Fique ao meu lado — ele disse, baixo. Júlia não respondeu. Mas ficou. A recepção era ampla. Piso polido. Silêncio controlado. Foram conduzidos até uma sala de reunião no último andar. Porta fechada. Mesa longa. Três pessoas já estavam lá. Dois homens. Uma mulher. Todos atentos. — Senhor Villaça — um deles cumprimentou. — Vamos direto ao ponto — Pedro respondeu. Sem cordialidade excessiva. Sem perda de tempo. Júlia reconheceu o padrão. Ali, ele não suavizava. Dominava. A reunião começou. Rápida. Direta. Números sendo apresentados. Condições sendo discutidas. Propostas sendo testadas. Júlia acompanhava. Analisava. Corrigia mentalmente. — Essa margem é agressiva demais — disse um dos investidores. Pedro não respondeu de imediato. Olhou para o tablet. Depois— — Não é agressiva. É precisa. Silêncio. O homem insistiu: — Ainda assim, reduz nossa segurança. Pedro virou levemente o rosto. — Segurança sem resultado é estagnação. A discussão seguiu. Subiu um pouco. Desceu. Voltou. Até que— — E você? — a mulher perguntou de repente. Júlia levantou os olhos. — Desculpe? — Você está com ele. O que acha? O ambiente mudou. Levemente. Mas o suficiente. Pedro não interrompeu. Não respondeu por ela. Só… esperou. Júlia respirou uma vez. Controlado. — A margem é justa — disse. — Mas o risco precisa ser redistribuído. Silêncio. — Como? Ela deslizou o tablet na direção deles. — Ajustando essas duas cláusulas. Indicou. Clara. Direta. — Assim, o impacto se equilibra. A mulher analisou. Os outros dois também. Pedro observava. — Isso… funciona — disse um deles. Pedro não comentou. Mas o olhar dele mudou. De novo. A reunião avançou. Mais objetiva agora. Mais alinhada. E, no final— — Fechado. Assinaturas. Acordo concluído. Movimentos organizados. Pessoas se levantando. Quando saíram da sala, o corredor parecia mais silencioso. Mais leve. Ou talvez fosse só a sensação. Pedro parou. Virou para ela. — Você não hesitou. — Não tinha motivo. — Tinha. — Eu sabia o que estava fazendo. Silêncio. Ele se aproximou um pouco. — E isso é sempre verdade? — Sim. Pedro a observou. Mais tempo. Mais fundo. — Você joga bem. Júlia franziu levemente a testa. — Eu disse que não é um jogo. — E mesmo assim… Ele deu um pequeno passo mais perto. — você joga. O ar ficou mais pesado. — Eu trabalho. — Você responde. — Eu penso. — Você provoca. Júlia sustentou o olhar. — E o senhor também. Silêncio. O canto da boca dele subiu. — Finalmente estamos sendo honestos. Aquilo ficou. Forte. Eles voltaram para o carro. Agora o silêncio era outro. Menos tenso. Mais… consciente. — Você chamou atenção — ele disse. Júlia olhou pela janela. — Não era a intenção. — Mas aconteceu. — Eu não controlo isso. Pedro virou o rosto. — Controla mais do que imagina. Silêncio. Júlia respirou fundo. — Isso não muda nada. — Não? — Não. Pedro a observou. — Então por que ainda está pensando nisso? Ela virou rápido. — Eu não estou. Ele segurou o olhar dela por um segundo. Dois. — Está. O coração dela acelerou. De novo. Irritante. — O senhor gosta disso — ela disse. — Disso o quê? — De testar. — Gosto de entender. — Pessoas não são problemas para resolver. — Algumas são. Silêncio. Júlia desviou o olhar. De novo. Mas dessa vez… não totalmente por escolha. O carro entrou no estacionamento da empresa. Parou. Pedro não saiu imediatamente. Ela também não. — Júlia. Ela olhou. — Sim? Ele demorou um segundo. Como se escolhesse. — Continue assim. Pausa. — Mas não confunda controle com negação. O ar ficou mais pesado. Mais lento. Ela não respondeu. Não tinha resposta pronta. E isso a irritou. Pedro saiu primeiro. Como sempre. Júlia ficou um segundo a mais dentro do carro. Respirando. Organizando. Ou tentando. Quando voltou ao setor, Marina já estava esperando. Claro. — E aí?! Júlia deixou a bolsa. — Reunião. — Só isso? Júlia olhou para ela. — Não. Marina sorriu. — Eu sabia. — Eu fiz meu trabalho. — E ele? Júlia hesitou. Um segundo. — Ele… jogou. Marina inclinou a cabeça. — E você? Júlia virou para o computador. — Também. GANCHO FINAL Naquela noite, ao abrir o notebook, Júlia encontrou um novo arquivo compartilhado. Sem aviso. Sem mensagem. Título: “Projeto confidencial — acesso restrito: Júlia Andrade.” Ela congelou por um segundo. Porque agora não era só proximidade. Era confiança. E isso… isso era ainda mais perigoso.
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