Júlia leu a mensagem mais de uma vez.
“Com quem?”
Curta.
Direta.
Nada profissional.
E, ainda assim… controlada.
Ela não respondeu.
Não de imediato.
Deixou o celular sobre a mesa.
Abriu o notebook.
Tentou trabalhar.
Não funcionou.
Porque a pergunta não era só curiosidade.
Era outra coisa.
Posse?
Interesse?
Controle?
Ou tudo junto.
Ela pegou o celular novamente.
Digitou.
Apagou.
Digitou de novo.
“Não é da sua conta.”
Ficou olhando.
Não enviou.
Apagou.
Respirou fundo.
E respondeu:
“Resolvi algumas coisas.”
Neutro.
Seguro.
A resposta veio em menos de um minuto.
“Amanhã. 8h. Minha sala.”
Não foi pedido.
Foi decisão.
Júlia soltou um ar lento.
Claro.
Na manhã seguinte, ela chegou no horário.
Sem atraso.
Sem antecipação.
Controlada.
Mas o corpo… não totalmente.
— Vai subir? — Marina perguntou.
— Vou.
— Boa sorte.
Júlia não respondeu.
Ela bateu.
— Entra.
A voz dele.
Calma.
Júlia entrou.
Pedro estava atrás da mesa.
Formal.
Impecável.
Distante.
Como se nada tivesse acontecido.
Aquilo incomodou.
Mais do que deveria.
— O senhor pediu para me ver.
— Pedi.
Ele não se levantou.
Não se aproximou.
Nada.
Aquilo… era novo.
— Temos um projeto.
Direto.
Júlia franziu levemente a testa.
— O projeto confidencial?
— Não.
Ele deslizou um documento pela mesa.
— Outro.
Ela pegou.
Leu rápido.
Contrato internacional.
Negociação externa.
Parceria estratégica.
E então—
— Isso é fora do país.
— Sim.
Silêncio.
— E eu estou incluída?
Pedro sustentou o olhar.
— Você é a principal.
Aquilo bateu.
Forte.
— Por quê?
— Porque você entrega.
Simples.
Direto.
E irritantemente convincente.
— Quanto tempo?
— Uma semana.
Silêncio.
— Quando?
— Amanhã.
O coração dela acelerou.
— Isso é em cima da hora.
— Eu sei.
— Eu tenho outras demandas.
— Eu já realoquei.
Silêncio.
Ele tinha pensado em tudo.
Claro que tinha.
— Quem mais vai?
Pedro não respondeu de imediato.
Só observou.
E então—
— Eu.
O ar mudou.
Na hora.
Júlia sustentou o olhar.
— Só nós dois?
— Sim.
Silêncio.
Aquilo não era só trabalho.
E os dois sabiam.
— Isso não é uma boa ideia.
Pedro inclinou levemente a cabeça.
— Profissionalmente?
— Não.
— Então é.
Aquilo foi direto.
— Não distorce.
— Não estou distorcendo.
Ele deu um pequeno passo para frente.
Mas ainda mantendo distância.
— Você disse que quer manter no profissional.
Silêncio.
— Isso é trabalho.
— E também é proximidade.
— Controlável.
Júlia soltou um ar leve.
— Você realmente acredita nisso?
Pedro segurou o olhar dela.
— Eu acredito em controle.
Silêncio.
Aquilo quase soou como provocação.
Mas não era.
Era desafio.
— Eu não vou aceitar algo que me coloque em posição vulnerável.
— Você não está vulnerável.
— Estou.
Pedro se aproximou um pouco mais.
— Então prova que não está.
Aquilo ficou.
Pesado.
Júlia desviou o olhar por um segundo.
Pensando.
Processando.
Uma semana.
Outro país.
Sem distância.
Sem rotina.
Sem fuga fácil.
Perigoso.
Muito.
Mas também…
irrecusável.
— Eu aceito.
A frase saiu firme.
Antes mesmo dela tentar suavizar.
Pedro não sorriu.
Mas o olhar mudou.
Levemente.
— Eu sei.
Aquilo irritou.
— Não assume coisas que você não pode garantir.
— Eu não estou assumindo.
Pausa.
— Eu estou observando.
Silêncio.
Júlia fechou o documento.
— Isso continua sendo trabalho.
— Continua.
— Sem jogos.
— Sem jogos.
Silêncio.
— Sem ultrapassar limite.
Pedro sustentou o olhar.
— Isso depende dos dois.
Aquilo ficou.
Claro.
Ela assentiu.
— Eu vou me organizar.
Pedro não respondeu.
Júlia virou.
Deu dois passos.
— Júlia.
Ela parou.
Virou.
Pedro a observava.
Mais atento.
Mais sério.
— Ontem.
Silêncio.
— Você não respondeu.
Ela segurou.
— Não era necessário.
— Era.
Silêncio.
— Com quem você estava?
Direto.
Sem suavizar.
Júlia sustentou o olhar.
— Isso não é profissional.
Pedro não desviou.
— Eu sei.
Silêncio.
Ela não respondeu.
Não ia responder.
Pedro inclinou levemente a cabeça.
— Então eu descubro.
Aquilo foi baixo.
Calmo.
E muito mais perigoso do que qualquer tom elevado.
Júlia não reagiu.
Mas sentiu.
— Até amanhã.
Ela disse.
E saiu.
No corredor…
o ar parecia mais pesado.
Porque agora não era só tensão.
Era proximidade inevitável.
Quando voltou ao setor, Marina levantou na hora.
— E aí?
Júlia deixou a bolsa.
— A gente vai viajar.
Silêncio.
— COMO ASSIM?
— Trabalho.
— Só vocês?
Júlia demorou um segundo.
— Sim.
Marina arregalou os olhos.
— Isso vai dar muito errado.
Júlia virou para o computador.
— Ou muito certo.
Silêncio.
GANCHO FINAL
Naquela noite, a mensagem chegou.
Pedro: “Passo às 6h.”
Sem pergunta.
Sem explicação.
Júlia leu.
Respiração lenta.
E então respondeu:
“Eu não me atraso.”
Silêncio.
E a última mensagem veio:
“Eu sei.”
Agora não tinha mais distância.
Só tempo.